Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
II : Jacques Sapir : ” desvalorizar permitiria redistribuir a riqueza “
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Jacques Sapir est économiste, et directeur d’études à l’EHESS |
(continuação)
Parte III
Tendo sido pessimista quanto ao euro desde longa data será que ainda assim continua muito pessimista quando à sustentabilidade do euro?
Completamente. mas deve-se ter em conta que não há mais ninguém a não ser os políticos e os jornalistas a pensarem que o euro tem um futuro. Não há um banqueiro francês, inglês, alemão ou suíço que ainda acredite na sua sobrevivência! Esta conversão dos banqueiros deu-se praticamente entre Dezembro de 2011 e Maio de 2012, anteriormente, os bancos tinham depositado muita esperança nas LTRO (operações de refinanciamento de longo prazo ), que consistiam, para o BCE, em refinanciar os bancos privados à taxa de 1%. mas esse plano falhou.
Como é que se poderá dar o fim do euro?
Eu considero dois cenários possíveis. Primeira hipótese: a Grécia sai e no prazo de um a dois anos será seguido por um, dois ou três outros países e a zona euro está em plena fragmentação . Segunda hipótese: tomamos a decisão comum de dissolver a zona euro. Este último cenário teria muitos benefícios e permitiria que se mantivesse um sistema de coordenação entre as moedas, o que se torna impossível com as saídas a conta-gotas.
Por outro lado, não vejo nenhuma outra solução. È certo, nós ouvimos falar muito sobre um “salto federal”. mas devemos estar conscientes do que isso implica. Isto exigiria às regiões ricas que viessem a pagar para as regiões pobres, por outras palavras, seria necessário que a Alemanha deva pagar para a Grécia, a Espanha, Portugal e, em seguida, para a Itália e a França. essa opção exige que a Alemanha gaste anualmente entre 8 e 12% do seu PIB! Não consigo imaginar um minuto sequer que isso é credível!
Pagar para a França… por enquanto, nós estamos a fazer empréstimos a taxas de juro negativas. Parece que a França está ainda parcialmente preservada.
De modo algum. Por um lado, trata-se de taxas a prazos muito curtos (três meses). depois, trata-se de liquidez que as empresas, as que fazem comércio com a zona euro, são obrigadas a colocar em euros. Por isso não se põe sequer questão a estas empresas para comprarem títulos do tesouro espanhol ou italiano , que não são mais seguros. Essas empresas colocam a sua liquidez em títulos alemães ou franceses. Isto é mais um testemunho de um disfuncionamento global da zona euro do que de uma boa saúde da economia francesa.
Finalmente, o que ainda pode fazer o governo francês?
O problema do governo francês, é que ele será confrontado com um forte crescimento do desemprego que pode mesmo ser explosivo . Nesta Primavera, nós estávamos com um ritmo de aumento de desempregados mensalmente na casa dos 20 000 desempregados por mês ou mais. A partir deste Verão, passámos a uma velocidade de 40.000 desempregados por mês e até ao próximo mês de Junho, devemos, portanto, ter 500.000 desempregados a mais se o ritmo assim continuar.
Na realidade, o desemprego vai aumentar muito mais rapidamente do que isso. Na verdade, a economia francesa estará em recessão no final deste ano, bem como no próximo ano. Hoje, o consenso dos economistas é o declínio no PIB entre 0,2 e 0,3% para 2013 e eu penso que irá descer até 0,5%. o que nos deve levar a que se tenha cerca de 700.000 desempregados adicionais até Junho de 2013.
O governo deve começar a agir… não agindo, pode assim deixar o défice novamente subir e anunciar que como um resultado da realidade económica, renuncia ao regresso ao equilíbrio até 2017. Ele pode também decidir em dado momento do mandato que vai proceder a um ajustamento orçamental brutal e grave e aí ignora-se o que pode acontecer ao desemprego. Algumas estimativas – por exemplo, as de Patrick Artus (Natixis) – colocam-no até 20% em 2014.
No entanto, a situação política poderá rapidamente ficar muito diferente do que é actualmente, com o endurecimento das oposições que já aparecem no seio da própria esquerda . Uma solução razoável para o governo poderia então ser a de este pedir , puramente e simplesmente, a dissolução do euro…


