O tsunami do mar inocente – Augusta Clara

(Adão Cruz)

Fiquem descansados que não me vou armar em Pessoa nem em Régio, não tenho calado para tanto. A minha prosa refere-se, apenas, à devastação das actividades económicas relacionadas com o mar que disto não tem culpa nenhuma.

A propósito de calado: sabem, certamente, que o Porto de Sines, com um crescimento actual de 20% ao ano, é o porto de águas mais profundas da Europa, onde é possível atracarem os grandes petroleiros – está debaixo do olho dos alemães. E que, quando reabrir, como se prevê, em 2014, o Canal do Panamá poderá vir a ser uma rota privilegiada relativamente à do Canal do Suez e, aí Sines ganhar, igualmente, um lugar destacado nas rotas do petróleo e de outros navios de grande volume de carga.

Alguém ouviu o Governo falar nisto ou estaremos em risco mesmo de perder o porto de Sines para outras mãos? Quem nos podia responder era o Borges, mas ele não se relaciona com ignorantes, muito menos deseja que nos imiscuamos nas suas sigilosas actividades da venda de Portugal a retalho.

Sabem, também, que, em 2016, a ONU vai constituir a subcomissão para apreciar a candidatura de alargamento da nossa plataforma continental. Em caso afirmativo, “o nosso mar” passará para mais do dobro (de 1,7 para 3,8 milhões de quilómetros quadrados), num país que, já por si, tem a maior costa marítima da Europa.

Por aqui se percebem as enormes potencialidades de desenvolvimento em várias áreas, dos recursos diversos, à investigação científica. Toda a actividade ligada ao mar contribuirá substancialmente para a criação de emprego, para estancar a fuga e, quiçá, mesmo para o regresso de muitos jovens cientistas que gostariam de ficar no país e estamos a perder pela completa estupidez estratégica de quem decide.

Darão os nossos governantes a esta evidência a devida importância? Ou nem se lhe referem para que não nos apercebamos quando as vendas dos nossos recursos estratégicos estiverem consumadas e já nada puder ser salvo? Ter-nos-á sido sonegado, nessa altura, – como vai sendo propósito deliberado -, a nós cidadãos, o conhecimento de tudo aquilo que só ao povo soberano cabe decidir.

Tem vindo nos jornais, é certo, mas o Passos, o Gaspar – todo esse Governo de malfeitores – puseram a vida dos portugueses num nível de emergência de tal ordem que, bem sabem eles, não lhes sobra disposição nem disponibilidade senão para descobrirem como hão-de proteger-se da criminosa perseguição a que estão submetidos.

Quando foram roubadas à tripa forra as verbas astronómicas, chegadas dessa Europa indevidamente classificada como União, e que agora temos que pagar, Cavaco Silva era Primeiro-Ministro. Agora é Presidente da República e insiste na argumentação de que o PR tem que estar acima das questões partidárias e só deverá intervir em caso de conflito. Então, não estamos em conflito, quando nos dizem que somos devedores do que outros roubaram, entre os quais alguns amigos seus?

Se roubar é crime, roubar aos seus é duplamente condenável e merece a prisão agravada que em Portugal não existe senão abaixo de determinado rendimento pessoal. Aqui vigora a filosofia da progressão fiscal, como sabemos. Mas, na justiça, é de pernas para o ar.

Puséssemo-nos nós a chorar sobre o leite derramado, e teríamos muito por que deixar cair as nossas lágrimas: iriamos lembrar-nos dos maiores estaleiros navais do mundo na Lisnave, das boas frotas mercante e pesqueira, dos portos bem equipados de Norte a Sul, de tudo o que neste país tinha a ver com o mar que nos rodeia e, legitimamente, nos pertencia.

Alguém sabe concretamente o que está para acontecer em Viana do Castelo, com os estaleiros ainda funcionais? Pois, é bom que indaguemos enquanto é tempo ou sabe-se lá que manápula os abafará.

Vem tudo nos jornais.

Vem lá que o mar é um tema da agenda do Presidente da República. Diz que tem, até, um assessor para os assuntos do mar. Mas, como já sabemos, Cavaco Silva é Presidente da República e não se pode meter em nada. Só em ser Presidente da República. Diga-se em abono da verdade, até nem nisso se devia ter metido.

Num jornal dos últimos dias, li uma declaração da Prof. Teresa Paiva, médica e investigadora do sono, segundo a qual é preciso dormir bem para se poder trabalhar em condições.

Cavaco Silva deve ter insónias, provavelmente provocadas pelos remorsos do saque que permitiu e, agora, por mais que queira, eles, os remorsos, não o deixam trabalhar. Tanto que ele nos pedia isso!

E o que será concretamente a “estratégia incremental” da ministra da pasta, Assunção Cristas? A descrença assalta-me logo que começo a ouvir este tipo de discurso rebuscado que, bem espremido não é mais do que o limão seco da nossa amargura, um disfarce para o nada querer dizer.

A ministra Cristas gostava de fazer viveiros de bivalves e de outras espécies aquáticas no Atlântico mas chegou à conclusão da impossibilidade do seu sonho e, então, veio-nos explicar com o ar mais cândido do mundo, como quem fala para crianças com atraso mental – deve ter sido o Borges que lhe chamou a atenção para a conveniência de adoptar um discurso adequado -, esse tipo de culturas não ser possível dada a forte agitação das águas deste oceano.

Claro, percebemos: querem emendar o erro mas, em maré de urgência, não têm com quê. Destruíram os instrumentos e tentam remediar aos nossos olhos o que não tem remédio senão começar do zero: reconstruir as frotas, não vender os estaleiros. Em suma: respeitar a soberania nacional em actividades que nos eram tão características e para as quais temos o privilégio de possuir as mais favoráveis condições. E criar emprego com elas relacionado.

Ainda agora esfregam os olhos do pesadelo de terem vendido a agricultura à Europa, à querida “Europa connosco” que a foi oferecer à França. Comecem, também, a limpar as ramelas do acordar para o crime que foi cometido ao abandonarem-se as indústrias do mar.

O mar continua a ter peixe. A ministra Cristas e quem a tutela continuam a ter ideias mercenárias.

E nós? Nós temos que impedir o grupo de meliantes que vai ao leme de vender mais uma parcela que seja desta terra que é nossa. É absolutamente imperioso! Para isso, o primeiro acto é pô-los na rua enquanto é tempo.

Queremos o nosso mar de volta.

O mar nosso, aliado de sempre. O mar de Camões e das suas musas. O mar dos poetas. O mar, o mar …

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