EM COMBATE – 176 – por José Brandão

O COMBOIO DO CATUR

(Por A. Paulo)

O trem a vapor era do tempo do oeste americano. A linha era tão estreita que os carris mais pareciam os do eléctrico. As carruagens acompanhavam e complementavam o resto do cenário. Até parece que tinham as rodas quadradas.

Saímos do paquete “Vera Cruz”, em Nacala e como era normal nestas coisas, mas para nós era a primeira experiência, muito apreensivos. No cais tínhamos a recepção há muito desejada e esperada pelos VELHINHOS. Homens queimados pelo sol africano, com os camuflados amarelados e esfarrapados pelo uso, deram-nos as boas vindas. “Ó checa sai do barco”, gritavam uns. “O barco é nosso, ó checa”, proferiam outros em explosão de alegria.

Os “checas” éramos nós. Era o nome dado aos “maçaricos” que chegavam da Metrópole com as suas fardas verdinhas, quase engomadas e a cheirar a naftalina. Que lindo nome nos arranjaram.

Aqui a conversa já era outra, pois os galos de crista vermelha que empoleirados no seu trono viram desfilar os franganotes em Lisboa e Lourenço Marques, já cá não estavam. “Meus filhos, tomai esta ração, crescei e façam-se frangos do campo e… o resto salve-se quem puder”…. As ordens são para cumprir e não se discutem.

“Ó pessoal vamos lá receber as armas”, gritou alguém da nossa CCav. E o nosso pessoal alinhado lá se foi chegando aos camaradas da companhia cessante, que com a amabilidade e tratamento personalizado q.b., fizeram a entrega da inseparável espingarda G-3. …E agora para o comboio que se faz tarde.

Parece-me que nos estavam destinadas três carruagens, que tivemos de dividir da melhor maneira, para homens, armas e bagagens, a contar com os dois dias de viagem que tínhamos pela frente até ao final da linha – CATUR. Que sorte a minha ter arranjado um pequeno espaço no corredor, que com os papelões das caixas das rações de combate e uns centímetros roubados à casa de banho, de porta aberta, proporcionaram a minha confortável cama.

E lá arranca o malfadado comboio puxado por uma pequena maquineta a vapor, lento como o caracol, com destino às portas da guerra – Nova Freixo.

Passou a noite. O dia estava a amanhecer o que me fez levantar da minha improvisada cama, torcido claro, e olhar através da janela do meu “compartimento”. Ou eu estava tonto, bêbado de sono ou então levantei-me ao contrário. O comboio estava a andar para trás, com mais força do que andava para a frente. O que se passa?!…

Era verdade. Aquela pequena máquina a vapor não tinha canetas para subir o desnível que tinha pela frente e então estava a fazer marcha-atrás para apanhar embalagem para transpor o obstáculo. Sem êxito, claro, pois cada investida ao objectivo foi sempre um fracasso. Em bom português, “borrava-se” toda espalhando vapor por todo o lado. Por fim encontrou-se uma solução, que foi partir o comboio ao meio e levar metade de cada vez à estação de Nova Freixo. Por fim chegámos à denominada “ZONA DE GUERRA”.

Quem diria que ali perto da estação do caminho-de-ferro estava um laranjal!…

“Ó senhor dê-nos lá uma laranja”, pediram algumas gargantas secas ao dono que ali se encontrava. “Tá bem, diz o homem, colham desta e daquela”. E então em escassos segundos as laranjeiras ficaram despojadas dos seus apetitosos frutos e quase sem folhas. Por acaso eram deliciosas e souberam bem.

Agora a próxima paragem era já o Catur. Meteram o rebenta minas à frente da máquina, que puxava as inúmeras carruagens do nosso comboio militar, agora ajudada por outra que no fim da composição empurrava como podia para concluir a sua penosa tarefa.

Guerra é guerra!… E lá começamos a meter os canos das espingardas pelas janelas fora, não fosse o diabo tecê-las, para uma reacção mais rápida ao ataque dos “turras” que por ali poderiam andar.

“Ó checa, a guerra é lá em cima”, gritavam os velhinhos, que perto da linha assistiam à passagem do nosso comboio.

E foi aqui, nesta viagem inaugural, que começou a nossa PSICO. Centenas de bolas de queijo, concretos de fruta e outros excedentes das rações de combate eram lançados às crianças, nuas ou seminuas, que junto à linha, com a suas barrigas dilatadas, nos acenavam em sinal de agradecimento.

Enfim Catur. Zona essencialmente militar onde os comboios chegavam ao fim da linha. Vários veículos militares – Berliet Tramagal – esperavam por nós para nos darem “boleia” até Lione. Naquele tempo o nosso GPS indicou-nos que o melhor era ir por Nova Guarda, via Vila Cabral, pois lá para os lados de Massangulo, (via alternativa) mais precisamente no caracol, havia muitas curvas, o que poderia provocar muitos “enjoos” ao pessoal.

Já era noite quando chegamos ao nosso destino – Lione, onde os velhinhos nos receberam com archotes e tiros para o ar e depois…… Ponto final, parágrafo. Cada um de nós tem a sua “história” para contar. Pode ser dura, mas é a realidade.

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