“A VIDA DOS SONS”: deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (VI) – 3 – por Álvaro José Ferreira

1973 – (Continuação)

6. Falecimento do regente de orquestra alemão Otto Klemperer; nascido em 1885 na cidade de Breslau (actual Wrocław, na Polónia), fez os estudos musicais em Frankfurt e depois em Berlim; em 1905, encontra-se com Gustav Mahler, cuja Sinfonia n.º 2 vem a dirigir [Allegro maestoso >> YouTube]; é tal o agrado do compositor com a prestação do jovem Klemperer que o recomenda para a direcção da Ópera Alemã de Praga, cargo que assume em 1907; passa depois por importantes teatros de ópera da Alemanha até que em 1933, com a chegada dos nazis ao poder, e sendo judeu, se vê impelido a emigrar; vai para os Estados Unidos da América, onde lhe é confiada a direcção da Los Angeles Philharmonic, dando primazia ao repertório germânico, particularmente Beethoven, Brahms e Mahler; após a II Guerra Mundial, regressa à Europa e trabalha na Ópera de Budapeste (1947-50), regendo depois outras reputadas orquestras europeias, entre as quais a Concertgebouw Orchestra, de Amesterdão [Sinfonia n.º 2 “Ressureição”, de Mahler, com a contralto Kathleen Ferrier, 1951 >> YouTube];


7. Falecimento do músico brasileiro Pixinguinha; o seu nome verdadeiro era Alfredo da Rocha Vianna Filho (ou Júnior); a alcunha “Pixinguinha” é uma mistura de “Pizindim” (pequeno bom), nome posto por uma prima, e “Bexinguinha”, que surgiu depois de ter tido bexigas (varicela); nascido em 1897, no Rio de Janeiro, a sua ligação ao mundo da música foi precoce; logo aos doze anos de idade, começou a tocar cavaquinho, acompanhando o pai em bailes; aos treze, já tocava bombardino e flauta; depois de iniciar os estudos de música, compôs “Lata de Leite”, a sua primeira peça no estilo musical “choro”, inspirado nos boémios (“os chorões”, como eram chamados), que bebiam o leite deixado nas portas das casas, quando voltavam dos locais de diversão nocturna; em 1911, entrou, como flautista, para a orquestra da Sociedade Dançante e Carnavalesca Filhas da Jardineira e integrou grupo Choro Carioca com o qual gravou os seus primeiros discos: “São João Debaixo D’Água”, “Nhonhô em Sarilho” e “Salve (A Princesa de Cristal)”; a actividade musical do jovem flautista estendeu-se por vários grupos, casinos e teatros, a ponto de, em 1915, Pixinguinha se afirmar já como uma das principais figuras da música popular brasileira; nesse mesmo ano, gravou duas das maiores composições do seu repertório: “Rosa” [>> YouTube] e “Sofres Porque Queres” [>> YouTube]; é um dos elementos do grupo “Os Oito Batutas”, formado em 1919, que atinge grande sucesso em todo o Brasil; composto por flauta, violões, piano, bandolim, cavaquinho e percussão, “Os Oito Batutas” foi o primeiro conjunto regional a actuar fora do país, nomeadamente em França, no ano de 1922; esta experiência transformou significativamente a música de Pixinguinha, pois o músico contactou pela primeira vez com o jazz americano, então moda em Paris; em 1923, compôs “Carinhoso”, um dos seus maiores sucessos [>> YouTube]; a década de 30, participou em gravações históricas nomeadamente nos êxitos de Carmen Miranda, “Taí (pra você gostar de mim)” [>> YouTube] e “O Teu Cabelo Não Nega”; nos anos 40, deparou-se com várias adversidades, entre as quais a doença da sua mulher, Bety (Albertina Nunes Pereira), os seus próprios problemas cardíacos, e um decréscimo do seu sucesso, motivado pela entrada em força da música norte-americana nas rádios; em meados da década, trocou definitivamente a flauta pelo saxofone, formando uma dupla com o flautista Benedito Lacerda; na década de 50, gravou seis discos, destacando-se “Os Cinco Companheiros”, “Pixinguinha e a Sua Banda” e “Carnaval dos Bons Tempos”; em 1962, juntou-se a Vinicius de Moraes, para a composição da banda sonora do filme “Sol Sobre a Lama” (1963), de Alex Viany; dessa parceria surgiram os sucessos “Lamentos” [>> YouTube] e “Mundo Melhor”; depois de alguns anos sem actividade musical devido a problemas de saúde, tocou, em 1966, na Noite de Pixinguinha, espectáculo em sua homenagem; após a morte de sua mulher, ocorrida em 1972, compôs ainda “Eduardinho no Choro”, dedicada ao seu segundo neto; no seu espólio, foram encontradas inúmeras obras inéditas, que ao longo dos anos vem sendo gravadas por diversos músicos e grupos; em Portugal, o músico José Peixoto gravou um álbum exclusivamente constituído por composições suas, intitulado “Carinhoso: a Música de Pixinguinha” (2002), contando com a participação especial dos cantores Luís Represas, Maria João e Manuela Azevedo [tema “Carinhoso”>> YouTube];

8. Falecimento do sociólogo brasileiro Josué de Castro; licenciado em Medicina e em Filosofia, estudou os problemas da alimentação e da nutrição, tornando-se um pioneiro nesta matéria no Brasil e no mundo; exerceu o cargo de presidente da FAO (Food and Agriculture Organization), entre 1952 e 1956, deparando-se com fortes entraves dos países desenvolvidos à execução de projectos voltados para o desenvolvimento do Terceiro Mundo; perseguido pela ditadura militar instaurada em 1964, viveu os últimos anos de vida no exílio, vindo a falecer em Paris; as suas obras “Geografia da Fome: A Fome no Brasil” (1946), “Geopolítica da Fome” (1951) e “A Explosão Demográfica e a Fome no Mundo” (1968) são de referência obrigatória sempre que se pretende reflectir sobre as condições de vida no mundo subdesenvolvido (ou em vias de desenvolvimento, como é politicamente correcto dizer-se) [>> YouTube];

9. Falecimento do cineasta norte-americano John Ford; de ascendência irlandesa, chamava-se Sean Aloysius O’Fearna; estreou-se como actor, com o nome de Jack Ford, em “The Mysterious Hand” (1914), realizando o seu primeiro filme “The Tornado”, em 1917; dedicou-se a múltiplos géneros, mas foi no western que alcançou maior reconhecimento e projecção mundial com uma miríade de filmes, quase todos com John Wayne a encabeçar o elenco, entre os quais se contam: “O Cavalo de Ferro” (“The Iron Horse”, 1924) [>> YouTube], “A Patrulha Perdida” (“The Lost Patrol”, 1934), “Cavalgada Heróica” (“Stagecoach”, 1939) [>> YouTube], “A Paixão dos Fortes” (“My Darling Clementine”, 1946) [>> YouTube], “O Fugitivo” (“The Fugitive”, 1947) [>> YouTube], “Os Três Padrinhos” (“Three Godfathers”, 1948) [>> YouTube], “Forte Apache” (“Fort Apache”, 1948) [>> YouTube], “Os Dominadores” (“She Wore a Yellow Ribbon”, 1949) [>> YouTube], “Caravana Perdida” (“Wagonmaster”, 1950) [>> YouTube], “Rio Grande” (1950) [>> YouTube], “A Desaparecida” (“The Searchers”, 1956) [>> YouTube], “O Homem que Matou Liberty Valance” (“The Man Who Shot Liberty Valance”, 1962) [>> YouTube], “A Conquista do Oeste” (“How the West Was Won”, 1962) [>>YouTube] e “O Grande Combate” (“Cheyenne Autumn”, 1964) [>> YouTube]; recebeu quatro Óscares na categoria de melhor realizador, pelos filmes “O Denunciante” (“The Informer”, 1935) [>> YouTube], “As Vinhas da Ira” (“The Grapes of Wrath”, 1940) [>> YouTube], “O Vale Era Verde” (“How Green Was my Valley”, 1941) [>> YouTube] e “O Homem Tranquilo” (“The Quiet Man”, 1952) [>> YouTube], feito ainda não igualado por outro realizador; John Ford é incontestavelmente um dos nomes maiores da Sétima Arte, dele tendo recebido influência, entre outros, David Lean, Orson Welles, Sergio Leone, Ingmar Bergman, Akira Kurosawa, Stanley Kubrick, George Lucas e Martin Scorsese;