NOTA SOBRE A MORTE DE ANTÓNIO BORGES – PEQUENA CRÓNICA DE FARO – Nº 5 – (reedição). Por JÚLIO MARQUES MOTA

Morreu António Borges, um inimigo do povo, um homem que assumiu por fim a função de vender o património  produtivo de Portugal, segundo as decisões da potência dominante, a Troika. Detestava tanto o povo português na sua vida prática como intelectualmente detestava Keynes. Nada mais a dizer.

Morreu António Borges, um serventuário dos grandes capitais, um homem que , na linha do que escreveu Fabius Maximus numa crónica recente, seria considerado um criado ao serviço da Plutocracia, não da Democracia. Nada mais a dizer.

Morreu António Borges, um homem ao serviço do neoliberalismo puro e duro que está a ter como função o declínio do Ocidente a favor do domínio crescente do Oriente,  a favor de uma nova ordem internacional assente na multipolaridade onde os BRICS serão os novos centros do poder.  Esta é a tendência gerada pelo modelo de política de que tanto fez uso e que está  magistralmente descrita num trabalho escrito por Adam  Posen, Membro externo do Comité de Política Monetária do Banco de Inglaterra.  Nada mais a dizer.

Morreu António Borges, um homem que ganhava centenas de milhares de euros enquanto que queria que os outros ganhassem tostões. Nada mais a dizer.

Resta pois para se ser coerente com a sua prática que o seu funeral seja submetido a concurso público e que ganhe então quem propuser o  preço  mais baixo e que se a sua campa ocupar  um espaço público então  o seu sucessor que a privatize o mais rapidamente possível.

E é tudo o que posso dizer sobre este senhor a respeito de quem há um ano escrevi uma crónica que aqui se repete, hoje, por respeito a todas as vítimas da sua política.

***

Pequena crónica de Faro – nº 5. Agosto de 2012

Parte II
(continuação)

O caos ou a segurança: a hora da decisão aproxima-se

Calo-me ao ouvir esta visão da realidade. Visito a Igreja, volto à esplanada e volto agora com o meu amigo retorno à  Rua de Santo António.  Estou cansado de ver lojas a anunciar que compram ouro, pratas, jóias. Lojas que foram lojas de uma outra coisa, lojas que fecharam, lojas que pela mudança de ramo deram aso a mais desemprego ainda. Mas eis que vejo uma loja bem diferente: mantém o seu ramo de actividade e junta-lhe uma nova actividade a de compra de ouro, pratas e jóias.   Leio um quadro antigo inserido na parede onde se descreve a actividade inicial e este reza assim:

Galeria das Patacas

                                                          Antiguidades

Coleccionismo

Moedas e selos

Coins/ Stamps

Por cima numa placa preta a letras douradas num formato bem maior lia-se também:

Compra-se ouro usado ao melhor preço.

O meu amigo vira-se para mim e diz-me que enquanto houver ouro para aqui colocar as pessoas vão suportando o seu desespero. Quando acabar, a hipótese de bombas por muitos sítios no  nosso país poderem começar a rebentar pode ser uma realidade, martelou, não com o martelo que utilizou na vida  e com que muitos pregos pregou, mas com o martelo que tem o peso da gravidade da situação do desemprego que também o atingia. E ele bem sabia  do que falava.

Deixamos a zona da Igreja de S. Pedro e voltamos para a rua de Santo António. Volto a pensar no teorema de Mundell, que representa o conjunto das incompatibilidades:

 Mundell - I

No quadro do capitalismo não se pode ter nunca em conjunto política monetária autónoma, taxas de câmbio fixas e liberdade de movimentos de capitais. Apenas se podem reunir duas características duas a duas, como por exemplo movimentos de capitais e taxas de câmbio fixas, perdendo-se a autonomia de política monetária, como por exemplo política monetária autónoma e taxas de câmbio fixas mas neste caso perdendo-se a mobilidade dos capitais, ou ainda como terceira hipótese podemos ter política monetária autónoma e movimentos de capitais, perdendo-se a hipótese de câmbios fixos.

Face a esta recordação dos meus tempos de Universidade, lembro-me também da regra  de ouro do actual executivo português: o que interessa aos capitais, é o que interessa ao governo, o que interessa ao governo é o que interessa à democracia. Simples, a regra que rege estes senhores.

Graficamente e tomando como referência a lógica de Mundell acima referida teríamos agora para exemplificar a contradição do governo português um esquema fácil de representar esta realidade. Imaginemos um triângulo equilátero em que em cada vértice é caracterizado por uma característica do sistema:

 Mundell - II

Segundo o nosso Gaspar, tracemos por cada vértice uma bissectriz, O conjunto das três bissectrizes intercepta-se num ponto a que chamamos PEm, ponto de equilíbrio máximo. Esta é a lógica do nosso governo, ou seja  é a de caminhar para esse ponto na hipótese  mágica de que basta satisfazer a lógica de mercado de capitais e o quadro do governo é assegurar essa mesma liberdade, expressa então pela liberdade de capitais   segundo os fascistas agora no poder, a verificação conjunta das características expressas pelos  vértices B e C assegura a verificação do vértice A e teríamos então o ponto PEm. Os Deuses estão loucos, ou neste caso o nosso Gaspar  e seus acólitos quando partem desta hipótese, pois no quadro do capitalismo temos exactamente o inverso, a lembrar exactamente o paralelo  com o triângulo de Mundel, pois só se podem verificar as características conjuntas de dois vértices.  Vejamos: se temos o governo duramente a actuar de modo a garantir a desregulação dos mercados, se possível total, teremos os capitais a maximizarem as suas taxas de remuneração, e temos, por definição a situação a afastar-se da profunda Democracia, distanciando-se  o  mais possível desse vértice ou seja caindo sobre a linha que une os vértices  B e C.  Imaginemos a linha caracterizada pela união dos vértices  A e C. Neste caso o Estado estaria a fazer o enquadramento da social-democracia, respondendo o Estado aos desejos das populações e subordinando a estes  os interesses dos grandes capitais que ficariam assim como a variável residual do sistema, ou ainda a variável de ajustamento . Imaginemos a linha que une os vértices B e A. A satisfação de interesses contraditórios no quadro das economias globais exigia um Pacto, um Acordo Global, uma compatibilização de interesses que nenhum governo nacional seria capaz de impor e muito menos seria capaz de forma autónoma conseguir, face às contradições de interesses nacionais que se levantariam. Só uma governação à escala mundial o poderia fazer, sobrepondo-se assim aos Estados nacionais mas esta governança  não existe nem  existirá a não ser  nos limites dos  confins da História, portanto, hipótese a abandonar.

(continua)

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Para ler a parte I desta crónica, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/08/26/nota-sobre-a-morte-de-antonio-borges-pequena-cronica-de-faro-no-5-reedicao-por-julio-marques-mota/

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