REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

europe_pol_1993

II : Jacques Sapir : ” desvalorizar permitiria  redistribuir a riqueza

Sapir - II

 

Jacques Sapir est économiste, et directeur d’études à l’EHESS
Il est notamment l’auteur de
– La démondialisation, Seuil, avril 2011 (
click)
Faut-il sortir de l’euro ? Seuil, janvier 2012

(continuação) 

Parte III

Tendo sido pessimista quanto ao euro desde  longa data  será que ainda  assim  continua muito pessimista quando à sustentabilidade do euro?

Completamente. mas deve-se ter em conta que  não há mais ninguém a não ser os  políticos e os jornalistas a pensarem  que o euro tem um futuro. Não há um banqueiro  francês, inglês, alemão ou suíço que ainda acredite na sua  sobrevivência! Esta conversão dos banqueiros  deu-se  praticamente  entre Dezembro de 2011 e Maio de 2012,  anteriormente, os bancos  tinham depositado muita esperança nas LTRO  (operações de refinanciamento de longo prazo ), que consistiam, para o BCE,  em  refinanciar   os bancos privados à taxa de 1%. mas esse plano falhou.

Como é que se poderá dar  o fim  do euro?

Eu considero  dois cenários possíveis. Primeira hipótese: a Grécia sai  e  no prazo de um a dois anos será seguido por um, dois ou três outros países  e a zona euro está em plena fragmentação . Segunda hipótese: tomamos a decisão comum  de dissolver a zona euro. Este último cenário  teria muitos benefícios e  permitiria que se mantivesse  um sistema de coordenação entre as moedas,  o que se torna impossível com as saídas a conta-gotas.

Por outro lado, não vejo nenhuma outra solução. È certo, nós ouvimos falar muito sobre  um “salto federal”. mas devemos estar conscientes do que isso implica. Isto exigiria às regiões ricas  que viessem a pagar  para as regiões pobres,  por outras palavras, seria necessário que a Alemanha deva pagar para a Grécia, a Espanha, Portugal e, em seguida, para a Itália e a França. essa opção exige que a Alemanha gaste anualmente entre 8 e 12% do seu PIB! Não consigo imaginar um minuto sequer  que isso é credível!

Pagar para a França… por enquanto, nós estamos a fazer   empréstimos a taxas   de juro negativas. Parece que a França está  ainda parcialmente preservada.

De modo algum. Por um lado,  trata-se de taxas a prazos muito curtos  (três meses). depois, trata-se de liquidez  que as empresas, as que fazem comércio com a zona euro, são obrigadas a colocar  em euros. Por isso  não  se põe  sequer questão a estas empresas para comprarem  títulos do tesouro espanhol  ou italiano , que   não são mais seguros. Essas empresas colocam a sua liquidez em títulos alemães ou franceses. Isto é mais um testemunho de um  disfuncionamento  global da zona euro do que de uma boa saúde da economia francesa.

Finalmente, o que ainda pode fazer o governo francês?

O problema do governo francês, é que ele será confrontado com um forte crescimento do desemprego que pode mesmo ser explosivo . Nesta Primavera, nós estávamos com um ritmo de aumento de desempregados mensalmente na casa dos 20 000 desempregados por mês ou mais. A partir deste Verão, passámos a uma velocidade de 40.000 desempregados por mês e  até ao próximo mês de  Junho, devemos, portanto, ter  500.000 desempregados a mais se o ritmo assim continuar.

Na realidade, o desemprego vai aumentar muito mais rapidamente  do que isso. Na verdade, a economia francesa estará  em recessão no final deste ano, bem como no próximo ano. Hoje, o consenso dos economistas é o declínio no PIB  entre 0,2 e 0,3% para 2013 e  eu penso que irá descer até 0,5%. o que nos deve  levar a que se tenha cerca de  700.000 desempregados adicionais até Junho de 2013.

O governo deve começar a agir… não agindo, pode assim deixar o défice novamente subir  e anunciar que como um resultado da realidade económica, renuncia ao regresso  ao equilíbrio até 2017. Ele pode também decidir em dado momento do mandato  que vai proceder a um ajustamento orçamental brutal e grave e  aí ignora-se o que pode acontecer ao desemprego. Algumas estimativas – por exemplo, as de Patrick Artus (Natixis) – colocam-no até  20% em 2014.

No entanto, a situação política poderá rapidamente  ficar muito diferente do que é actualmente, com o endurecimento das oposições  que já aparecem no seio da própria esquerda . Uma solução razoável para o governo poderia então ser a de este pedir , puramente e simplesmente,  a dissolução do euro…

(continua)

Leave a Reply