Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota
Nota de leitura
Num mundo em que a crença dos Deuses ou nos Deuses se poderia ter perdido para acreditarmos nos homens, nos nossos políticos, nos homens que dirigem a alta finança, que dirigem os nossos países, que nos governam, em suma, eis uma peça a mostrar que até desse ponto de vista somos órfãos por morrer mais uma base possível de fé, de esperança: a crença na boa-fé destes sujeitos. Mas a esperança, queira-se ou não, é sempre feita de pequenos nadas e em nada é assente, por isso tenhamos esperança, esperança de que os havemos de vencer. Façamos então por isso, dê-se consistência à esperança, é o mínimo que historicamente nos é exigido.
Júlio Marques Mota
É melhor dirigir-se a Deus que aos Traders
Marc Roche (Lettre de la City)
Ah estes corretores da casa Bloxham! Estes banqueiros requintados e refinados, obviamente inspiram confiança à Madre Superiora da ordem das Irmãs da Santa Fé em Dublin. As capacidades do pessoal desta prestigiada instituição financeira irlandesa é reconhecido. O seu nome é altamente respeitado e têm muitos contactos dentro do sistema financeiro e comercial da Ilha Verde, assim como na City de Londres. O que é que poderia haver de melhor?
Assim, em 2006, esta congregação fundada no século XIX para ajudar os órfãos e crianças pobres investiu de olhos fechados uma grande parte das suas disponibilidades, dos seus activos, em títulos vendidos por estes profissionais, aforrando assim a sua virtude. Uma aplicação em bom pai de família , sólida, moderada, sobre a qual poderão vigiar os operadores de Bloxham como sobre a menina dos seus olhos.
Além disso, se esses instrumentos híbridos chamados hybrid structured euro constant maturity swap notes não tranquilizam, será que o emitente, Morgan Stanley, um dos mestres de referência de Wall Street se terá metido numa perigosas aventura, com a experiência que reconhecidamente este banco tem? Nada de rendimentos espectaculares mas também nada mesmo de grande risco afirma, portanto, a publicidade de modo convidativo.
Dito e feito. Como as Irmãs da Santa Fé, uma centena de pequenos investidores compraram o produto financeiro em questão. Mas em 2009, as suas poupanças transformaram-se em fumaça com uma perda de 20 milhões de euros. Pelo seu lado, o Morgan Stanley teria feito um lucro de 10 milhões de euros.
Em Agosto de 2010, os investidores que se sentem devorados, processaram Morgan Stanley nos tribunais britânicos. Um acordo de compensação foi amigavelmente concluído a 19 de Junho de 2012. Pela sua parte, Bloxham, que teria por esta via encaminhado as freiras, foi forçado pelo Banco Central da Irlanda a cessar as suas operações após a descoberta de “irregularidades financeiras”.
Como é que se explicam estes reveses financeiros das Irmãs de Santa Fé, cujo património foi profundamente lesado ?
A alta finança, actividade de uma minoria protestante
Ser rico e protestante, é possível e é permitido, tanto quanto os activos não são transformados num bezerro de ouro. No entanto, esta não é a ideia na Igreja Católica. O dinheiro suscita suspeita, rejeição e vergonha desde o Concílio de Latrão de 1139 que condenou o crédito e a usura, a base da finança.
Ao longo da História, essa regra manteve-se intocável, com algumas mas poucas excepções, como os lombardos, criadores no século XII de letras de câmbio. Ora a Irlanda é um país de religião católica e romana como não há nenhuma outro . A religião maioritária faz parte da vida quotidiana. Neste contexto, a alta finança é geralmente uma actividade de uma minoria protestante, que governou a ilha até à sua divisão, em 1921, entre o Sul e o Norte.
O Papa tem regularmente condenado a ganância da sociedade moderna e a sua sede do consumo, mas não é menos verdade que a Igreja drena recursos significativos que esta deve fazer frutificar, crescer. A Igreja deve pagar a manutenção das igrejas e das suas escolas, o pagamento de salários e de pensões dos sacerdotes e deve expandir as suas missões no exterior. As Irmãs de Santa Fé construíram uma vasta rede de implantações no exterior, particularmente nos Estados Unidos, Nova Zelândia, Austrália, Samoa e América do Sul.
E é aí que bate o ponto. Na verdade, mal apetrechadas, as instituições religiosas são presa fácil para os bancos de negócios, “que têm o hábito de quererem passar e fingir que são o melhor amigo de alguém quando na verdade eles estão simplesmente a tentar vender seja o que for” , na opinião de Bethany McLean, jornalista da Vanity Fair, ex-analista de Wall Street.
Por outro lado, no direito anglo-saxónico, a regra do caveat emptor (“a responsabilidade é do comprador”) atribui a responsabilidade ao cliente e não ao vendedor. Na Europa continental, onde os compradores estão mais bem protegidos, este escudo é facilmente contornado por contratos expressos em inglês transitando por Londres. Em 2010, a Justiça italiana acusou de fraude vários bancos italianos e estrangeiros por terem vendido cerca de trinta mil milhões de euros de produtos derivados para os municípios e organizações religiosas da Península, que aí deixaram a sua roupinha. Em especial, para a Ordem dos Capucinhos, perto de Génova.
Finalmente, os não-especialistas são incapazes de compreender a complexidade dos produtos financeiros criados pelos pequenos génios que se consideram os operadores das salas de mercados, os traders, de tal forma estes produtos são feitos e refeitos em múltiplos algoritmos antes de serem divididos e vendidos aos bocados, às fatias, às tranches, tal como os chouriços fatiados. Assim, a fim de estruturar a emissão dos títulos, o Morgan Stanley tinha criado uma entidade idónea chamada Saturns Investments Europe.. Essa “conquilha vazia”, registada em Dublin para fins fiscais, baralha ainda mais as cartas.
Ter-se-á percebido. A relação entre religião e dinheiro é um cocktail explosivo, muito perigoso mesmo. É por isso que um banqueiro pode verdadeiramente “fazer o trabalho de Deus”, conforme o declarou Lloyd Blankfein, Presidente-Director do Goldman Sachs, , em entrevista ao Sunday Times.
Uma bela observação, uma bela gaffe. Esta ideia permitiu aos seus detractores reanimarem o velho fantasma de um eixo Deus-Mamon, a divindade do dinheiro, um termo utilizado por Jesus para indicar a riqueza ilícita. Felizmente para ele e para nós, que Blankfein jurou pelos seus deuses que se tratava de uma afirmação sem sentido, de uma brincadeira.

Excelente escolha! O que terá o Banco do Vaticano a dizer sobre isto?