GABRIELA, O DIREITO E O PODER* – por Paulo Ferreira da Cunha

*Primeiro capítulo de um Ensaio integrado no livro Filosofia Jurídica Prática, Lisboa, QuidJuris, 2009 / Belo Horizonte, Forum, 2009, reproduzido com autorização das editoras.

  

Atrasados e ignorantes

Incapazes de compreender

Os tempos novos, o progresso, a civilização

Esses homens já não podem governar

“de um artigo do Doutor no Diário de Ilhéus”,

in Jorge Amado — Gabriela, Cravo e Canela,

93.ª edição, Rio de Janeiro, Record, 2006, p. 83.

 O celebradíssimo romance[1] de Jorge Amado Gabriela, Cravo e Canela[2] é a narrativa verdadeira e fantástica da estória de Ilhéus no ano dos prodígios de 1925. E, a partir dela, o autor eleva-se a uma perspectiva do político e do jurídico mais amadurecida (decerto também curtida com as suas próprias desilusões políticas [3]), mais abrangente, como fenómenos sociais imbricados entre si e em contexto social, e cujas ligações com a ética são complexas, pela própria natureza do direito e da política.

Ilhéus, a “Princesinha do Sul”, capital da Costa do Cacau, era uma pacata e ajardinada cidade baiana governada por “coronéis”, onde florescia a virtude pública cultivada pelo preconceito, e a hipócrita descrição do vício privado.

Até a principal oposição política era de algum modo devedora (e por vezesse diria “atenta, veneradora e obrigada”) do poder estabelecido.

Porém, nesse ano das maravilhas de 1925, tudo vai mudar. O cacau enriquecera a cidade, e atrás do dinheiro vem a mudança das cabeças e dos costumes. Por razões semelhantes, em Portugal, Oliveira Salazar nos queria pobrezinhos… O bucolismo dos brandos costumes das sociedades ditas frias (Lévi-Strauss) é sempre mito de estagnação social, logo, de mais fácil governação ou manipulação pelos poderes conservadores ou tradicionalistas instituídos.

Os desejos da oposição não colaboracionista e a ambição do jovem exportador, Raimundo (Mundinho) Falcão confluem em projectos para o porto e em vozearia do reviralho no novo jornal da terra.

Um coronel assassina, segundo velha “lei” e tradição, sua mulher e o amante, um jovem dentista. Mas se nos funerais quase não se vê vivalma, ainda imperando o preconceito, já um pouco mais tarde, numa romagem ao túmulo do assassinado, o povo muda de opinião e acorre em massa.

Nacib, um sírio vindo em criança para o Brasil, personagem tragicómico e pícaro (mas onde, como veremos, repousa muito bom senso), cultiva boas relações com todos os partidos no bar de que é dono, de nome evocativo: o Vesúvio. E toma-se de amores por Gabriela, uma retirante de uma sensualidade sem malícia e sorriso luminoso que empregara como cozinheira. Será naturalmente traído, porque traição não era sequer concebível por essa beleza selvagem. E o galã e sedutor de turno, Tonico Bastos (filho do patriarca da terra, e que se afirma, curiosamente “liberal-conservador” no seu tango na série televisiva respectiva) sairá da estória ainda mais ridículo que o marido enganado – o qual, como veremos, acabará “juridicamente” por nem o haver sido

Mais importante que o idílio do sírio e da morena (que o autor envolve de doce lirismo) Gabriela é o retrato de uma cidade num período de transição.

Com todos os seus caracteres sociais e políticos: desde as prostitutas e as meninas com casa posta pelos coronéis – mas uma delas, Glorinha, irá rebelar-se e namorar o tímido professor –, ao velho patriarca sabido, raposa matreira, o coronel Ramiro, temido por quase todos. Paulo Gracindo faz um papelão na telenovela… com aquele charuto sapiente de ditador tropical, saboreando os vícios dos homens. Passando por uma Malvina que se apaixona por um engenheiro tíbio, encontrando assim saída para a sua vida num grito do Ipiranga pessoal que a leva ir a viver sozinha em São Paulo (onde trabalhará e estudará), obviamente renegada pelo pai coronel.

Tempo que vemos desfilar diante de nós, e que se vai acelerando. O fim do “antigo regime”, e o começo da modernidade. Não será preciso sequer chegar às eleições para a mutação política. Primeiro vem a mudança social, e das mentalidades. E essa é a determinante. O coronel Ramiro morre placidamente durante o sono, e logo os seus sucessores oferecem o poder a Mundinho, a troco apenas de que lhes poupe (e aos amigos) as cabeças e as sinecuras. Sic transit…

E Mundinho aceita. Na telenovela, acaba tudo em beija-mão, com um oposicionista feito novo coronel. Mas se no plano político pode ter tudo ficado muito na mesma, a verdade é que Glória e o professor não serão espancados pelo traído coronel respectivo, e pela primeira vez na história de Ilhéus seria condenado pelo júri o outro coronel que assassinara esposa e amante. Muito mudara, afinal, nesse ano de 1925.


[1]Foi editado em 1958, e já em 1959 foi distinguido com os prémios Machado de Assis, Paula Brito, Luísa Cláudia de Sousa, Carmem Dolores Barbosa e Jabuti.

[2]Seguimos a 93.ª edição, Rio de Janeiro, Record, 2006. As citações têm indicação das respectivas páginas nesta edição.

[3]Sobre o lugar deste livro no trajecto do autor, cf., v.g., GOLDSTEIN, IlanaSeltzer — O Brasil BestSeller de Jorge Amado. Literatura e Identidade Nacional, São Paulo,

Senac, 2003, p. 152 e ss.

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