A SENILIDADE DO CAPITALISMO – 1 – Entrevista a Samir Amin por Pedro Oliveira

 Nota – esta entrevista começou a ser publicada, mas a sua edição foi interrompida. Vamos agora publicá-la na íntegra.

Samir Amin é um dos mais prestigiados pensadores marxistas da actualidade. Intelectual e economista egípcio, director do Fórum do Terceiro Mundo em Dakar (Senegal) e do Fórum Mundial das Alternativas, tem suas teses nos campos da teoria do desenvolvimento económico, história, sociologia, cultura e ciências sociais em estudo e debate por todo o mundo.

Amin exprime uma crítica fundamentada à globalização neoliberal. Defende que se contraponha à utopia reaccionária da globalização neoliberal o projecto de um sistema mundial policêntrico. Afirma que as políticas neoliberais fracassaram tanto no terreno social quanto econômico. As políticas neoliberais, identificadas com o seu projeto de globalização, estimularam a criação de blocos regionais sob a égide do grande capital financeiro. Essa prática tem demonstrado que os problemas dos povos, em vez de se resolverem, agravam-se – porque as políticas neoliberais fomentam o divisionismo e ampliam as divergências entre os países periféricos.

Por outro lado, essa estratégia contribuiu para tornar mais evidente a necessidade de uma globalização da unidade, da solidariedade .
As obras de Samir Amin estão traduzidas em muitos idiomas. Dentre elas destacam-se: O desenvolvimento desigual: ensaio sobre as formações sociais do capitalismo periférico; O Intercambio Desigual e a Lei do Valor; A acumulação em escala mundial; Classes e nações no materialismo histórico.

Esta entrevista foi realizada em Fevereiro de 2002, durante o 2 ° Fórum Social Mundial em Porto Alegre (RS), pela revista Princípios. Manteve-se o tom coloquial a fim de não prejudicar a autenticidade do discurso de Samir Amin, um intelectual revolucionário habituado a expressar conceitos e idéias profundos em linguagem muito simples.

O neoliberalismo – a actual fase do capitalismo

Samir Amin – O capitalismo entrou em uma nova fase do seu desenvolvimento – e o imperialismo (o estado supremo do capitalismo) também. O caráter permanente do capitalismo desde as suas origens e em sua expansão mundial é dividido em fases sucessivas, com suas características próprias. Esse processo inclui as relações entre o conteúdo universal e a periferia, com suas funções específicas em cada uma das etapas do desenvolvimento capitalista. Em todas as fases anteriores dos imperialismos (pois o imperialismo sempre esteve no plural) havia conflitos violentos que ocuparam, em grande medida, todo o cenário histórico.

Actualmente há algo novo: há um imperialismo colectivo – dos EUA, da Europa e do Japão. Esse processo se dá de tal forma que – no entanto – nem o capital nem a burguesia se tornam transnacionais, pois o capital transnacional e a burguesia transnacional sempre tiveram raízes em um país do centro. Não há nem mesmo um capital transnacional europeu – há um capital transnacional britânico, francês, alemão, mas não europeu. E, no entanto, há suficientes interesses comuns para governar o mundo, no conjunto do sistema mundial, a tal ponto suas contradições e seus conflitos se apresentam como secundários.

Defendo a tese de que entramos numa fase de um imperialismo colectivo . E por que existe esse imperialismo colectivo ? A hipótese que levanto para provocar a discussão é a seguinte: até há uns 30 anos, o grau de centralização do capital era tamanho que uma grande empresa, para se firmar como tal, deveria ser capaz de levar vantagem sobre a concorrência oligopólica. Não estou falando da concorrência que consta nos manuais do capitalismo imaginário e do discurso dos líderes, mas num grande mercado nacional – quer seja o mercado dos EUA, o maior, ou então os mercados da Alemanha, da França, da Grã-Bretanha, talvez até do Mercado Comum Europeu. O tamanho do mercado para o qual as grandes empresas devem-se direccionar para entrar no jogo é um mercado de centenas de milhões de compradores solventes potenciais. Seja isso para uma nova marca de carro ou de outra mercadoria, com exceção dos produtos de consumo mais banais, mais comuns. E para que essas empresas consigam impor-se num mercado desse tamanho passam por uma espécie de “torneio”. Primeiro há o “torneio” nacional, do qual sai um vencedor, que irá enfrentar o mercado internacional.

O capitalismo procedeu dessa forma durante séculos, até há uns 30 ou 40 anos. Agora há uma fonte de informações ditadas pelas escolas norte-americanas. É preciso, de vez em quando, verificar o que preconizar para a gestão dos negócios – não para se deixar impressionar pela inteligência ou pela profundidade da análise, mas pelo tipo de raciocínio e de informação que desenvolvem. E o que se descobriu? Uma grande empresa deve ganhar a batalha num mercado constituído de “n” compradores eventuais: mil milhões – mais do que a população dos EUA e da Europa somadas. São todos juntos que participam do Mercado Mundial. Dito de outra forma, a multiplicação da centralização do capital deu um salto qualitativo e o “primeiro torneio” – o das eliminatórias nacionais – não existe mais.

(Continua)

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