O ROMANTISMO SOCIAL PORTUGUÊS – VII – TEÓFILO BRAGA. Por Sílvio Castro.

A história civil e cultural de Teófilo Braga está sempre muito ligada àquela de Antero de Quental. Ambos filhos da mesma Ponta Delgada, se distinguem inicialmente pelas correspondentes origens familiares. Enquanto Antero nasce e cresce num ambiente de elevadas condições materiais e sociais, Teófilo é filho de pais pobres, e na pobreza cresce, o que o leva a sacrifícios desde a mais jovem idade. Porém, mesmo dentro das maiores dificuldades, assistido sempre pelos genitores que com sacrifícios conseguem fazer com que o filho encete a carreira dos estudos superiores.Assim, pode o moço Teófilo deixar o seu natio Açores para o curso de Direito na Universidade de Coimbra. Ali encontra, já gozando a fama de grande poeta, Antero de Quental, mais velho do que ele de apenas um ano, sendo Teófilo Braga de 1843.

 À natural liderança anteriana, já forte em todo o ambiente acadêmico conimbrense, adere o sempre decidido e firme espirito do futuro lider socialista e republicano. Essa adesão correspondia a uma grande admiração pelo poeta e pelo pensador, como desde então se apresentava o autor das Odes Modernas.

As lutas próprias da Questão coimbrã servirão para unir definitivamente os dois açorianos. Porém, enquanto depois de concluídos os respectivos cursos acadêmicos Antero de Quental se dedica às mais internacionais experiências da Era nova que se avizinhava, Teófilo Braga tendia a batalhar inicialmente para colmar de modo especial os espaços materiais negativos de sua vida de moço pobre. Começa então um longo percurso de estudioso insone, guiado pelo desejo da conquista de todos os títulos que o elevassem sempre e mais nos planos social e financeiro. Dessa grande atividade nasce uma numerosa bibliografia de estudos, a começar pela tese Teoria da História da Literatura Portuguesa, publicada em 1881, com a qual, em 1872, conquista por concurso a cadeira de Literaturas Modernas do Curso Superior de Letras da Universidade de Coimbra; bibliografia continuada em títulos como a monumental História da Literatura Portuguesa, em 11 volumes (Porto, 1896-1907). Além desse ângulo de produção erudita, Teófilo Braga pratica igualmente a poesia, começada com a juvenil coletânea de Folhas Verdes, de 1860, e culminada com A Visão dos Tempos. Epopeia da Humanidade (1894-95).

Porém, ainda que preso por esses intentos, não deixa de ser em momento algum o batalhador incansável pelas idéias novas. Então a sempre grande admiração sentida pela guia ideológica anteriana passa por significativas mudanças: de um certo modo menos diretas ao início, mas logo em seguida vivida não mais sempre no grupo geracional, mas em ativo isolamento. Ao espírito conciliador muitas vezes demonstrado por Antero de Quental na vida política, em particular a afirmação de uma linha predominantemente liberal capaz de colaborar com o regime, até mesmo em nível de governo, encontra clara oposição da parte de Teófilo. Entretanto, seguindo sempre e coerentemente um percurso em favor dos ideais republicanos, subordinados às lições socialistas, ele conduzirá as suas atividades dentro das ações próprias da Geração de 70. A trágica morte de seu mestre de sempre deixará Teófilo Braga ferido profundamente, como o demonstra o seu admirável ensaio escrito para o livro In Memorian de Antero.

Teófilo Braga se mostra desde sempre um socialista convicto e inabalável. Suas convicções nascem de profundos estudos de autores socialistas, em particular em confronto com a obra de Proudhon. Esses estudos levam o grande pensador e ensaísta que sempre foi Teófilo Braga a um dos seus mais significativos livros, O Socialismo, estudos de rara importância para a história das idéias políticas portuguesas, e que teve a sua edição prefaciada pelo polígrafo baiano Almáquio Diniz, primeiro tradutor do Manifesto Futurista marinettiano, tradução publicada na Bahia no mesmo ano da saída do manifesto fundador do Futurismo, 1909.

Dois são os episódios que marcam a acentuação da linha radicalizada de Teófilo Braga na direção eletiva absoluta pela República. No plano mais diretamente pessoal, a morte trágica de Antero de Quental, em 1891. Assim como esse episódio pode ser tomado como o momento conclusivo da ação dos componentes da Geração de 70, o mesmo serve para a definitiva afirmação da ação política de Teófilo Braga. No plano ideológico o movente direto é o episódio do Ultimato. Teófilo Braga se associa à luta contra o fraco regime monárquico abandonando qualquer e impossível adesão à liberdade do Liberalismo, para pugnar intensamente pela democrática e ampla liberdade socialista. Socialismo e República se fundem numa única convicção nas ações do patriota Teófilo Braga.

Hoje, quando todo o Portugal comemora e festeja o centenário da República, mais do que nunca é indispensável realçar a figura do inaugural Presidente Provisório republicano que em 1910, nos plenos ares burrascosos dos novos tempos, soube dedicar-se inteiramente ao bem de seu País. Capacidade por ele diretamente renovada quando a 29 de maio de 1915, pelo Dec.-D.G. n° 100, em substituição do Presidente Manuel de Arriaga que resignara do cargo, vem proclamado Presidente da República, com mandato até 5 de outubro do mesmo 1915, quando passa a direção do Estado ao novo Presidente, Bernardino Machado.

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