QUANDO UMA PROMESSA DEIXA DE SER UMA PROMESSA, de EDWARD HUGH

Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota

(continuação)

Parte II

……

Conferência de imprensa em Fevereiro[1]

Pergunta: Infelizmente, eu tenho mais uma pergunta a fazer sobre a Irlanda. O senhor disse  que é uma decisão do Governo irlandês e, provavelmente, do Banco Central da Irlanda e que não é, portanto,  um  problema seu. Mas, poderá em qualquer momento, penso eu,  ser também  um problema do Eurosistema porque, pelo que entendi, o Banco Central da Irlanda é agora o proprietário de uma nota promissória ou um outro tipo de título,  talvez títulos do governo com durações muito  mais longas, que devem fazer parte dos chamados activos ANFA. Eu sei que existem certas regras sobre  esses activos mas haverá um momento, ainda este ano, em que o senhor terá de olhar para isso. Será que tem quaisquer propostas para o Banco Central da Irlanda para reduzir esse valor, [o valor do crédito concedido pela Troika, ao abrigo do plano de resgate]?

Draghi:  O senhor está a ir muito rápido, está a ir muito à frente.  Certamente iremos  rever a situação na devida altura.  Note, eu não estou a dizer que esta é a última palavra sobre este assunto. Estou apenas a dizer que, hoje, o Conselho por unanimidade tomou nota da operação irlandesa. Assim,  eu devo  dizer que esta  não é certamente a última palavra. Voltaremos a isso.

Bem, nós não queremos precipitar as coisas. Precisamos de fazer algumas consultas  pelo que de momento estamos apenas a tomar  notas sem  fazer  nenhum outro comentário. Mas com a diferença que um dia  faz,  o mês de Março  está  já a chegar   e aqui já não estão a tomar notas . Pobre Mario não era sequer capaz de se lembrar da data  em que o Conselho dos Governadores  estava a pensar voltar ao assunto.  Curioso…

Conferência de Imprensa de Março [2]

No mês passado, disse-nos  que nós não ouvimos a última palavra sobre as notas promissórias irlandesas.  Assim, gostaria de saber, quando vamos afinal ouvir  a sua última palavra  sobre o assunto?

Draghi:

Nós periodicamente  procuramos verificar  o cumprimento do artigo 123  por  todos os países. Se não me engano, esta análise  deve ser feita  no final do ano, mas o Conselho do BCE decidirá em total independência quando é que se irá fazer   essa revisão, ou uma revisão de situações semelhantes. Eu não tenho nenhuma data para  lhe indicar  agora. Acho que não esta  marcada nenhuma data para isso  ser feito, e eu acredito que seja  no final do ano, mas não posso lhe posso dar nenhuma certeza  sobre isso.

Agora para quem precisa de se lembrar do artigo 123. º do Tratado da União Europeia, lembro que este é o artigo onde se  proíbe explicitamente o financiamento monetário do BCE ou dos bancos centrais nacionais  aos Estados-membros.  O acordo celebrado entre o banco central irlandês e o Governo irlandês poderá  certamente parecer que está a  violar a letra do referido artigo, e tendo em conta a forma como o Bundesbank  manifestou   tais preocupações ao longo dos meses sobre qualquer coisa que nem sequer vagamente cheirava a isso , o senhor poderia pensar  que isso  teria sido um tema quente.

Na base do  acordo, o Banco Central irlandês decidiu assumir a  propriedade total de 25   mil milhões de Euros em notas promissórias emitidas pelo Governo irlandês, quando   este resgatou o  Anglo Irish bank.  Posteriormente, estas notas foram trocadas por títulos soberanos irlandeses  com vencimentos até 40 anos. O primeiro pagamento do principal só começará a ser pago a partir de 2038 e o último pagamento será feito em 2053.[3]

Adicionalmente, a taxa de juro média foi massivamente  reduzida.  Os juros  sobre os novos títulos vão começar em pouco mais de 3%, em comparação com mais de 8% sobre as notas promissórias.  Evidentemente o Governo irlandês foi exactamente aliviado de uma carga de curto prazo nas  suas finanças no montante de mais de 2 mil milhões de euros por ano.  Este dinheiro poderá agora aplica-lo para  estimular  a economia irlandesa, evitando degradar ainda os cortes prejudiciais nos défices públicos e assim conseguir que o défice seja  progressivamente reduzido. Se então não se trata de financiamento monetário, então não é exactamente claro o que é que isto poderá ser .

Cansaço crescente nas duas  extremidades, cansaço  dos dois tipos de países  da zona euro

Assim, o que aconteceu entre as duas conferências de imprensa? Aconteceram as eleições italianas, foi o que aconteceu. O que o resultado das eleições italianas sugere  é  que não é apenas o facto de que a  Itália não vai conseguir facilmente formar  um governo, o que em  parte é óbvio, que é muito importante. Mais importante ainda, há um reconhecimento crescente de que, mesmo depois de um governo ser formado, dobrar-lhe o braço e força-lo a aplicar um pesado programa de reformas vai ser muito difícil, e entretanto o rácio da dívida relativamente ao PIB na Itália irá simplesmente continuar em frente e  a subir claramente (estava  já perto  dos  130% no final de 2012 e irá subir), não   sendo seguramente suficiente  para aliviar a pressão dizer   que é preciso ir em frente e calmamente até porque  o país tem agora um saldo primário[4]..

Assim em qualquer momento este aumento do nível da dívida terá de ser bloqueado   e eu acho que há uma crescente resignação sobre esta realidade  em Bruxelas, Berlim e Washington.  E é esta resignação que os mercados estão já  a farejar  mesmo que  eles ainda não estejam a exigir que os seus  melhores conselheiros acabem rapidamente de almoçar  para depois espalharem  o pânico e é  por isso que os spreads de títulos dos países da  periferia estejam a reagir  tão calmamente a quase  tudo.

edwardhughdemocracia - IIImagem retirada do site A Fistful Of Euros. Como legenda propomos:Lanternas para a Primavera que aí vem?

A dívida italiana terá que ser reestruturada, ou pelo menos “re-perfilada” (o que basicamente significa que se prorroga o prazo de liquidação dos títulos da   dívida, digamos para 30 ou 50 anos  de uma forma que o valor  actual  líquido é significativamente reduzido), assim como foi feito para o  seu  parceiro, a Grécia. Mas alto aí,  não é  exactamente   isto    que  o que o Governo irlandês   quer que o banco central irlandês assine e  depois, como o assinala John Dizard, não é verdade que Maria Cannata, director-geral da dívida pública na Itália, recentemente  foi até ao ponto  de  sugerir que o país poderia  brevemente fazer uma  emissão de títulos na faixa de 30 a 50 anos?  “Temos a intenção de reiniciar com o alongamento da duração da vida média da nossa dívida,”  disse ela numa conferência de investidores em Londres muito recentemente. “Estamos prontos para lançar também um novo título a 30 anos (obrigação) logo que possível.”

edwardhughdemocracia - III

Legenda: A Itália e a Europa ambas prisioneiras da crise da dívida

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[1] Sugiro ao leitor ouvir as interrogações de Bloomberg a Mário Draghi nesta conferência, e que se podem  ouvir em : http://www.forextv.com/forex-news-story/ecb-press-conference-mario-draghi-february-7-2013-live-video

[2] Sugiro que leiam a reprodução desta conferência em https://www.ecb.int/press/pressconf/2013/html/is130307.en.html

[3] Nota de Tradução: Em 28 de Março de 2013 lia-se com origem na Moody’s: “ Moody’s Investors Service has today affirmed the Republic of Ireland’s Ba1/Not Prime government bond ratings and negative outlook.

The drivers for maintaining the negative outlook on Ireland’s sovereign ratings are:

1.) The euro area’s continued vulnerability to shocks emanating from the regional debt crisis, most recently the agreement by the European Union (EU) to the “bail-in” of bank deposits to raise part of the funds needed for Cyprus’ financial rescue.

2.) The continued poor asset quality of the Irish banking system.

The drivers for affirming Ireland’s Ba1/NP sovereign ratings are:

1.) The Irish government’s progress in implementing the economic adjustment programme under the auspices of EU, International Monetary Fund (IMF) and the European Central Bank (ECB), collectively known as the Troika.

2.) Ireland’s steady progress in regaining market access and obtaining private-sector financing at an affordable cost, a prerequisite for the country to successfully conclude its EU/IMF-sponsored economic adjustment programme this year without needing a second bailout.

3.) Ireland’s regained competitiveness, with generally positive growth deriving from a strong contribution of net exports, the apparent bottoming-out of the housing sector correction and its continued ability to attract foreign direct investment.

In a related rating action, Moody’s has also affirmed the Ba1/NP ratings and negative outlook on Ireland’s National Asset Management Agency (NAMA), whose debt is irrevocably and unconditionally guaranteed by the government.”

[4] Nota de tradutor. Na conferência de Março Mario Draghi afirmou:

“But I can tell you that Italy, like all the other countries, should continue down the path of structural reforms, which is the only way to restore growth. It should also build on the substantial fiscal consolidation that has been achieved so far. This is very important, because this is what gives credibility in the markets, leading to lower spreads and, therefore, lower lending rates, more credit in the economy and more job creation. This is the path.”

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