RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

mapagrecia

O  espinho grego do Fundo Monetário Internacional

LE MONDE | 12.06.2013

Alain Faujas

Grécia XI 

Três anos após o resgate da Grécia, realizado em Maio de 2010 por uma “troika” formada pela Comissão Europeia, o Banco Central Europeu (BCE) e o Fundo Monetário Internacional, chegou o tempo dos balanços. E estes não são famosos, apesar de sinais de recuperação perceptíveis na economia grega.

Em Maio, o centro de estudos Bruegel de Bruxelas  publicou um relatório “Financial Assistance in the Euro Area: an Early Evaluation” “Assistência financeira na zona Euro: uma avaliação preliminar” onde era apontado que a Grécia não se encontrava numa “trajectória” de convalescença. No dia 6 de Junho, o FMI difundia uma análise da sua participação no plano grego do qual se retinha que esta Instituição criticava a lentidão de Bruxelas e onde  confirmou que nem a confiança nem o crescimento são estavam de volta a Atenas,  devido aos erros de avaliação da ‘Troika’ sobre os danos que foram causados à economia grega pela imposição de medidas de austeridade. Para o Fundo, a Grécia na verdade continua a ser um espinho encravado no pé.

O texto do FMI é bem mais rico do que isso. Nesse texto lembra-se que, para o apoio à  Grécia, tiveram que violar as suas próprias regras,  participando do plano inicial de 110 mil milhões e desses o FMI entrava com 30 mil milhões de dólares (22,6 mil milhões de euros). No  quadro do plano que foi estabelecido pela ‘troika’: um país só pode obter empréstimo na proporção da sua cota – a sua participação no capital do IMF- 500% em casos mais extremos. A Grécia, viu serem-lhe emprestados cerca de 3 212% da sua cota. É o programa mais importante da história do fundo visto na proporção das quotas, muito antes do apoio concedido à Coreia do Sul e à Turquia.

Geralmente, o FMI intervém sozinho ou, em rigor, em parceria com a sua irmã gémea, o Banco Mundial. É ele que dirige as operações de resgate, de que tem uma longa experiência. Para o plano com a Grécia, o FMI teve que tratar com as duas instituições europeias a que faltam experiência e ficaram atoladas em considerações políticas que, por sua vez, foram  fonte de  repetidos problemas. “Estes atrasos na aplicação das decisões tinham um custo significativo, comenta um alto funcionário. Na verdade, eles ajudaram a impedir o regresso da confiança, levando os consumidores a não consumir e os empresários a não investir.”

Terceiro embaraço do FMI: as suas previsões de crescimento foram demasiado optimistas, porque a recessão grega foi muito mais catastrófica do que o esperado. Os peritos do FMI sabiam que estavam errados e que a dívida grega não era sustentável, mas eles não tinham nenhuma outra escolha que não fosse a de continuar a errar.

Eles foram arrastados pelos bloqueios dos europeus – com Jean-Claude Trichet, naquela época Presidente do BCE, à cabeça – que durante muito tempo recusaram qualquer reestruturação da dívida grega, por medo de contaminar o resto da zona euro. Eles estavam de tal forma encurralados e tanto mais quanto as regras do Fundo proíbem que este organismo se envolva num programa de resgate se a recuperação económica não é garantida. Eles foram, portanto, obrigados a pintar com tons de rosa esta mesmas previsões de recuperação … que mais tarde foram, pela realidade, bem desmentidas.

CONFUSÃO DE MUNDO

Essas rasteiras à ortodoxia não afectam os seus dirigentes. É certo que estas violações do regulamento são lamentáveis, mas eram indispensáveis, é o que pensam, para evitar que um pequeno país como o é a Grécia se tornasse o responsável maior pela confusão mundial ao fazer explodir a zona euro, um pouco como a falência do banco americano Lehman Brothers tinha mundializado a crise de subprime em 2008. O balanço é, portanto, equilibrado. Pelo lado negativo, a confiança não regressou mais e a Grécia não será capaz de pagar a dívida que entretanto contraiu junto das instituições europeias. Pelo lado positivo, a Grécia continua a ser membro da zona euro e a economia global tem conseguido evitar até agora uma segunda mega-recessão.

Em última análise, o relatório do Fundo sobre a Grécia levanta a questão de uma actualização das suas competências. O seu mandato não lhes permite salvar vários países em conjunto – uma zona monetária, por exemplo – como o tem estado a fazer com a Europa e como foi criticado por um número de países, estados-membros do FMI, como foi o caso do Brasil. Christine Lagarde, a sua directora executiva, poderia muito bem questionar esta actualização tornada necessária pela regionalização crescente das economias e pela interdependência que daí resulta.Hoje, já não há nenhuma economia em autarcia.

Era já bem tempo para que o FMI tire as lições dos desaires havidos de reveses do programa grego, elogia Jean Pisani-Ferry, co-autor do relatório, Bruegel com André Sapir e Guntram Wolff. À luz dos problemas económicos, sociais e financeiros, é essencial que haja um debate sobre a questão. O FMI ainda foi correcto ao afirmar que os papéis não foram bem definidos no interior da “troika”. Só lamento que essa avaliação sobre a eficácia do plano grego não tenha sido realizada em conjunto com os europeus, o que, por sua vez, leva a que cada um deles manda para o outro a responsabilidade dos fracassos.”

Em três anos, os europeus tem deixado de ser ” estes loucos furiosos” que ambicionavam endireitar a Grécia num ou em dois anos, como o  denunciava em particular o Director-Geral de então, Dominique Strauss-Kahn. Eles aprenderam as técnicas de um resgate sobre diversos controlos. Resta-lhes apresentar o balanço da sua acção na Grécia com as suas sombras e as suas luzes ao Parlamento Europeu e às respectivas opiniões públicas. Quanto mais cedo melhor.

faujas@lemonde.fr
Alain Faujas

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