ANÁLISES SOBRE A CRISE, OLHARES SOBRE A EUROPA, OLHARES SOBRE O CRIME QUE CONTRA ESTA OS SEUS DIRIGENTES ESTÃO A COMETER

É hora de deixar  de andar a mascar  pastilha elástica enquanto se anda de rede de capoeira  como protecção contra a crise  em  Espanha – III

Por Edward Hugh

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

(CONTINUAÇÃO)

O necessário resgate europeu

Em certo sentido a Espanha é demasiado grande para ser resgatada, mas num outro sentido também é demasiado grande para ser abandonada à ganância dos cães. Na verdade, quando eu digo que é demasiado grande para ser resgatada, quero dizer, é muito grande para ser resgatada usando o modelo clássico agora posto em prática na Grécia, na Irlanda e em Portugal. A Espanha e Itália são simplesmente demasiado grandes (tanto em termos de PIB como em termos de população) para serem colocados sob a tutela da Troika desta forma. Os riscos políticos para enfrentar um comboio em andamento e fortemente descontrolado são na verdade muitíssimo grandes. Além disso tendo colocado a Espanha completamente fora do mercado de títulos da dívida pública, fazê-lo à maneira como foi feito para a Grécia, para a Irlanda e para Portugal, seria muito caro e provavelmente não seria necessário.

Por outro lado, se pensarmos sobre isso, a Espanha já teve um resgate parcial, primeiro através do ECB SMP (a compra de títulos da dívida pública espanhola começou no passado mês de Agosto) e, em seguida, através do suporte mais recente oferecido ao  sistema bancário, as  operações de “liquidez” LTRO do BCE a dois e 3 anos . De acordo com dados do Banco de Espanha, os bancos espanhóis contraíram empréstimos de cerca de 316 mil milhões de Euros nessas ofertas, dos quais (em Março) cerca de  89 mil milhões de Euros terão sido utilizados na facilidade permanente de depósito junto do BCE.

Também, quando falamos de resgates, também devemos ter em mente que a UE está a por em prática progressivamente todo um novo conjunto de procedimentos de governação que vão levar a que cada país da zona euro fique com muito menos liberdade para decidir por si-mesmo nas suas questões económicas importantes, como Mariano Rajoy descobriu à sua custa quando foi a Bruxelas e aí declarou que o seu país, sendo soberano, poderia decidir quanto aos seu próprios objectivos de défice. Assim em vez de uma intervenção dramática, o que agora se espera ver é a pressão resultante da aplicação continuada de um conjunto de tenazes e de um número crescente de controlos sobre a liberdade de acção do Governo espanhol e do Banco da Espanha.

Em essência as medidas de liquidez aplicadas pelo BCE através das operações  LTRO resolveram  um problema – as dificuldades  que  os bancos do país estavam a ter para se  financiarem eles próprios  e ajudaram a resolver um  outro, permitindo que os bancos comprem  títulos da dívida pública de Espanha, embora se o objectivo aqui   é o de  resolver o financiamento da Espanha terá sido então   menos bem sucedido,  uma vez que os rendimentos dos títulos da dívida a 10 anos, tem estado sucessivamente a forçar a barra contra a marca dos  6%.

Por outro lado as operações  LTRO nada tem  feito para ajudar a resolver uma  outra questão fundamental, a falta de crédito na economia. Com efeito, tornando mais fácil e mais rentável para os bancos comprar dívida pública desta forma indiscutivelmente está-se a tornar ainda mais difícil que o sector privado venha a obter créditos. De certa forma o que estamos a ver é verdadeiramente uma forma de “exclusão” de novos projectos de investimento em resultado de  uma combinação de promotores imobiliários perfeitamente zombies e do sector público. De acordo com os dados do Banco de Espanha, o crédito ao sector privado caiu pelo décimo oitavo mês consecutivo em Março – a uma taxa 1,7% anual para as grandes empresas e de 2,7% para famílias.

 

 

Então, obviamente, alguma coisa tem que ser feita para resolver os problemas do sector financeiro até porque, entretanto, o desemprego tem continuado sempre a subir – pelo 60º mês consecutivo em Março (com ajustamento das variações sazonais) – já está a alcançar os 25%, ou seja, quase um em cada quatro trabalhadores.

 

(continua)

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