EM COMBATE – 152 – por José Brandão

Batalhão de Caçadores 558

MOÇAMBIQUE

1964-1966

Dei entrada na Escola Prática de Infantaria – EPI, no dia 20 de Janeiro de 1963 em Mafra, a fim de iniciar o Curso de Oficiais Milicianos – COM, o que me forçou a abandonar os estudos no Instituto Superior Técnico, em Lisboa.

O Serviço Militar Obrigatório, acrescido de uma inusitada situação vivenciada nas antigas Colónias, então denominadas de Províncias Ultramarinas – por razões meramente eufemísticas – arrancava-nos dos nossos sonhos, forçando-nos a defender interesses outros, no mais das vezes escusos. Após seis meses de intensiva preparação militar e de uma especialização em Transmissões de Infantaria, fui promovido a Aspirante a Oficial Miliciano, em Julho desse mesmo ano, tendo sido designado para permanecer em Mafra, onde deveria dar uma Recruta, aos soldados recém entrados naquele quartel.

Para quem estava habituado a uma vida de estudante, e pouco afeito a actividades físicas, afora uma úlcera duodenal hemorrágica que me perseguia desde os 17 anos, foi um tempo difícil, que a memória teima em não esquecer. Não bastasse a úlcera, que não foi suficiente para me livrar do Serviço Militar, em uma Junta Médica, fui vítima de uma Pleurisia, quando nas Manobras Militares de fim de Curso, o que me obrigou a passar exactos 100 dias no Hospital Militar da Estrela. Volvidos esses 100 dias, recebo ordens para, novamente, me apresentar em Mafra. Lá chegando, fui informado que deveria seguir, de imediato, para Évora, mais propriamente para o RI-16, onde o meu Batalhão aguardava embarque. Ledo engano, o Batalhão de Caçadores 558, ao qual me deveria juntar, havia partido de Tavira para Lisboa, na manhã desse mesmo dia, a fim de embarcar no “Niassa”, rumo a Moçambique, no dia seguinte, pela manhã, informação que me foi repassada pelo Oficial de Dia, tenente Varão, quando a ele me apresentei na Sala de Oficiais, pelas 14 horas desse 22 de Novembro de1963.

Simultaneamente à informação de que o Batalhão estava a caminho de seguir viagem para Moçambique, escutamos, todos os que na Sala de Oficiais se encontravam – através da Emissora Nacional – uma notícia que haveria de abalar o Mundo. O Presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy havia sido brutalmente assassinado, em Dallas.

Com a partida do Batalhão, entrei de licença, por 10 dias, a fim de me despedir dos familiares, e adquirir o fardamento próprio do Ultramar. Decorrido o prazo da Licença, retorno a Évora, e, uma vez lá, passo a aguardar embarque, o que viria a ocorrer a 15 de Janeiro de 1964, no navio “Império”.

De 22 de Novembro de 1963 a 6 de Janeiro de 1964, permaneço em Évora, com a obrigação de cumprir alguns “Oficiais de Dia”, algumas “Rondas”, afora a lavratura de um “Inquérito de Corpo de Delito” que me coube levar a efeito, pelo menos enquanto lá estive.

Em Évora, posso afirmá-lo, levei uma vida mansa. Aproveitei para conhecer a cidade, seus Museus e Igrejas, e, por que não dizer, algumas belas e gentis moças eborenses, tão do agrado da gente da minha faixa etária.

No que respeita a acomodações, o quarto destinado aos oficiais, no RI-16, era amplo. Tinha duas camas, duas mesinhas de cabeceira e dois armários, além de uma mesa que servia de secretária. Fui o segundo a ocupá-lo, pois já lá estava o Aspirante Milicianos António, que por coincidência era de Sazes da Beira, e, como havia frequentado os Seminários do Fundão e da Guarda, conhecia, praticamente, todos os estudantes seminaristas de Loriga. Senti-me, logo, desnecessário será dizê-lo, em casa. Pouco, bem pouco, foi o tempo que convivemos, pois, em menos de 10 dias seguiu para o Ultramar, mais propriamente para a Guiné. Ao retornar do Ultramar, soube pela minha tia Aurora – que havia conhecido a Mãe do Aspirante António, creio que num dos Cursos de Cristandade – que ele havia sido morto em combate, na Guiné. Que o Senhor Deus o tenha em paz, lá onde se encontra!

RI16 em Évora.

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