FALEMOS ENTÃO SOBRE POESIA – 3 – por Carlos Loures

A velha discussão sobre se o poeta é um ser humano com um dom especial ou se esse dom resulta de um esforço cultural, de uma aprendizagem, de uma sensibilidade aguda, e de uma inteligência cognitiva de elevado índice, parece-me irrelevante. Acredito que cada poeta é um caso, que há várias maneiras de se atingir a grande poesia – só não acredito no “toque sagrado”. Um dos argumentos frequentemente aduzido em defesa desse carácter sagrado da arte poética é o facto de haver grandes poetas muito jovens. Ou seja, admite-se que o ensaio ou a ficção, a dramaturgia, exigem estudo, treino e experiência da vida, mas a poesia não. «Nasce-se poeta», é a conclusão mais generalizada.  Na realidade, enquanto as grandes obras de ficção são escritas, em geral a partir da maturidade, há casos de poetas muito jovens com obras notáveis – o caso de Jean-Arthur Rimbaud é o mais referido. Um adolescente com 16 anos escreveu uma obra, pequena em extensão, mas que século e meio depois ainda nos surpreende pela audácia e pelo intenso fulgor das imagens.

Numa carta, Rimbaud explica como obteve transcendência poética e poder visionário –  terá sido através do “longo, imenso e sensato desregramento de todos os sentidos.”A sua obra foi criada num estado de alucinação – o «desregramento dos sentidos – álcool, drogas, sexo, em doses desmedidas, terá contribuído para proporcionar em meses uma intensa experiência de vida. A ligação homossexual com Verlaine acabou mal, com este a tentar matar o rapaz, desfechando-lhe dois tiros que feriram Rimbaud superficialmente. Para convalescer, voltou a casa de sua mãe, em Charleville, nas Ardenas, e completou Une saison en enfer.

A tradução óbvia seria Uma estação, Uma temporada, Uma época no inferno. A primeira tradução portuguesa foi a de Mário Cesariny de Vasconcelos, em 1960, com o título de Uma Época no Inferno. Depois, lançou nova edição – Iluminações – Uma Cerveja no Inferno. Cesariny tinha a convicção de que Saison se referia à marca de cerveja belga que se vendia nas Ardenas – algo como “Uma Sagres, ou uma Super Bock, no Inferno”. Após ter escrito as Illuminations,  deixou de escrever, suscitando várias interpretações – há quem pense que tinha como objectivo enriquecer depressa  para poder voltar a escrever sem se preocupar com a subsistência. Em 1876, com 22 anos, alistou-se como voluntário no Exército Colonial Holandês indo para Java, na actual Indonésia. Desertou pouco depois, regressando a França clandestinamente. Em 1878 vamos encontrá-lo em Lanarca, na ilha de Chipre onde trabalhou como capataz numa pedreira. Adoeceu, contraindo febre tifóide, e voltou a França. Em 1880 chegou a Aden, no actual Iémen, onde obteve um lugar de responsável pelo escritório da companhia Pierre Bardey. Em 1884, com 30 anos, demitiu-se da Bardey e tornou-se mercador em Harare, na Abissínia (Etiópia). Embora negociasse outras mercadorias, o fulcro do negócio era o tráfico de armas. Tudo corria bem, quando um cancro no joelho direito o obrigou a voltar a França onde em Marselha lhe amputaram a perna. Morreu em 1891, apenas com 37 anos.

O Ladrão de Fogo, o Príncipe Poeta, como se auto-designou, transformou-se num traficante de armas que nada tinha a ver com o jovem que passou uma temporada no Inferno ou, segundo Cesariny, ali desceu, apenas para beber uma cerveja. Pessoa e O´Neill pouparam-se à descida aos infernos, mas viveram no Purgatório, traduzindo cartas comerciais ou encontrando frases para vender colchões ou berbequins. Aceitando como moeda válida o mito, é como se Prometeu arrostasse com a ira de Zeus e de todo o Olimpo para roubar o fogo sagrado e depois o usasse para acender um cigarro ou para estrelar um ovo.

Voltamos ao princípio – esta sociedade deixa liberdade ao poeta para fazer o que quiser. Incluindo a liberdade de não poder exercer a sua arte. Como é minha convicção, a arte constitui o principal traço distintivo entre seres humanos e animais. Ao desprezar a arte, ao transformá-la em mercadoria, em produto comercial, o capitalismo coloca mais longe o objectivo de superarmos a condição animal.

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