“SE EU FOSSE UMA ÁRVORE” PENSARAM AS CRIANÇAS por clara castilho

“Se eu fosse uma árvore”. Foi este o desafio lançado a algumas crianças com dificuldades nas aprendizagens. Com esta proposta pretendia-se contribuir para desbloquear o pensamento, apelar à imaginação e à criatividade, fazendo-os praticar a escrita de uma forma lúdica. As crianças deram asas à imaginação, projectaram os seus gostos e, como sempre, surpreenderam-nos. Sabiam que não i iríamos estar a contar o número de erros, nem verificar a pontuação. E que, no final, depois de recebida a ajuda necessária, poderiam saltar para o computador e ficar com um belo trabalho  que se iriam orgulhar e poder mostrar à família e na escola.

Pelo caminho triam aprendido mais qualquer coisa da “língua portuguesa”, teriam aumentado a auto-estima, teriam reforçado laços afectivos.

E nós teríamos ficado a saber mais sobre elas, para também as melhor ajudar. E assim, praticamos a Pedagogia-Terapêutica”, método preconizado por João dos Santos e aplicado na Casa da Praia.

 

A árvore pode ser vista como um símbolo da vida em perpétua evolução, sobressaindo o ceu carácter cíclico da evolução cósmica.

Ela põe em comunicação os três níveis do cosmos:

            – o subterrâneo ( as raízes)

            – a superfície da terra (tronco)

            – as alturas (ramos)

 A árvore pode evocar o lado maternal ( protecção, fruto, fonte de vida, feminilidade nascente), ligando-se à necessidade de afecto e mostrando-se como ligação a um bom objecto. Aparece como acolhedora, poderosa, estável, frondosa, bonita. Mas pode também ser um símbolo masculino – pela sua verticalidade, rigidez, vigor, força, imagem de pai.

Da análise das histórias podemos ver que algumas são defensivas, e as crianças não mostram o seu mundo interno, com bloqueio da fantasia. Outras, podem demonstram um afecto positivo, uma boa integração na família. Mas noutras podemos ver a falta de modelos para interiorizar, a falta de pessoas com quem a criança falar, manifestando sentimentos de que a infância lhe foi roubada e sentimento de rejeição por não ser percebida pelos outros. Noutras, ainda, deparamo-nos com a exposição de situações angustiantes para a criança, mas que ela consegue resolver sozinha.

Vejamos:

O A., menino a viver numa instituição, e sem saber dos pais  falou-nos da “A ÁRVORE VOADORA”, num desejo de também ele poder ir voar e procurar a sua família:

Era uma vez uma árvore voadora. Ela anda sempre agarrada ao jardim. Na Primavera nasciam-lhes folhas e no Outono caíam.

Um dia, a árvore começou a voar pelo mundo inteiro!

A árvore viu a mãe que vivia noutro país com o pai. Viu muitas árvores às cores e pessoas que falavam outras línguas.

Voou… voou… até que se cansou! E parou ao pé dos pais.

Já a Ana mostrou-nos um mundo mais calmo.

Sou uma árvore que vivo num jardim ao pé dos prédios. Antigamente tinha muitas árvores ao pé de min, mas elas morreram porque foram cortadas para irem para outros sítios. Agora estou aqui sozinha! Mas havia uma menina que vinha cá sempre falar comigo e dar-me água. Eu ficava feliz e dava-lhe uma laranja que é muito doce e boa. A menina vinha contar segredos. Um dia disse-me que a avó dela tinha morrido e que estava muito triste.

A menina era muito pequenina e eu fiz-lhe companhia. A menina cresceu e agora vive numa casa ao pé de mim. Já cá não vem e eu tenho saudades dela!

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