SOBRE A BOMBA DE NEUTRÕES FABRICADA EM BRUXELAS E ALGURES E JÁ PRONTA PARA DISPARAR SOBRE TODA A ZONA EURO – IV

Por Júlio Marques Mota

(continuação)

I Parte – Os desequilíbrios no euro-sistema, o Target 2.

O TARGET2 é o Sistema de Liquidação por Bruto em Tempo Real (SLBTR) do Euro-sistema, assente na utilização de uma plataforma única partilhada (Single Shared Platform) e substituiu o anterior sistema descentralizado (1).

O perigo sobre os desequilíbrios no sistema de pagamentos TARGET.

Nos últimos meses os participantes nos  mercados passaram a estar  preocupados  com o volume crescente dos créditos ( disponibilidades)  e dos débitos (responsabilidades) assumidos pelos bancos centrais nacionais dos países da zona euro no quadro do sistema  de pagamentos do euro-sistema, ou seja o TARGET2. O Bundesbank alemão agora tem substanciais activos (disponibilidades) enquanto os bancos centrais das economias periféricas têm assumido importantes responsabilidades (posições de débito). Os desequilíbrios têm estado sucessivamente a aumentar.

Na nossa opinião, esses saldos do sistema TARGET2 são sintomáticos dos  problemas da área do euro, mas não são o problema em si-mesmo. Em grande parte, são um reflexo contabilístico das questões de que  os participantes dos mercados estão já conscientes, a saber: fuga de capitais dos países ditos da periferia para os países ditos centrais na zona euro  e o consequente aumento da dependência no apoio da  liquidez  que é fornecida pelo BCE aos bancos na periferia e não é  fornecida pelos países  ditos centrais.

O crescimento destes desequilíbrios  estão também relacionados  e são o reflexo do crescente aumento das posições passivas e activas nas contas do BCE . Dado o amplo potencial de utilizações das  operações de refinanciamento de Longo Prazo  a  três anos a efectuar brevemente na próxima semana e em Fevereiro é então provável que  estes desequilíbrios no sistema TARGET2 – e o grande interesse que estes levantam – possa crescer ainda  mais  nos próximos meses.

Por sua vez, quer o aumento de provisões em liquidez do banco central quer os desequilíbrios acima citados, ambos reflectem o facto de que  os défices  em conta corrente dos países na zona do euro estão cada vez menos a serem financiados por fluxos de capital privado dos países superavitários e estão inversamente a ser cada vez mais financiados pelos fluxos de capital oficial, do  Banco Central. Todos estes três  factores  – a ausência ou  a inversão  do financiamento privado de défices  em conta corrente, a dependência dos bancos periféricos relativamente ao  financiamento feito pelo  Banco Central  e os desequilíbrios no sistema de pagamentos TARGET2 são efectivamente  de leituras ou significados diferentes e os seus saldos contabilísticos são o reflexo do mesmo problema .

Por seu lado, a  zona euro tem suficiente problemas mesmo sem entrar em linha de conta com os aspectos da dupla ou mesmo de tripla contagem’, que alguns debates à volta do  TARGET2 já se começam a fazer. Na verdade, reduzir os desequilíbrios no curto prazo do TARGET2 seria efectivamente envolver uma redução do apoio concedido pelo  BCE aos bancos periféricos, o que , provavelmente, teria consequências económicas e financeiras negativas para os países envolvidos o que,  por sua vez, precipitaria uma abrupta redução dos seus défices em  conta corrente com os efeitos que tal posição  acarretaria.

A errar o alvo.

Nos últimos meses os participantes do mercado começaram a ficar  preocupados com o crescente volume dos créditos e das responsabilidades dos bancos nacionais dos países da zona euro no sistema de pagamento TARGET2. Especialmente,  o banco federal alemão tem acumulado €465 mil milhões de  créditos no sistema TARGET 2 no seu balanço  a partir de Outubro de 2011. Ao mesmo tempo, os bancos centrais nacionais (BCN) das cinco economias periféricas têm  responsabilidades (posições de débitos)  no TARGET2 de quase o mesmo valor-gráfico1.  Isto conduziu à ideia  de  que o Bundesbank está a emprestar liquidez aos países periféricos através do sistema TARGET2 e de que, portanto, esta situação pode vir a colocar o seu balanço em risco.

 

Iremos agora  descrever como funciona o sistema de  registos TARGET2 e explicar os factores que estão por detrás  destas divergências. Mas o nosso ponto de vista é o de que  o aumento nos saldos do TARGET2 é   em grande parte uma função de:

• o BCE  está a  fornecer liquidez de modo que pode ser ilimitada  contra garantias bancárias  a bancos da área do euro

 • os bancos nas economias periféricas assumem uma desproporcionada utilização desse liquidez.

Por sua vez, esta liquidez  constitui uma  grande parte dos recursos que financiam o défice em  conta corrente dos países.

Na medida em que o BCE está preparado para fornecer liquidez de modo ilimitado, a possibilidade de os desequilíbrios do TARGET2 se alargarem é também ela – teoricamente – ilimitada.

Todas estas questões – fuga de capitais das economias periféricas e diminuição do financiamento do sector privado nas contas correntes fazem aumentar a liquidez concedida pelo  BCE aos  bancos periféricos; e os crescentes desequilíbrios no sistema TARGET2 – são então manifestações dos diferentes posições líquidas  e de identidades contabilisticamente diferentes da mesma questão.

E a causalidade parte dos problemas de financiamento para os desequilíbrios do TARGET2, e não ao contrário. Os desequilíbrios no sistema TARGET2 são um efeito, não são uma causa. À  medida que muda um dos múltiplos aspectos dessa questão, assim mudam também os  outros.

(continua)

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