EDITORIAL – A EUROPA MERGULHADA NAS SUAS CONTRADIÇÕES

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A Europa tem-se apresentado ao mundo, desde o século XIX, como a fortaleza da civilização. Tem sido apontada como um exemplo a seguir, pelos sucessos alcançados nas artes, na democracia, no progresso, no bem-estar. Os horrores das duas Guerras Mundiais, o nazismo, a crise social e económica mancharam a imagem deste velho continente, mas não a apagaram. O seu fascínio continua a sentir-se por esse mundo fora. Só assim se explica que tanta gente continue a procurá-la.  Que apesar das catástrofes humanitárias no Mediterrâneo e noutros pontos, que tantas vidas têm custado, não se assustem os potenciais imigrantes. É verdade que estes são apenas uma fracção de todos os que procuram chegar aqui, mas constituem uma realidade demasiado chocante, que tem de ser tida em conta por todos os que procuram uma vida melhor deste lado.

Entretanto, tenhamos presente que para o ano há eleições no Parlamento Europeu (PE). É verdade que este órgão pesa pouco no conjunto da máquina que governa a União Europeia. Muita gente tem apontado o facto, e reclamado inclusive que se reforcem os poderes do PE para contrabalançar e mesmo substituir os órgãos não eleitos. Contudo, os progressos neste capítulo têm sido poucos, quase nenhuns.

Mas há pior. As eleições para o PE têm habitualmente uma taxa de abstenção elevada, e servem muitas vezes mais para exprimir um voto de protesto contra as políticas internas de cada país do que propriamente para mostrar o que pensam os eleitores sobre as políticas desenvolvidas ao nível europeu. E as sondagens, que constituem uma indústria que veio para ficar, informam que os chamados partidos populistas, que se incluem no que se chama a extrema direita estão em franco crescimento. Em França indicam que, se as eleições fossem agora, a Frente Nacional de Marine Le Pen seria o partido mais votado.

A crise económica e social e o peso excessivo da Alemanha no conjunto, com efeitos agravados pela incapacidade francesa e pelo espírito dúplice que tem dominado a política do Reino Unido, pela situação dos países chamados periféricos, têm provocado um distanciamento dos cidadãos europeus (será que esta designação tem razão de ser?) em relação ao funcionamento da União Europeia, e mais significativamente ainda, em relação à própria ideia de uma Europa unida.

Entretanto a questão dos imigrantes agrava-se. É preciso não esquecer as condições em que se encontram os seus países de origem, e as expectativas que lhes são criadas de empregos e de oportunidades no outro lado do túnel. E que o Velho Continente, a começar pela Alemanha, tem uma população cada vez mais envelhecida, e que a mão de obra clandestina tem tido um papel importante no crescimento de vários sectores da economia. O desemprego galopante tem contribuído para que se fale menos deste último aspecto, mas o facto é que a mão de obra clandestina tem procura. Na economia paralela, é verdade, mas esta parece estar em grande crescimento por todo o lado. Aliás, a pressão no sentido da precarização do trabalho tem os mesmos vectores que a preferência pelo trabalho clandestino.

Temos assim, o continente da civilização que vê subir no seu seio  a cotação de forças políticas extremistas que preconizam o ódio ao estrangeiro. E os refugiados que não param de procurar um sítio melhor para as suas vidas, expondo-se a situações atrozes antes de chegarem ao destino, e igualmente depois de chegarem. Os nossos políticos não podem ser deixados sozinhos a decidir e a executar. Aliás está a chegar a hora de optar. Se os europeus não quiserem regressar definitivamente à barbárie têm de optar já. O tempo escasseia. Os corredores humanitários propostos por Cécile Kyenge, a ministra italiana da integração, caso fossem aprovados constituíram apenas um pequeno passo, mas mesmo assim parece que os líderes europeus não os querem. Qual será o caminho que vão escolher? Aventuras militares? Já não era a primeira vez. Lembram-se das campanhas de Mussolini na Abissínia, em 1935? Causaram um número incrível de mortes, mas calaram a opinião pública da altura.

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