Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Terá Mario Draghi mentido ao Parlamento que aprovou sua nomeação?
Julien S, site AgoraVox
Esta é a questão de Pascal Canfin, o eurodeputado que o tinha questionado no quadro da sua nomeação, sobre sua possível participação na maquilhagem das contas da Grécia, enquanto ele era vice-presidente da Goldman Sachs para a Europa, entre 2002 e 2005. Esta questão, citada no New York Times, 29 de Outubro, não seria merecedora de uma análise cuidadosa? Pela nossa parte, iremos levantar algumas pistas de reflexões, convidando o leitor a explorar este dramático e complexo dossier.
Refira-se aqui que Marc Roche, num artigo do Le Monde do dia 31 de Outubro, ou seja um dia antes da entrada em funções de Mario Draghi à frente do BCE, qualificava os factos em debate de um “dossier negro “. Por outro lado, parece que a explicação do governador enquanto ele era apenas um candidato, pronunciada num tom exasperado face à Comissão encarregada de, e em nome do Parlamento Europeu, avaliar a sua nomeação em Junho de 2011 só agravou a desconfiança existente, suscitando a questão do título deste artigo, evocada em margem da cobertura da transmissão de poderes no BCE, no prestigiado diário de Nova Iorque.
Como é que esta questão se mantém em suspense? Vamos tentar colocá-la em perspectiva, por analogia com o suposto perjúrio do Presidente da Goldman Sachs, no seu depoimento no Congresso dos EUA. Pela nossa parte aproveitaremos a oportunidade para melhor dar a conhecer o dossier e corrigir um erro de data, trivial só na aparência, que foi cometido no primeiro artigo citado acima e que voltou a aparecer de forma idêntica num novo artigo. Vamos também discutir propostas concretas, que devem esperar de actores da vida pública, a fim de romper o impasse.
Analogia com o perjúrio pressuposto do Presidente de Goldman Sachs
Carl Levin é um senador que está empenhado no esclarecimento do dossier da crise financeira, diga-se, como está aqui na Europa, Pascal Canfin. O Presidente da Goldman Sachs teria, na sua opinião, cometido perjúrio nas suas respostas para com o Senado, relativamente aos comportamentos do banco de que é responsável. Tudo isto é pois paralelo ao caso que agora nos interessa.
Qual foi a sequência, a seguir? É a partir deste ponto que o paralelo com a abordagem corajosa de Pascal Canfin acaba: o Departamento de Justiça dos EUA não é feito para andar a rogar autorizações para desencadear uma investigação, que está a decorrer, em vista de um eventual processo [1](1), enquanto connosco, digamos, s’indigne à qui mieux mieux..melhor melhor…
Espera-se a renovação de interesse por parte dos media. Eis aqui, talvez, as questões que os jornalistas deveriam colocar aos juristas e aos políticos, respectivamente:
Quais são os recursos jurídicos para colocar a este assunto a claro ? Quando é que contam utilizá-los ?
Entretanto, enquanto se espera, devemos olhar à lupa os elementos conhecidos do dossier. Isso é o que tentamos fazer num texto anterior que vamos resumir abaixo e que nos permitirá v precisar uma pista possível de recurso jurídico.~
Um ponto de detalhe na cronologia dos factos
Como se anunciou na introdução, iremos corrigir um erro de data, trivial só na aparência, que aparece no texto de Marc Roche, e que se repetiu de modo igual no seu último artigo, “Goldman Sachs traço de união entre Mario Draghi, Mario Monti e Lucas Papadémos”:
Mario Draghi disse que, tendo entrado ao serviço em 2002, não tinha nada a ver com a maquilhagem das contas gregas orquestrada dois anos antes pelo banco. E ele pediu a demissão em 2005, ou seja, um ano antes de Goldman Sachs vender uma parte do “swap” em questão ao Banco Nacional da Grécia […]
A informação que nós temos, da auditoria feita pelo Eurostat em 2010, pag. 18 [2]:
iii) Análise por Eurostat dos contratos de swaps com Goldman Sachs
Em Agosto de 2005 ocorreu uma reestruturação significativa do contrato swap. A maturidade foi prolongada de 2019 para 2037 […] Quase ao mesmo tempo, GS vendeu a sua participação no contrato ao Banco Nacional da Grécia (NBG, privatizado em Novembro de 2004) […] Para Eurostat, uma alteração do contrato que se traduz por uma redefinição significativa das obrigações de uma ou ambas as partes é tratada como um novo contrato.
No entanto, o Banco Central de Itália, num comunicado de 2010, disse que Mario Draghi assumiu as suas funções como governador em Janeiro de 2006. Em primeiro lugar, isto está em contradição com a segunda frase de Marc Roche, acima. Então, é muitíssimo provável que Mario Draghi estivesse ainda em funções em Agosto, ou seja, no mês em que uma reestruturação significativa do contrato, seguida da sua venda para a NBG, foram ambas as operações realizadas.
(continua na próxima terça-feira, 12 de Fevereiro)
[1] Mr Blankfein hired a personal counsel to deal with an ongoing investigation by the Department of Justice. Veja-se também o artigo no Financial Times sob o título Blankfein retirement speculation still rife, disponível em : http://www.ft.com/intl/cms/s/0/c6c18e74-fbff-11e0-b1d8-00144feab49a.html#axzz2JPivqa6C
[2] Traduzido do inglês : iii) The Eurostat analysis of the swaps with Goldman Sachs : […] In August 2005 a significant restructuring of the swap contract took place. The maturity of the swap was extended from 2019 to 2037. […] Almost at the same time, GS sold its rights and obligations to the National Bank of Greece (NBG, a bank completely privatised in November 2004) […] For Eurostat, a change in the contract that results in a significant transformation of the obligations of one or both parties must be considered in substance as a new swap agreement
