Por Júlio Marques Mota
(continuação)
I Parte – Os desequilíbrios no euro-sistema, o Target 2.
O TARGET2 é o Sistema de Liquidação por Bruto em Tempo Real (SLBTR) do Euro-sistema, assente na utilização de uma plataforma única partilhada (Single Shared Platform) e substituiu o anterior sistema descentralizado (1).
O perigo sobre os desequilíbrios no sistema de pagamentos TARGET.
Nos últimos meses os participantes nos mercados passaram a estar preocupados com o volume crescente dos créditos ( disponibilidades) e dos débitos (responsabilidades) assumidos pelos bancos centrais nacionais dos países da zona euro no quadro do sistema de pagamentos do euro-sistema, ou seja o TARGET2. O Bundesbank alemão agora tem substanciais activos (disponibilidades) enquanto os bancos centrais das economias periféricas têm assumido importantes responsabilidades (posições de débito). Os desequilíbrios têm estado sucessivamente a aumentar.
Na nossa opinião, esses saldos do sistema TARGET2 são sintomáticos dos problemas da área do euro, mas não são o problema em si-mesmo. Em grande parte, são um reflexo contabilístico das questões de que os participantes dos mercados estão já conscientes, a saber: fuga de capitais dos países ditos da periferia para os países ditos centrais na zona euro e o consequente aumento da dependência no apoio da liquidez que é fornecida pelo BCE aos bancos na periferia e não é fornecida pelos países ditos centrais.
O crescimento destes desequilíbrios estão também relacionados e são o reflexo do crescente aumento das posições passivas e activas nas contas do BCE . Dado o amplo potencial de utilizações das operações de refinanciamento de Longo Prazo a três anos a efectuar brevemente na próxima semana e em Fevereiro é então provável que estes desequilíbrios no sistema TARGET2 – e o grande interesse que estes levantam – possa crescer ainda mais nos próximos meses.
Por sua vez, quer o aumento de provisões em liquidez do banco central quer os desequilíbrios acima citados, ambos reflectem o facto de que os défices em conta corrente dos países na zona do euro estão cada vez menos a serem financiados por fluxos de capital privado dos países superavitários e estão inversamente a ser cada vez mais financiados pelos fluxos de capital oficial, do Banco Central. Todos estes três factores – a ausência ou a inversão do financiamento privado de défices em conta corrente, a dependência dos bancos periféricos relativamente ao financiamento feito pelo Banco Central e os desequilíbrios no sistema de pagamentos TARGET2 são efectivamente de leituras ou significados diferentes e os seus saldos contabilísticos são o reflexo do mesmo problema .
Por seu lado, a zona euro tem suficiente problemas mesmo sem entrar em linha de conta com os aspectos da dupla ou mesmo de tripla contagem’, que alguns debates à volta do TARGET2 já se começam a fazer. Na verdade, reduzir os desequilíbrios no curto prazo do TARGET2 seria efectivamente envolver uma redução do apoio concedido pelo BCE aos bancos periféricos, o que , provavelmente, teria consequências económicas e financeiras negativas para os países envolvidos o que, por sua vez, precipitaria uma abrupta redução dos seus défices em conta corrente com os efeitos que tal posição acarretaria.
A errar o alvo.
Nos últimos meses os participantes do mercado começaram a ficar preocupados com o crescente volume dos créditos e das responsabilidades dos bancos nacionais dos países da zona euro no sistema de pagamento TARGET2. Especialmente, o banco federal alemão tem acumulado €465 mil milhões de créditos no sistema TARGET 2 no seu balanço a partir de Outubro de 2011. Ao mesmo tempo, os bancos centrais nacionais (BCN) das cinco economias periféricas têm responsabilidades (posições de débitos) no TARGET2 de quase o mesmo valor-gráfico1. Isto conduziu à ideia de que o Bundesbank está a emprestar liquidez aos países periféricos através do sistema TARGET2 e de que, portanto, esta situação pode vir a colocar o seu balanço em risco.
Iremos agora descrever como funciona o sistema de registos TARGET2 e explicar os factores que estão por detrás destas divergências. Mas o nosso ponto de vista é o de que o aumento nos saldos do TARGET2 é em grande parte uma função de:
• o BCE está a fornecer liquidez de modo que pode ser ilimitada contra garantias bancárias a bancos da área do euro
• os bancos nas economias periféricas assumem uma desproporcionada utilização desse liquidez.
Por sua vez, esta liquidez constitui uma grande parte dos recursos que financiam o défice em conta corrente dos países.
Na medida em que o BCE está preparado para fornecer liquidez de modo ilimitado, a possibilidade de os desequilíbrios do TARGET2 se alargarem é também ela – teoricamente – ilimitada.
Todas estas questões – fuga de capitais das economias periféricas e diminuição do financiamento do sector privado nas contas correntes fazem aumentar a liquidez concedida pelo BCE aos bancos periféricos; e os crescentes desequilíbrios no sistema TARGET2 – são então manifestações dos diferentes posições líquidas e de identidades contabilisticamente diferentes da mesma questão.
E a causalidade parte dos problemas de financiamento para os desequilíbrios do TARGET2, e não ao contrário. Os desequilíbrios no sistema TARGET2 são um efeito, não são uma causa. À medida que muda um dos múltiplos aspectos dessa questão, assim mudam também os outros.

