JORGE AMADO E A MODERNIDADE BRASILEIRA – por Sílvio Castro

 A vida de Jorge Amado – desde o seu nascimento em 1912, até o ano da morte em 2001 – cobre especificamente o quanto podemos denominar de o Brasil do século XX.

Nascido no sul da Bahia,  no município de Itabuna, filho de uma familha de pequenos proprietários de terra, ele se integra numa nova zona do desenvolvimento econômico brasileiro, aquela do cacau. Resultada da diversificação do processo da produção agrícola-industrial do Brasil a que assistem os primeitos tempos da República, processo de produção que se colega com a tradição econômica brasileira de origem colonial, estabilizada pelo período monárquico independente do país, a partir de 1822, a cultura cacaueira é uma daquelas que preanunciarão uma nova fisionomia sócio-econômica do nordeste, antes fortemente condicionada pelas mono-culturas agrícolas surgidas desde o século XVI, em particular por aquela da cana-de-açúcar. O cacau do sul da Bahia já mostra, ainda que em primeiras fases, o desmembramento da presença avassaladora dos grandes latifúndios brasileiros e, em particular, os do nordeste. Com esse e como consequência da transformação do sistema de trabalho, já então não exclusivamente escravista, pois os resultados da Lei da Libertação dos Escravos, de 1888, já começavam a aparecer em formas evidentes, e sendo tal novo sistema mais diretamente ligado ao trabalho remunerado e assistido, como consequência lógica de tudo isso desvaloriza-se a dimensão própria dos latifúndios. Surgem então pequenas propriedades, com uma presença ativa e mais direta do dono das terras, gestor de um sistema laborial que oscila entre o servil – derivado direto do antigo regime – e o objetivamente livre. O nordeste em geral, e a Bahia, em particular, começam então a pressentir a chegada de novos tempos de progresso.

O pequeno Jorge muito cedo se transfere com a família, da fazenda natal, Auricídia, município de Itabuna, para Ilhéus onde transcorre a infância. Logo em seguida, já na capital do estado, Salvador, ele faz os estudos secundários no Colégio Antônio Vieira, dos jesuítas, e no Ginásio Ipiranga. Esta duplicidade de formação alarga fortemente a mentalidade do adolescente, futuro grande escritor de raro empenho social. A primeira organização dialética do jovem Jorge Amado, recolhe do típico método didático dos jesuítas particular atenção para a dialética própria de uma reencontrável dualidade das coisas e dos conceitos gerais; conquista essa que logo se alargará na direção de um novo processo dialético, de natureza coerentemente leiga, recolhido nos ensinos da escola pública.  Toda essa multiplicidade de pensamentos permitirá ao escritor brasileiro, durante toda a sua existência, de apresentar-se diante de seu mundo, não somente aquele nacional, com constante e serena capacidade de com ele conviver e interpretá-lo.

O adolescente Jorge Amado, no ambiente da sua da cidade ideal, Salvador,  parte para a maior comparticipação com o mundo, ao lado de seus coetâneos e imediatamente na direção que será sempre aquela de toda a sua vida, a cultura. Para isso, faz a primeira experiência de vida e de comunicação trabalhando nos jornais locais e integrando-se na vida literária da capital baiana. São os anos tumultuados da década de 20, a mesma que no sul do país, vè surgir a revolução propugnada pelo Movimento Modernista, de 1922. A vida do Brasil, na qual os violentos desníveis de desenvolvimento sócio-econômico das diversas regiões, desníveis geradores de um amplo quadro de sub-desenvolvimento, presente principalmente nas regiões norte e nordeste, nesses anos se traduzem pelos mais contraditórios episódios da vida política nacional. E tudo isso vem captado por Jorge Amado e seus jovens companheiros de ideais. A dita 1ª. República está chegando ao máximo de uma crise que a acompanha desde o seu momento inaugural, a 15 de novembro de 1889. Por todo o país, o poder federal vascila, e as previstas eleições presidenciais para a sucessão de Washinton Luís, em 1930, assistem a movimentos de rebeliões e violências por todo o território nacional, em particular no nordeste. Em 1929 vem criada a Aliança Nacional e lançada a candidatura do governador do Rio Grande do Sul, Getúlio Vargas. Realizam-se as eleições, sendo declarado vencedor Júlio Prestes. O país em forte tumulto mais ainda se agita neste 1930 com o assassinato na Paraíba do governador do estado, João Pessoa. Em 3 de outubro do mesmo ano principia no Rio Grande do Sul o movimento armado contra o governo federal. Logo em seguida, Minas Gerais e Paraíba aderem ao mesmo. As tropas revoltosas chegam ao Rio de Janeiro e em 24 de outubro Washinton Luís é deposto. Logo depois, Getúlio Vargas é nomeado chefe do governo provisório. Começa então uma política nova: em 1931 cria-se o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio; o ministro da Educação, Francisco Campos, inicia uma reforma do ensino; já em 1932, superada a rebelião de São Paulo, vem promulgado o novo Código Eleitoral que, entre outras decisões, estabelece o voto livre e o direito das mulheres a votarem e serem votadas. Começava  assim um novo tempo para o Brasil, já então contaminado pela modernidade cultural nascida  com a Semana de Arte Moderna, de 1922, em São Paulo. Modernismo e modernidade se unem cultural e politicamente para planejar um Brasil que saiba superar substancialmente sua crônica situação de país em insuportável estado de subdesenvolvimento.

O jovem Jorge Amado, neste histórico ano de 1930, procura alargar os seus espaços

de vida e formação, transferindo-se para o Rio de Janeiro, onde se inscreve na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, futura Faculdade Nacional de Direito – centro de grande ativismo cívico dos jovens acadêmicos –, concluindo o seu curso e bacharelando-se em Direito em 1935. Não exercerá em momento algum de sua vida a profissão de advogado.

Jorge Amado, que estreiara literariamente em 1931 com a publicação do romance O País do Carnaval, de marcadas linhas modernistas, integrado no Partido Comunista Brasileiro, criado em 1922, apenas passados três anos da vitória da revolução soviética na Russa de Stalin, se faz uma das vozes mais ativas em favor dos novos ideais. O ativismo partidário do jovem escritor baiano o conduz igualmente à criação de uma obra literária de total empenho político. Desde então ele se considera mais um escritor da modernidade, do que um aderente ao modernismo. Essa é praticamente a mesma linha caracterizante do grupo de autores do chamado “romance do nordeste“, de grande importância para a literatura brasileira do século XX, composto por escritores como José Américo de Almeida, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Raquel de Queirós, José Lins do Rego e outros.

Começando com o romance Cacau, de 1933, Jorge Amado cria um ciclo raro de literatura do empenho político, fortemente carregada de mensagens ideológicas, que se evolve principalmente pelos anos das década de 30 e 40, com títulos como Capitães da Areia, 1936; Mar Morto, do mesmo ano; chegando até a trilogia de Os Subterrâneos da Liberdade, já na primeira metade da década de 50 . Com a continuidade dessa obra que procurava traduzir um momento de forte crise da realidade brasileira, Jorge Amado se faz um escritor de grande fama, com intensa difusão igualmente no exterior.

Tal ativismo político-literário do romancista baiano, ao lado de um grande sucesso de público, leva o escritor a viver o período central de uma existência partecipante com a sua realidade civil. São os anos difíceis porque passa igualmente o governo Getúlio Vargas, o mesmo que começara com amplas perspectivas de mudanças sociais, principalmente ligadas ao problema do trabalho, mas que não encontrara a fórmula definitiva para a sua organização. Tudo isso em um Brasil que apresentava os primeiros sintomas de um progresso econômico capaz de combater contra o seu histórico estado de subsdesenvolvimento. Nesses anos principia aquilo que um mestre da política econômica, como o era Celso Furtado, define o processo brasileiro como aquele de a evolução de uma economia num estado de subdesenvolvimento.

No plano da ação da política do governo Vargas, isto em correspondência com a reação geral de todos os períodos oficiais depois de 1922, assiste-se a uma constante hostilidade ao PCB e às suas manifestações. Tal posição cria uma tensão política constante que, em 1935, explode com a perseguição do governo aos comunistas, acusados de rebelião pela chamada “intentona comunista”, inaugurada no nordeste sempre aceso, para logo em seguida atingir as camadas do poder oficial no Rio de Janeiro. Jorge Amado sofre então as primeiras perseguições oficiais, inaugurando uma larga experiência de prisões políticas e exílios pessoais.

Chegado o ano de 1937, Getúlio Vargas, por meio de um golpe político, dá por concluido o seu período institucional, criando o Estado Novo, forma brasileira muito semelhante aos regimes de direita presentes em vários países da Europa. Começa para o Brasil um longo período que vai até 1945, período esse fortemente paradoxal que, ao lado de uma evolução continuada da economia nacional e de uma evidente evolução em vários setores da vida pública – em particular quanto ao sistema do trabalho, com uma legislação trabalhista saliente – se manifesta em completa antítese quanto aos seus atos referentes à liberdade civil. Dentro deste quadro, Jorge Amado foi em várias ocasiões perseguido com a acusação de subversão. Assim, em 1941 e 1942, viu-se constrangido ao exílio  na Argentina e no Uruguai. Neste período o escritor realizou longas visitas aos países da América Latina.

Com o fim da II Guerra Mundial, na qual o Brasil participou ao lado dos demais países democráticos componentes da formação vencedora dos “Aliados“, de consequência, o poder totalitário de Getúlio Vargas termina, com o cessar correspondente do Estado Novo e a proclamação de eleições gerais.

Em 1945 Jorge Amado foi eleito membro da Assembléia Constituinte pelo Partido

Comunista Brasileiro, tendo sido o candidato mais votado no estado de São Paulo. Porém, em 1947, sempre seguindo a geral tendência do poder político nacional de aversão ao comunismo e aos comunistas, o PCB foi declarado ilegal. Então Jorge Amado deve retomar a via do exílio, partindo com a família para a França, aonde permaneceu até 1950, quando se viu expulso. Passa a viver daí até 1952, em Praga. Depois, em viagens pela URSS.

De retorno num Brasil finalmente entrado em situação de maior estabilidade política, em 1955 Jorge Amado afasta-se definitivamente da política, dedicando-se por inteiro à literatura e a uma nova fase de sua criatividade artística. Inicia então uma fase de produção literária que virá classificada pela crítica literária brasileira como uma verdadeira nova etapa criadora do escritor baiano, a começar com Gabriela, Cravo e Canela, de 1958, grande sucesso de vendas nacionais e internacionais, o mesmo romance que logo depois, em forma de tele-novela, fascina e conquista os expectadores brasileiros, bem como aqueles de muitos outros países. O mesmo sucesso, já agora à linguagem cinematográfica, se verifica com Dona Flor e Seus Dois Maridos, de 1966. O ponto alto desta fase, podemos possivelmente encontrá-lo na edição de 1961 de A Morte e a Morte de Quincas Berro Dágua, juntamente com Os Velhos Marinheiros ou A Completa verdade sobre as discutidas aventuras do Comandante Vasco Moscoso de Aragão, capitão de longo percurso.

Ao lado de uma tal magnífica produção artística, Jorge Amado se apresenta ainda como um incentivador das atividades culturais, comparticipando, em 1960, do moderno evento nacional da criação da nova capital federal, Brasília, ao lado de seus grandes amigos Lúcio Costa, Oscar Niemeyer e Joaquim Cardoso; emprestando sempre sua fama a entidades literárias, como a União Brasileira de Escritores; partecipando diretamente na organização de manifestações públicas pela cultura tanto no Rio de Janeiro, quanto no seu estado da Bahia; sempre apoiando e incentivando os jovens escritores brasileiros. Nessa atmosfera de difusa criatividade, vem eleito, em 1961, para a Academia Brasileira de Letras, para a cadeira 23, na sucessão de João Mangabeira.

Quando, em 1964, o Brasil retomba em momentos obscuros na sua realidade política, num movimento que vinha para negar toda a adesão até então viva para com o fenômeno de uma maior modernidade nacional, o regime militar, o mesmo que por longos anos dominará todos os cenários da vida nacional, Jorge Amado se mantém vivo e ativo na luta pela restauração mais próxima possível da normalidade civil brasileira. Então, na vida interna do país, cria opiniões e incentiva os ânimos mais avançados; naquele internacional, por ele frequentado por iniciativa própria e por convites diretos em ocasiões dos numerosos prêmios literários conquistados em Portugal, Espanha, França, Itália, bem como nas oportunidades das honras doutorais acadêmicas que recebe em dez oportunidades por parte de universidades européias, o grande escritor difunde a concepção de um Brasil moderno e solidário com a comunidade internacional. Assim o fará até o momento em que, vinte anos depois, o Brasil reentra no seu normal ritmo de uma grande nação democrática.

Quando o escritor comemora os seus 80 anos, em 1992, por várias partes do mundo se abrem os cenários para a comemoração do evento. O mesmo encontra seu ponto culminante no I Simpósio Internacional de Estudos sobre Jorge Amado, Fundação Casa de Jorge Amado (entidade pública criada em 1987), Salvador, Bahia, 9-14 de outubro de 1992. São oitenta anos de vida de um escritor universal dedicados profundamente ao permanente processo da modernidade brasileira. A mesma que continua por todo o final do complexo século XX.

Jorge Amado continua presente ao processo brasileiro de desenvolvimento, mas

igualmente atento aos eventos internacionais que se acumulam então em grande progressão. Quando em 1989 cai o muro de Berlim e logo em seguida, em 1991, tem fim a URSS e com ela os regimes comunistas de toda a Europa, ele comparticipa dos eventos, porém, sem jamais negar seus pessoais princípios ideológicos, os mesmos que sempre guiaram uma existência de exemplar comparticipação com os ideais próprios da liberdade democrática.

Assim ele continua a percorrer a própria existência até quando, no dia 6 de agosto de 2001 lhe chega a morte. Mas, para ele ficara ainda clara a convicção de que o Brasil estava por tomar logo em seguida a linha mais ampla de sua modernidade.

Nota final:

Alguns estudos de Sílvio Castro

sobre Jorge Amado –

“Jorge Amado: 60 anos de Brasil“, Roma, 1990.

“A recepção crítica da obra de Jorge Amado“, Salvador, 1992.

“Jorge Amado e la realtà brasiliana“, Turim, 1992.

“Recepção da obra e a mulher como personagem em Jorge Amado“, Roma, 1993.

“Jorge Amado e a Itália“, Rio de Janeiro, 2001.

“A África no romance brasileiro contemporâneo: Josué Montello, Adonias Filho, Jorge Amado, Antonio Olinto“, Coimbra, 2005; e Rio de Janeiro, 2006.

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