QUANDO UMA PROMESSA DEIXA DE SER UMA PROMESSA, por Edward Hugh

Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota

Parte III

(conclusão)

……

Assim, enquanto os jornalistas da Europa procuravam olhar para os bancos centrais isto pode,  pelo menos momentaneamente, tê-los levado a perder  de vista o problema, o  mesmo  não acontecia com as  equipas de analistas dos hedge  funds  e,  na verdade, penso  que de outra maneira seria bastante difícil compreender porque é que os mercados estão a responder  assim tão calmamente à  ausência de quaisquer  sinais por  mínimos que sejam  de um governo estável em Itália. De uma  forma ou de outra têm-se o sentimento de que nada disto  interessa  agora, e os prémios de risco podem  indiferentemente descer.

Algo semelhante parece estar a acontecer no caso de Espanha. No final da semana passada os títulos a  5 e 10 anos da dívida de Espanha  atingiram o seu nível de rendimento mais baixo desde Novembro de 2010. E isto   numa semana  em que a  Agência de rating de crédito Moody’s anunciou  que identificou 200 mil milhões   de euros de  valor  de activos  de propriedade  mal classificados nos balanços de Banco de Espanha, para os quais não tinham sido feitas as provisões adequadas. Não é o risco do sector financeiro suposto ser um dos principais riscos para a dívida espanhola e para a sua solvabilidade? Como é que o mercado de acções continua a subir, mesmo quando  quase todos os indicadores da economia real se deterioram? Uma combinação de cansaços, do cansaço sobre as  reformas  na  periferia e do cansaço sobre os  resgate nos países do  núcleo central,  está a  produzir  o que muitos entendem como sendo uma tempestade perfeita.  Um mundo onde quase nada pode dar errado, a menos que se esteja em  Espanha ou na Grécia e ande à  procura de um emprego. Na verdade agora está-se  a começar  a considerar  cada vez mais improvável que Mariano Rajoy sempre venha a   pedir a aplicação dos famosos Outright Monetary Transactions em Espanha, Landon Thomas – como muitos de nós – tinha-se enganado, o mundo não estava à espera de Mariano, o mundo estava era à  espera de Mario  para ver se ele só iria manter a fazer apenas movimentos com os seus polegares.

Será que os  bancos centrais nacionais irão apoiar  os mercados obrigacionistas não importa em quanto?

Naturalmente, esta é uma solução de vencedor-vencedor , situação em que todos ganham –  ganham  o BCE, o Bundesbank e Angela Merkel que não terá que se manter indo ao Parlamento alemão para obter autorização para obter  ainda mais dinheiro para  resgates. Talvez por isso este seja um momento importante na crise. O momento é este em que se pode  dizer que uma fase é passada  e que uma  outra, aquela a que o  economista-chefe do  Citi Willem Buiter uma vez chamou a transformação da zona euro em algo equivalente à zona rublo, está prestes a começar[1].  Agora pode ser que os bancos centrais nacionais, em vez do BCE,  se tornem  o foco de atenção, pelo menos em termos de assumirem  o risco de dívidas que estão a crescer, e em  países que sempre irão ter problemas para  depois conseguirem  pagar   tudo.

Como escrevi em Outubro do ano passado:

O centro  da questão está em  que Mario Draghi prometeu fazer o suficiente, e o suficiente parece que não tem limites. Assim, o  que é que poderá  o BCE fazer se nós realmente colocarmos a nossa imaginação a trabalhar sobre esta questão?

Bem,  como Ray [Dalio] argumenta, poder-se-ia  imprimir dinheiro, muito dinheiro, mesmo  ao ponto de o fazer  de helicóptero. As pessoas que pensam que o BCE já está a imprimir  dinheiro (o que eles não estão necessariamente a fazer  quando aumentam o valor do seu balanço) ainda não viram nada. Isto é o que significa a promessa “fazer o que for necessário”. Nada disto está ainda no seu mandato, naturalmente não é assim, mas poderia ser, e seria muito mais fácil colocar mais margem de manobra no seu mandato do que seria para se manterem a  ir  ao  Parlamento alemão e sempre para  pedir mais dinheiro.

Assim poderia ser e, muito provavelmente, será o que vai ter de acontecer. Quando  se está a caminhar sobre uma ponte  feita de cordas   e esta começa a ranger  e a balançar em seguida, têm-se a ideia  que não há mais nenhuma  alternativa que não seja a de continuar a caminhar para o outro lado. Todos nós já vimos muitos filmes sobre o que acontece às  pessoas que tentam voltar para trás.

Izabella Kaminska no blog Alphaville do Financial Times  também considera que é isso que vai acontecer,  isto é, “algo muito importante  terá mudado  o que torna a situação  num  um tipo muito diferente de bolha. O Governo continuará a apoiar o mercado não importa o quê… A crise aconteceu precisamente porque não havia expectativas preestabelecidas quanto aos  apoio do governo.”

Izabella é claro está a falar  sobre o governo dos Estados Unidos, mas o importante é que o raciocínio  é generalizável. A crise do Euro eclodiu precisamente porque não havia expectativas de nenhum apoio colectivo para os países em dificuldade. Como já o escrevi em tempos, a crise grega eclodiu na sequência do que aconteceu em Dubai, onde  os mercados começaram a duvidar que o grande irmão que é  Abu Dhabi iria resgatar financeiramente  o país. Aconteceu a mesma coisa para com a Grécia, em que as expectativas de apoio do governo alemão diminuíram  em grande parte porque o próprio governo o foi recusando tanto quanto pode.  Mas agora, quatro anos mais tarde uma fórmula foi encontrada: marcharmos todos  juntos mas lutarmos  separadamente, ou algo parecido como isto.

Assim é devido ao crédito de Mario Draghi com o que tenha sido mudada aquela percepção,  uma vez que  jurou  que salvaria  o Euro custasse o que custasse  e agora inadvertidamente o Governo irlandês ofereceu   aos  investidores uma belo exemplar de como as  coisas poderão   funcionar. Os bancos centrais nacionais apoiarão   os  seus mercados de títulos soberanos, não importa quanto. Afinal, não é exactamente aquilo que o novo primeiro-ministro japonês Shinzo Abe disse que vai fazer, e não é isto também o que os  mercados financeiros globais, zumbindo, resplandecentemente  com alegria, desejam ouvir ?

Porque é que no final a Europa poderá ser  tão diferente? Talvez tudo isto vá acabar em  lágrimas, mas poderá  ser divertido enquanto dura.

Então estamos fora duma esplêndida experiência monetária, com o Japão a conduzir  as manobras. Como Paul Krugman tão apropriadamente o sintetiza no  título de um seu artigo recente – “É o Japão o país do futuro, novamente.”  E a moral – ” será de  uma amarga ironia se alguém  com cara de muito mau, com todos os motivos errados, acabar por fazer as coisas  economicamente correctas,   fazendo as coisa certas,   enquanto os meninos bons rapazes  falharam porque estes   estavam  muito determinados a serem, apenas , uns  bons rapazes.”

E não há aqui nenhuma possibilidade  de  falar de Silvio Berlusconi,  não é verdade?

Edward Hugh, When Is A Promise Not A Promise?, texto disponível em vários blogues entre os quais A Fistful Of Euros, European Opinion, cujo endereço é:

http://fistfulofeuros.net/afoe/when-is-a-promise-not-a-promise


[1] Eis aqui a curta nota de Buiter e vale a pena reenviar o leitor aos textos publicados anteriormente no nosso blog sobre a zona euro e o destino do Comecon já anteriormente publicado. O texto de Buiter:

Global Economics View: Is the Eurozone at Risk of turning into the Rouble Zone?

–  On February 9, 2012, the ECB announced “specific national eligibility criteria and risk control measures for the temporary acceptance of additional credit claims as collateral in Eurosystem credit operations “ for seven euro area national central banks (NCBs).

– After the use of emergency liquidity assistance (ELA), this is the second significant deviation from a single Eurozone monetary, credit, and liquidity policy.

– Unlike for ELA, the nation-specific collateral policy is not subject to explicit quantity limits by the centre. Like ELA, losses from nation-specific collateral operations are not pooled and shared with the rest of the Eurosystem.

–  The ECB’s decision to allow nation-specific collateral eligibility criteria not only means the fragmentation of ECB monetary, credit and liquidity policy along national lines, it permits accelerating and mostly unchecked balance sheet growth of soft Eurozone NCBs, thus raising the spectre of gradual ‘Roublezoneification’ of the euro area.

Texto disponível em: http://willembuiter.com/roublezone.pdf

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