EM COMBATE – 182 – por José Brandão

17.6.71, a minha companhia teve mais 2 mortos e alguns feridos devido a uma das nossas Berliet se ter virado, pouco depois de ter saído daqui do quartel. Aconteceu numa curva na picada em que o camião se virou ficando de rodas para o ar. O resultado deste grave acidente foi bastante trágico já que iam em cima da viatura 7 militares e 14 rapazes africanos que iam ajudar a tropa a buscar lenha.

Os 7 militares eram 1 furriel, 1 cabo e 5 soldados. Os rapazes eram tudo miúdos com idades entre os sete e os doze anos.

Dos 21 que seguiam em cima da viatura, 8 morreram logo. Entre estes mortos estão o furriel e o cabo que eram da minha companhia. Os outros 6 mortos são gaiatos africanos.

Houve ainda mais um soldado que ficou sem uma perna e outro que está quase a morrer no hospital em Tete para onde foram logo evacuados em aviões.

Há ainda mais outro soldado e 7 rapazes que também foram evacuados em estado muito grave.

TETE cidade. – 7.8.71. Cheguei aqui a Tete anteontem e que vim de avião, apesar de no mesmo dia ter saído uma coluna de Furancungo que por acaso teve uma emboscada quase ao chegar aqui à cidade.

Vim fazer algumas análises.

30.8.71. Na zona de Furancungo, ontem, domingo, um dos carros teve uma mina que ao rebentar causou 1 morto e 8 feridos evacuados aqui para Tete. Fui vê-los ao Hospital e um dos feridos está sem uma perna e um braço. Os outros estão bastante combalidos.

Mas, não foi só isto.

Na quinta-feira passada os guerrilheiros conseguiram abater um avião bombardeiro T6 que andava em operações lá em Furancungo.

O avião estava a largar bombas quando foi atingido por tiros dos guerrilheiros acabando por se incendiar e explodir contra uma montanha próxima do Furancungo.

Escusado será dizer que do corpo do piloto, o furriel Carlos Mesquita, não se recuperou nada.

Ainda na zona do batalhão, houve uma emboscada a uma coluna e o resultado foi mais 1 morto e 4 feridos, 3 dos quais foram evacuados para Lourenço Marques com graves problemas de visão.

Estamos em finais de Setembro de 1971 e, isto em Moçambique, principalmente aqui no distrito de Tete, está cada vez mais grave. Durante estes dois meses em que tenho estado na cidade de Tete, tenho visto todos os dias chegarem aqui ao Hospital, mortos e feridos em número bastante elevado.

Ainda anteontem, 29, estava no Hospital, a visitar uns rapazes amigos, quando chegaram os helicópteros que traziam vários feridos e um capitão, José Santos Arroube, e um tenente, Luís Lemos Ferreira, ambos da Força Aérea, mortos devido ao rebentamento de uma mina em pleno aeródromo militar de Moatize, mesmo junto à cidade de Tete.

Estive a ajudar a tirá-los do helicóptero mas vinham desfeitos. Quando puxei pela maca onde vinha o tenente até me arrepiei ao vê-lo sem cabeça, sem uma perna, estava desfeito.

Em pouco mais de um mês deram entrada aqui no Hospital mais de 30 homens mortos e um número enorme de feridos graves e inutilizados.

Só oficiais, morreram em quinze dias 3 capitães e 1 tenente. Não contando os alferes.

Não há dúvida que esta é mesmo uma boa altura de ir embora daqui.

No Niassa uma acção da FRELIMO com accionamento de mina A/C pela tropa portuguesa, (CCaç Marrupa), causou 10 mortos e 7 feridos.

FURANCUNGO – 26.10.71. Ontem já partiram daqui alguns camaradas meus que foram acompanhar as primeiras bagagens que começaram a ser transportadas de avião até Moatize de onde seguirão de comboio para a Beira a fim de serem embarcadas no “Niassa”

11.11.71. Estamos em Moatize devendo sair dentro de poucas horas.

Éramos para sair hoje de madrugada mas não foi possível porque um comboio que vinha da Beira rebentou uma mina que fez descarrilar 3 vagões e teve de ir ao local um guindaste. No mesmo local, houve também uma emboscada às milícias que guardavam o comboio.

Navio “Niassa”, 14.11.71.

Cá estou são e salvo a bordo do “Niassa” que desde ontem caminha para me levar para junto de todos os meus.

As condições em que vamos a viajar são muito más. Este barco é muito reles e estamos instalados nos porões onde vamos pior que animais.

Outra coisa muito grave que aconteceu foi com as companhias que vinham do distrito do Niassa para embarcarem em Nacala. O comboio onde eles vinham, na linha do Catur, foi alvo de uma sabotagem na linha que causou 10 ou 11 mortos e grande número de feridos entre a tropa que estava a caminho de embarcar no “Niassa”. Pelo menos 7 mortos são do BArt 2898. Aqui no barco vêm vários soldados com diversos ferimentos e muitos terão ficado nos hospitais da zona.

A poucas horas de entrar para o barco aconteceu mais esta infelicidade.

Luanda, 23.11.71. Estou a escrever este aero que finalmente será o último. Saindo de Luanda seguirei direitinho a casa, onde chegarei dia 6 ou 7.

A viagem tem decorrido normal. Só quando saímos de Lourenço Marques apanhámos um tempo muito mau que bastante abalou o barco.

O barco tem vindo a andar bem e, se não houver mais mau tempo, vão tentar chegar aí a Lisboa no dia 6 à tarde. Mas, de qualquer maneira, talvez o dia 7 seja o mais certo.

E dia 7 de Dezembro de 1971 estava mesmo em Lisboa.

Acabava assim um dos períodos mais dolorosos da minha vida. Para trás ficavam dois anos de defesa de uma Pátria que ainda hoje pouco se importa com os que serviram nessas guerras distantes.

José Brandão

Soldado Radiotelegrafista

CCS/BCaç 2895

http://comboiodocatur-vilacabral.blogspot.com/

A seguir – Companhia de Artilharia 2763

2 Comments

  1. Fiz parte do BART 2898 CCs e vinha no comboio que teve o acidente. Foram dois acidentes mas so no segundo houve mortos. Saudações F.Montes

  2. Eu também fazia parte du,2898 ccs/no 1descarilamento alguns fridos,efectivamente,no 2do ai sim houve,7 mortos,un Abraço, Antonio Filipe Félix Lima,C,auto

Leave a Reply