EM PORTUGAL, É NECESSÁRIO QUE A JUVENTUDE SE DESLOQUE. Por Charlotte Bozonnet

Charlotte Bozonnet, Lisboa, enviada especial

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 Manifestação contra a austeridade le 24 novembre 2011, em Lisboa | REUTERS/RAFAEL MARCHANTE

“Faça prova de mais esforços ” e “deixe a sua zona de conforto”, é o que lhes dizem. Em Julho, o primeiro-ministro Português, Pedro Passos Coelho, apelou aos seus compatriotas para irem trabalhar para o estrangeiro, por falta de empregos no país. A declaração causou politicamente um enorme clamor. A juventude ficou particularmente chocada com esta admissão de impotência. Para já, vivem inscritos na precariedade, os jovens portugueses estão-se agora a confrontar com uma enorme falta de empregos de que não há já memória. Entre os 15 e os 24 anos de idade a taxa de desemprego passou num ano de 27% para 36%, o dobro da média nacional. E de 13% para 17% entre aqueles que têm idades entre os 24 e os 34 anos. Incapazes de pensar no seu futuro no seu país, muitos destes 385 000 jovens sem trabalho são tentados pelo exílio.

As dificuldades da juventude portuguesa não são novas. A “geração 1.000 euros” nunca existiu até agora: salário mínimo é de 475 euros por mês. Entre os jovens, os empregos precários têm sido desde há muito a regra entre os famosos recibos verdes, estes “recibos verdes”, inicialmente destinados a remunerar os trabalhadores por conta própria e para missões pontuais . O empregador não paga as contribuições sociais, os recibos não dão direito nem aos feriados pagos nem ao subsídio de desemprego ou de férias. São um encargo para o trabalhador que contribuiu ele próprio e sozinho , se tem os meios para o fazer . Aparecidos nos anos da década de 1980, estes recibos têm-se generalizado até na própria administração pública e no sector privado e são já uma característica generalizada em Portugal, ou seja, é já uma situação que atinge 20 por cento dos trabalhadores.

Ana Feijão conhece-os bem. Desde que saiu da Universidade, em 2009, formada em arquitectura paisagística , esta jovem de 29 anos, membro da Associação Precários Inflexiveis , só tem sido paga por esta via . Não encontrando emprego no seu sector , ela faz pequenos biscates , no secretariado, na construção… Desempregada há um ano, arranjou um emprego em Junho como vendedora em Zara Home: um contrato de sete meses, vinte e cinco horas por semana, pago a 300 euros mensais. O seu aluguer – vive num apartamento partilhado – é de 275 euros. Ana não se sente infeliz. “É difícil para toda a gente”, diz-nos ela. Mas está cansada desta vida de viver o dia a dia que não permite nenhum projecto. Cansada especialmente com a ideia de que isto não vai melhorar tão depressa: “gastamos o nosso tempo e a nossa energia a evitar as dificuldades, para encontrar uma maneira de pagar o aluguer da casa, para conseguir chegar ao fim do mês. Eu não acredito que viver assim seja uma solução. “

A falta de oportunidades não é apenas para os jovens licenciados, cuja bagagem continua a ser uma vantagem. Além disso, o colapso do sector da construção civil e o encerramento de pequenas empresas penalizam também os menos qualificados. Os cortes nos efectivos da função pública já não são uma saída . À medida que o número de saídas para o estrangeiro explodiu, renovou-se assim os fluxos de emigração que marcaram a história do país e com os quais se pensava ter já acabado . Cada ano, segundo a OCDE mais de 70 000 vão-se embora, metade deles abaixo dos 29 anos. A ordem de grandeza é a mesma dos anos 1960-1970, quando os portugueses emigraram maciçamente para a França.

Na década de 1990, o país ainda tinha-se tornado uma terra de boas-vindas para muitos trabalhadores, que vieram dos países de Leste e do Brasil participar nos grandes trabalhos públicos de construção de estádios de futebol, da Exposição universal. “Pela primeira vez na sua história, Portugal conheceu um saldo positivo de migração, lembra o sociólogo António Barreto. Acabou e é claro que é um sinal de que o país vai mal.”

O número exacto de candidatos a partirem e o conhecimento do seu destino é difícil de determinar porque os movimentos no seio da União Europeia não são contabilizados. “Mas sabe-se que a emigração para a Suíça assumiu valores muito altos, assim como para o Reino Unido. O Brasil, o Canadá e a Venezuela também são destinos preferidos, precisa Antonio Barreto. No Brasil, a regularização dos trabalhadores portugueses, atraídos pela preparação para os Jogos Olímpicos de 2016 e para o Campeonato Mundial de 2014 em futebol passaram de 276 703 para 826 328 entre Dezembro de 2010 e Junho de 2011. As antigas colónias africanas de Portugal, com Angola à frente, tornaram-se também terras de oportunidades. No entanto, o perfil do emigrante mudou desde a década de 1960. Os camponeses e pequenos artesãos têm sido substituído por diplomados – professores, engenheiros, informáticos… – muito requisitados nas economias emergentes, por falta de trabalhadores qualificados. Ao ponto que muitos observadores referem-se já a uma “fuga de cérebros” invertida.

Para Sara Rocha, 29 anos de idade, poderia ser o Brasil, um país da África ou a Austrália. O exílio, a jovem tinha nunca pensado nisso até agora, mas desempregada desde Janeiro, não receberá mais nada depois de Dezembro, os seus 600 euros do seu subsídio mensal. Bem, então será necessário encontrar uma forma de saída para conseguir pagar o aluguer. Os seus pais, eles próprios em dificuldades não poderão ser capazes de a ajudar. Engenheira florestal, o seu contrato não foi renovado no final do ano de 2011, por razões económicas. Ao longo de 10 meses, tem enviado centenas de curricula, mas foi convocada apenas para três entrevistas. “Eu só quero trabalhar. “Eu faria fosse o que fosse: lavar escadas, trabalhar num call center, mas preciso de ganhar a minha vida”, quis ela salientar. A estudante, saída de um meio modesto pensou que tinha feito tudo para que a vida andasse . “Na Universidade, os professores asseguravam-nos que com esta formação arranjaríamos trabalho.”

“Agora que vivemos numa democracia, é absurdo que exista um tal movimento migratório . Que futuro podemos nós preparar se a juventude vai para fora do país enquanto que nós temos investido muito em educação? “, sublinha o deputado socialista João Galamba.”

Os jovens portugueses é a geração melhor formada na história do país. A seguir à revolução dos cravos em 1974 abriram-se as portas da Universidade. Os pais levaram a que os seus filhos fossem estudar. Uma política que tem conhecido algumas deficiências, observou Inês De Mena Mendonça. À frente de uma empresa de consultoria que ajuda as empresas a internacionalizarem-se , esforça-se por criar um BTS comercial no país. “Não há hoje nenhuma tal formação em Portugal. Ora, na realidade , são os quadros médios que fazem marchar uma empresa.” Uma necessária reflexão sobre as saídas profissionais necessárias mas que não resolve a questão do desemprego. “Não agora há hoje um problema de competências, não há é trabalho,” disse João Galamba que questionou o governo actual pelas suas medidas de austeridade.

Nos últimos anos, os jovens portugueses estiveram na origem de grandes mobilizações sociais contra a crise e a política de rigor num pequeno país pouco habituado às manifestações espontâneas. A que se desenrolou no dia 15 de Setembro, nas ruas de algumas cidades portuguesas, em mais de 30 cidades, reuniu centenas de milhares de pessoas, foi lançada através das redes sociais. No dia 12 de Março de 2011, o cenário foi o mesmo com 300 000 a 400 000 manifestantes que acorreram ao apelo dos Geração à Rasca e que que inspirou dois meses mais tarde, o movimento dos espanhóis “Los indignados”.

Charlotte Bozonnet, envoyée spéciale à Lisbonne,  Au Portugal, il faut que jeunesse se déplace, Le Monde, 09.11.2012,

Leave a Reply