DIÁRIO DE BORDO de 19 de Agosto de 2012

Não discutimos a existência ou a inexistência de Deus. Já o temos dito, o blogue, talvez com uma equipa maioritariamente constituída por ateus e agnósticos, tem também católicos e crentes de outras confissões. Nem é questão que nos preocupe, se Deus existe ou não – quem acredite, que lhe demonstre a existência.

O que, sim, podemos contestar são as estruturas que, a partir do pressuposto da existência de um ser supremo, se foram constituindo ao longo dos últimos milénios. E essas estruturas, baseadas em divindades, mas com interferência na vida quotidiana dos povos, podem e devem ser analisadas. Criadas em cima de lendas, livros apócrifos, acordos estabelecidos em concílios, têm sido estruturas políticas, quase sempre ao serviço daquilo que dizem combater.

Vítimas do poder da Igreja Católica Apostólica Romana, temos tendência a esquecer quão igualmente miseráveis são as demais estruturas clericais – da Igreja Presbiteriana  à Ortodoxa, da Luterana à Anglicana. Para não falar dos clérigos islamitas que levam o fanatismo integrista ao ponto de defenderem a supressão física dos infiéis, ou seja, de quem não pensa como eles.  Haverá bons sacerdotes, haverá entre esses clérigos de diversos cultos, gente que está de boa fé – os edifícios teológicos a que pertencem, são ignominiosos.

 Nem vamos falar no recorrente exemplo da Inquisição que foi, sobretudo, uma tenebrosa polícia política ao serviço dos poderosos. Vamos lembrar o caso de Salém. Terá sido em 19 de Agosto de 1692 que ocorreram os famosos julgamentos de Salém que resultou na condenação e execução das chamadas bruxas de Salem – trinta mulheres foram enforcadas, havendo mais execuções por outros processos. Os puritanos, vítimas da Inquisição, usavam métodos inquisitoriais para defender a sua fé. O caso deu lugar a uma excelente peça de Arthur Miller  e a um filme nela baseado, realizado por Nicholas Hytner, com uma impressiva interpretação de Wynona Rider. É aliás uma obsessão dos norte-americanos – a das bruxas. Nos anos 50 do século XX , durante o macarthismo milhares de americanos foram perseguidos naquilo a que se chamou «a caça às bruxas». O Dia das Bruxas (Halloween) é outro sintoma dessa obsessão.

 E no entanto tudo se baseia na crença de um poder sobrenatural que, os crentes terão de o reconhecer, se comporta como se não existisse. Perante as guerras, as calamidades, perante a gritante injustiça social, perante a impunidade dos criminosos e o sofrimento dos inocentes, os deuses (todos) ficam calados. Sem querer ofender quem crê com sinceridade num ser supremo, dizemos que a vassoura e o gato preto de uma bruxa, a bola de cristal de uma vidente, o baralho de cartas de uma cartomante ou o livro de São Cipriano, não valem menos do que a Torah, a Bíblia ou o Corão. Um bispo ou um aiatola têm o mesmo valor divino de um praticante de vudu – ou seja, nenhum.

É por isso que a “salomónica” decisão do actual governo português de acabar com dois feriados religiosos e dois feriados civis é um insulto para patriotas e livres pensadores.

Um estado laico não negoceia com bruxas.

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