UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (10)

MEMÓRIAS

Há comentários que fazem despertar em nós certas lembranças, escondidas em gavetas e fechadas à chave nos confins das nossas memórias. Assim foi o que me aconteceu aqui há atrasado, com um comentário à minha carta nº 9.

As memórias que guardo da minha pré-adolescência, adolescência e de jovem adulto, no que respeitam à vida familiar, estão muito esbatidas. Com frequência ouço a minha irmã, um ou outro primo ou tio falarem de vivências de que tenho total desconhecimento. Na realidade, no período que medeia entre os meus onze anos e os vinte e três, estive muito tempo afastado de casa. Nesses doze anos, estive um a viver em casa de uns tios, três a viver num colégio interno, e outros quase três na tropa, sendo que um, de entre estes, foi passado num Hospital Militar, fruto de um acidente de viação. Vinha a casa nos fins de semana, Sábados de tarde e Domingos, na quase totalidade do tempo, mas, não era a mesma coisa. Quase tudo me passava ao lado.

Guardo no entanto, bem vivas na minha memória, algumas passagens anteriores a este período.

Dentro das que mais e melhor me lembro, muitas têm a ver com o meu avozinho. O meu avô materno, que também era meu padrinho, com quem eu ainda hoje “converso” diariamente  e a quem sempre tratei por avozinho Vieira, viveu a espaços em minha casa, mês sim mês não, três meses sim três meses não, e, antes de ele ter partido uma perna, dormíamos no mesmo quarto e na mesma cama. Ele quase com setenta anos e eu que ainda não tinha dez. Lembro-me de, no tempo frio (só havia aquecimento durante o dia com um aquecedor que só se ligava a espaços, algumas vezes ao jantar havia uma braseira, e só muito raramente se aquecia a casa, sendo preciso para que tal acontecesse que estivesse realmente muito frio), não me poder mexer na cama para que o ar gelado não entrasse para dentro dos lençóis, e de ter aprendido a adormecer esticado para mais rapidamente aquecer o corpo e a cama. Isto apesar de termos, cada um de nós, a sua botija de água quente, ainda das de grés e envolta num saco de pano, que servira para nos aquecer o pijama de flanela e o meio da cama, e depois nos aquecia os pés. Ainda hoje assim o faço, o adormecer esticado no tempo frio, sempre com resultados excelentes!

O meu avozinho conhecia todas as ruas e ruelas e becos e lugares e espaços do Porto. Conhecia a cidade de uma ponta à outra, e todas as noites me ensinava um nome de um lugar novo ou uma nova rua, a sua localização e algumas vezes a sua história ou estórias lá passadas. Tudo durante uma meia brincadeira que eu adorava.

– Zézinho, onde fica a Travessa do Campo do Paiva?

– Não sei, avozinho!

– Olha Zézinho, a travessa do Campo do Paiva, fica ali para os lados do Jardim da Rainha D. Amélia. É uma rua sem saída junto à rua de St. Isidro, por trás da Igreja de S. Crispim, sabes? (Eu não sabia, mas abanava a cabeça em sinal de assentimento e ouvia interessado e atento, procurando decorar tudo o que me dizia).

E o meu avô, sem se interromper

– Vivia lá a viúva do sr. Antero Augusto que tinha trabalhado nos SMAS e que eu conhecia do tempo da Guerra (referia-se à primeira Grande Guerra onde tinha sido combatente na Flandres e sido feito prisioneiro pelos Alemães), e que tinha dois cães pequeninos e um gato enorme. (E lá se espraiava o meu avô numa estória fantástica e deliciosa que durava até eu adormecer, pouco tempo depois, tonto de sono).

Às vezes era eu quem lhe perguntava onde ficava uma rua que eu tinha descoberto, e nunca, a não ser uma vez, o meu avozinho deixou de saber onde ficava. E isso porque eu fui malandro e lhe perguntei por uma rua acabada de ser inaugurada e que eu tinha descoberto por acaso quando fora a uma festa de anos de um amigo do Liceu.

Data desse maravilhoso e saudoso tempo, o gosto que ainda hoje tenho pelos nomes das ruas e pelas suas histórias, pelos recantos e pelos jardins e pelos miradouros da minha cidade.

Em comum, a Igreja de S. Crispim e o Jardim da Praça da Rainha D. Amélia e a Rua de St. Isidro, têm a Rua de Santos Pousada.

Jardim Rainha D. Amélia

Jardim Rainha D. Amélia

A Praça da Rainha D. Amélia (Rainha de Portugal de 1889 a 1908, pelo casamento com o Senhor D. Carlos, Rei de Portugal), que em tempos se chamou Largo do Chitreiro e mais tarde Largo da Póvoa, tem um jardim, pequeno e razoavelmente arranjado, pouco arborizado, ajardinado com relva, flores sazonais e canteiros, é agradável à vista mas funciona mais como ponto de passagem do que como espaço de lazer.

Igreja de S. Crispim

Igreja de S. Crispim

A Igreja de S. Crispim, foi construída em 1878 para substituir a que à altura tinha sido destruída e que se situava desde o Século XIV na Rua das Congostas (actual Mouzinho da Silveira), para a abertura desta rua.

Descendo a rua de Santos Pousada, que já foi chamada de S. Jerónimo, em direcção ao centro da cidade, encontramos, logo ali à nossa direita o Monte Tadeu, que é só a zona mais alta da cidade do Porto.

Jardim Paulo Vallada

Jardim Paulo Vallada

Mais abaixo, e à nossa esquerda, temos o Jardim Paulo Vallada, um dos mais queridos Presidentes da Câmara que a cidade teve, falecido em 2006/06/09 e que se distinguiu nas áreas empresarial e do associativismo.

Jardim do Moreda

Jardim do Moreda

Continuando a descer, e à nossa direita, encontramos o Jardim do Moreda, pequeno jardim, pouco arborizado onde se encontra o Monumento ao Viajante Profissional de Vendas.

E no fim da rua, antes do cruzamento com a rua de Fernandes Tomás e à esquerda de quem desce, um terreno maltratado que já pertencerá ao Campo 24 de Agosto. Nesse terreno, onde em tempos estacionava um circo e que hoje é pasto de pó e lama, é agora um parque para estacionamento automóvel, de indiscutível mau gosto e amanho, onde param, pagando, camionetas de carreira e automóveis particulares.

*****

 

– E o Monte Tadeu, Zézinho, sabes onde fica? Esta é fácil!

– Não sei, avozinho, onde fica?

– O Monte Tadeu, Zézinho, é a parte mais alta da cidade e fica …

*****

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E POR CÁ, VAI HAVENDO:

Teatro Sá da Bandeira

No dia 22 de Novembro, às 22h. Um espectáculo de comédia de improviso que está de volta ao Porto! Oportunidade única de (re)ver uma hilariante comédia.

OS IMPROVÁVEIS andam correr o país em digressão, em parceria com o humorista Ricardo Vilão. Comédia de Improviso e Stand-up comedy numa mistura surpreendente de grandes momentos de humor, num espectáculo hilariante, único e irrepetível!

Edifício AXA

Já foi ao Edifício AXA, na Avenida dos Aliados? Não deixe de ir e ficar a par de todos os eventos que por lá se realizam. Ontem foi o regresso das Quartas Malditas (#1avenida #quartasmalditas #porto #baixa #poesia)

E hoje, e amanhã, o que haverá? Vá lá ver! (https://www.facebook.com/1aAvenida/app_208195102528120)

Casa da Música

Flauta Mágica, pela Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música, no Sábado 9 Novembro às 18h na Sala Suggia.

Não falte!

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About José Magalhães

Escrevo e fotografo pelo imenso prazer que daí tiro

8 comments

  1. Antonio Vaz Serra Pacheco

    Delicioso.

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  2. João Menéres

    Não conhecia o seu blog.
    Fiquei ( e estou ) maravilhado !
    Hoje não dá para mais, mas vou lê-lo todo !
    Não é preciso dizer mais nada, pois não ?

    Um abraço muito grato.

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  3. Já o tenho nos blogues que sigo !

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  4. Não conhecia o seu blog.
    Fiquei ( e estou ) maravilhado !
    Hoje não dá para mais, mas vou lê-lo todo !
    Não é preciso dizer mais nada, pois não ?
    NOTA COMPLEMENTAR : Já o tenho nos blogues que sigo !

    Um abraço muito grato.

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  5. vera maria azevedo olriveira

    Adorei sua s lembranças que me trouxeram saudades de meu avozinho e de minha infância em Vila Chã. Aos 14 anos meus pais vieram para o Brazil e assim nunca mais vi meu avõ.Ele era a paixão de todos os netos mas eu era a neta mais velha e vibrava com as histórias que me contava . A nossa despedida foi muito triste pois sabiamos que nunca nos veriamos..

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