MANUAL DO PERFEITO GANGSTER – Por Júlio Marques Mota

Parte II

(continuação)

Acordo sobre a  libor, investigação sobre o HSBC quanto à lavagem de dinheiro…

Pequeno manual do  perfeito  gangster , (“bankster”)

Marjorie Cessac, Sophie Fay e  Jean-Gabriel Fredet, Nouvel Observateur

 

A  crise  pôs  a nu os maus  hábitos  assumidos pelos  banqueiros. Os escândalos rebentam uns a seguir aos outros e sempre cada vez mais inquietantes sobre a capacidade da Finança se auto-regular.  Aqui apresentamos uma pequena colecção dessas práticas

Os mais recentes escândalos na Finança  revelam um mundo de práticas obscuras  e  de deslealdade face aos clientes, aos  accionistas, às autoridades de tutela … Desde o Verão de 2007  as catástrofes  financeiras, os  inquéritos judiciais e parlamentares colocaram em evidência  comportamentos indesejáveis que nada parece estar a ser capaz de refrear. Seis exemplos bem claros destas práticas desonestas são aqui apresentados.

Manipular a Libor

A Autoridade de Serviços Financeiros britânica considerou  que os 16 bancos que se reuniam diariamente em Londres para determinar a taxa à qual eles devem-se emprestar capital uns aos outros em termos de capital de curto prazo manipularam este  índice de 2005 a 2009. Uma manipulação muito grave, porque esta taxa Libor serve como referência a milhões de contratos financeiros.

A outra referência importante, Euribor, utilizada  na  zona euro  está também a ser sujeita a uma investigação. Para além do Barclays – cujo principal responsável,  Bob Diamond, foi forçado à  demissão  – há aqui grandes bancos envolvidos , como Citibank, UBS, HSBC  ou  Deutsche Bank (onde um inquérito interno acaba  de ser aberto). Porquê a manipulação   de uma taxa tão sensível ?

No auge da crise financeira, os bancos – talvez encorajados pelo Banco da Inglaterra – teriam combinado em colocar a taxa em valores baixos. E, assim, davam uma melhor imagem da sua situação financeira. Nos mercados , os rumores  apontam principalmente  o Deutsche Bank – na altura dirigido por  Josef Ackermann.

 «Habituais suspeitos : seis patrões ou ex-patrões da finança através de quem os últimos escândalos apareceram»

A um nível mais baixo, os traders, como Philip Moryoussef, empregado no  Barclays, entre 2005 e 2007, tentaram   melhorar os seus resultados.  A sua  especialidade: os swaps, que  são contratos que permitem aos clientes converter os créditos de taxa de juro  fixa para taxa de juro  variáveis ​​ou o inverso. Para calcular  o custo da troca de taxas (o swap)  utiliza-se a Libor ou Euribor. São estas taxas  que determinam, em última instância, o ganho (ou perda) do  trader. Dados os montantes envolvidos, uma pequena mudança  – de 0,005% por exemplo  – pode aumentar sensivelmente o montante dos seus lucros. E, portanto, pode aumentar os seus bónus. Daí a tentação de pedir  ao colega responsável pela definição da Euribor ou Libor  que tente conseguir  uma taxa um  pouco mais alta ou mais baixa, consoante o caso.

Ao actuarem desta forma, os bancos assumiram o risco de espoliar os aforradores do mundo que colocam o seu dinheiro em aplicações de curto prazo. As consequências podem ser enormíssimas. Porque todos os clientes que tiveram os contratos indexados sobre a taxa Libor fazem as  suas contas. E aqueles que acreditam terem  sido espoliados  (como a cidade de Baltimore ou o corretor americano Charles Schwab) recorrem à instauração de  recursos em justiça, de instauração de acções colectivas em tribunal.  O escândalo da Libor poderá  custar uma dezena de  milhares de milhões de euros para os bancos de acordo com o Morgan Stanley. Sem esquecer o desgaste mais grave: o caso pode ser fatal para a tão defendida  auto-regulação para a City . O “clube de cavalheiros”  já  não inspira nenhuma  confiança, pior ainda, esse clube mais parece ser um gang de malfeitores.

O dinheiro sujo

É bem conhecido que o dinheiro não tem nenhum cheiro. Mas o senador democrata Carl Levin ficou completamente siderado pelo que ele descobriu no HSBC . Há vários graus  no que se considere inaceitável , replica ele, quando os  funcionários do banco pediram desculpas por uma  situação” inaceitável “. Aqui estamos perante a inversão dos termos.  Entre 2007 e 2008, enquanto os bancos tinham falta de liquidez  o HSBC  aproveitou-se de  5,7 milhares de milhões  transferidos pelos  seus clientes  do México para os Estados Unidos.  As autoridades norte-americanas e mexicanas   estavam alertadas  para estes  movimentos  exorbitantes: por si só,  o banco HSBC deslocava mais  fundos de que quatro concorrentes do México. Impossível que isso não  seja dinheiro com origem na droga. O primeiro banco, Bital,  levou algum  tempo para resolver o problema … Outra surpresa para os senadores, o HSBC teve negócios com o banco  da Arábia  Saudita Al Rajhi que ainda estava colocado na lista negra pelas autoridades americanas por causa das  suas ligações com a Al-Qaeda. Em Dezembro de 2006, quando esta ameaça de retirar todos os seus activos no HSBC se ela não foi fornecida  em dólares, este aceitou a exigência apesar dos protestos dos seus encarregados de fazer respeitar as normas de ética dentro do banco. O grupo bancário sino-britânico também facilitou 28.000 transacções com o Irão, Coreia do Norte e  a Birmânia, falsificando as ordens de registo. O banco poderá apanhar mil milhões de dólares em multas . O seu presidente aquando destes factos, Stephen Green, é o Secretário de Estado do Comércio no governo Cameron. Todos os olhos estão agora voltados para este  pastor, autor de dois livros sobre ética …

Facilitar a [evasão fiscal]

Os cidadãos afortunados incomodados pelo fisco são os alvos favoritos dos bancos suíços. Para reduzir a sua factura fiscal, essas famílias estão muitas vezes dispostas a facilitar e a tolerar as taxas cobradas pelo  suíços  e até mesmo sobre os rendimentos das aplicações  pelos suíços feitas! O que os torna uma espécie  “de vacas leiteiras. “ .. Algumas instituições financeira suiças chegou mesmo a fazer esse trabalho bem fora das suas fronteiras . A prova:  as autoridades alemães acabam  de proceder a 7000 inspecções financeiras junto de clientes alemães do Credit Suisse além-reno. de acordo com o jornal alemão “Handelsblatt”. Todos são suspeitos de terem colocado dinheiro sobre contas bancárias  camufladas  em produtos de  seguros de vida, a fim de enganar o IRS. Tudo graças ao Crédit Suisse Life , uma empresa de seguros de vida instalada nas Bermudas, um conhecido paraíso fiscal. Vários milhares de milhões de euros foram  assim subtraídos ao fisco . Em França, a investigação anda a inquirir sobre dinheiros saídos ilegalmente de clientes franceses, desta vez pela UBS. Os banqueiros de Genebra e de  Lausanne aproveitavam-se de concertos e torneios de golfe para abordar os seus potenciais clientes. Estes  eram às vezes enviados pelos seus confrades franceses com quem eles partilhavam os seus  bónus. Um alto quadro do banco foi indiciado e as buscas foram desencadeadas em Bordeaux.

(continua)

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