A SENILIDADE DO CAPITALISMO – 3 – Entrevista a Samir Amin – por Pedro Oliveira

(Continuação)

Terceira característica de senilidade : no nível ideológico, a burguesia, a cultura burguesa é portadora dos valores universais de conquista, valores universais terrivelmente corrosivos da relação de exploração, a relação de classes, de trabalho, baseada na cultura das Luzes, com seu racionalismo. O terceiro aspecto dessa senilidade é o abandono dessa cultura universal. Se mantivermos a ideologia dominante, o discurso dominante de hoje, teremos uma fonte norte-americana, fabricada pelos norte-americanos. É uma ideologia pobre, não é universalista, é uma mistura de comunidade, de especificidade, de não sei mais o quê. O capitalismo sempre exerceu a prática política fragmentada, mas não ousou criar uma legislação ideológica e cultural para colonizar, para etilizar, para universalizar a cultura. Colonizar, na verdade, é explorar por explorar, mas a legislação existe aí para nada.

Estamos sob essa ideologia, que eu classificaria de magra, de uma magreza terrível, com um discurso vazio a respeito da adversidade, da especificidade religiosa, cultural etc, um traço incrível, um substituto dos valores universais, com um empobrecimento da democracia, que chegou ao nível de palhaçada com as eleições dos norte-americanos

Quarto aspecto da senilidade : nós, que sofremos tudo isso, parecemos uma excrescência da própria natureza, porque eles acham que somos diferentes porque somos muçulmanos, hindus, negros, porque somos não sei o quê. Ou seja, é o abandono da referência universalista o quarto elemento da senilidade. E foi Pablo Casanova quem percebeu isso primeiro, há alguns anos, levando-nos a refletir a respeito de seu estudo da nítida transformação do tipo de ser que é o burguês. Mas as classes dominantes, na história do capitalismo, quer seja o burguês empreendedor, industrial, da Provence, da Alemanha, da Inglaterra ou da velha aristocracia luso-brasileira do Nordeste, o conjunto dessas classes constituem as classes exploradoras, as classes dominantes, claro, mas elas tinham um quadro de referência, que na ideologia burguesa se chamava de direito burguês, de Estado de Direito. Eles tinham também uma hegemonia cultural, que proporcionava uma espécie de legitimidade ao seu poder. Eram ladrões, usurpadores, concordo, mas não tinham a ousadia observada junto a todas as classes dirigentes dos EUA, do México, de qualquer país da Europa ou da África. A burguesia sempre teve seu domínio na política, com seus bandidos, mas dominava os acontecimentos e, eventualmente, punia. Mas, agora, é o que se chama de degradação da democracia, de escândalo permanente. Não estou falando apenas do pequeno escândalo, da pequena corrupção de ordem política, mas, do comportamento mafioso, sem respeito pelo Estado de Direito. Isso vem dos grandes capitalistas. Provavelmente, espero, vão estourar em alguns dias os escândalos dos grandes banqueiros, dos grandes financistas. E o presidente dos EUA está incluído. Bush está envolvido na trapaça que as classes médias detectaram. É ótimo. Mas é também o caso da máfia na Rússia. A burguesia americana tornou-se mafiosa, isso generalizou-se. Quando se examinam até mesmo suas teses de classes dirigentes, actualmente, em relação às gerações anteriores da burguesia, pode-se verificar a sua pobreza, com o abandono das referências e isso quer dizer também que é uma crise hereditária, que passa de uma geração a outra. São bandidos, como os da Máfia, de forma que o seu momento de glória desapareceu. Portanto, o que pode esse capitalismo senil oferecer ao mundo? Vocês percebem o caso de Tony Blair, que abriu a Grã-Bretanha à “concorrência” a tal ponto que agora há firmas coreanas que se instalaram na Escócia, porque encontram ali um mercado melhor do que na Coréia. Isso significa que a social-democracia, que remonta à aristocracia de ontem, defende uma classe operária num quadro imperialista. É aí que entram os defensores da aristocracia operária britânica. E como gerir as periferias industrializadas, como no Brasil, em Duque de Caxias (RJ), por exemplo? O que o capitalismo tenta fazer é simplesmente subalternizar a indústria, por meio de uma política que não é qualificada, pois o discurso é legitimador de uma abertura à concorrência, de proteção do monopólio pelo reforço da propriedade intelectual e industrial, etc. E é assim, pela subalternização completa das indústrias da periferia. Portanto, quanto mais morta for a região, mais marginalizada, isto é, não tem mais a função de se integrar, não tem mais utilidade para o sistema de exploração capitalista, o que significa que o sistema capitalista não pode mais atender – nem falo das necessidades, mas da expectativa – a enorme massa de pessoas. É por esse motivo que passaram a usar, cada vez mais, os meios violentos. Mas essa também é uma característica de senilidade do sistema, que passa a produzir, seguindo sua lógica interna, de forma massificada, relativizando, isto é, tendo uma hegemonia política suficiente para as coisas se reproduzam por si mesmas e, assim, prolifera cada vez mais a violência. Quem é o responsável por essa reviravolta? O candidato de direito é os EUA, pois desde 1945 a vantagem comparativa absoluta se acentuou em relação a todos os outros, não militarmente, não tomando como referência a tradição militar dos exércitos europeus – mas numa nova tradição de como matar, de como massacrar.

E eles são eficientes nisso. Portanto, estão na liderança da violência, do imperialismo coletivo. Quando se examinam as séries de Guerras – como a do Golfo e outras. – verifica-se que são guerras sem fim, que são guerras para instalar uma relação de força contra os povos, com a escolha de planos estratégicos, de controle militar. Eles não bombardearam a França ou o Canadá, mas utilizam de uma maneira diferente e mais ampla os meios policiais – mesmo entre eles – recorrendo ao novo macartismo. A novidade no discurso de Bush e dos outros, ultimamente, é que acabaram convencendo os cidadãos norte-americanos de que os terroristas estão entre eles. Quem se manifestasse contrariamente aos neoliberais, às economias mundiais, seria um terrorista. Acabou se instalando uma super-direita, cujo programa é demagógico, próprio de uma super-direita, e seus alvos principais são o aborto, os homossexuais e não sei mais o quê. E o resto pode ser bombardeado, pois o que importa são os aspectos de ordem moral. E, assim, os EUA adquiriram uma força enorme com essa superdireita, que é a base policial do novo macartismo. Quando se toma como referência um país como a Itália, onde sobe ao poder um primeiro ministro como Berlusconi, dizem que é necessário tomar medidas mais rígidas, por causa do terrorismo. Bem, esse é o plano, a estratégia, a lógica do funcionamento.

(Continua)

 

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