UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (15)

Maria Luísa e o Parque de São Roque

Tinha nascido há quarenta anos, exactamente naquele dia, 8 de Dezembro, dia da Mãe. Para ela foi sempre esse o dia da Mãe e nunca aceitou o outro que mais tarde foi imposto.

Não lhe tinha sido fácil, a vida, até então. E como ela, com a vida demasiadamente difícil, havia muita gente, à tonelada, na cidade.

Com o olhar perdido, olhava as pessoas que, do outro lado do vidro, passavam apressadas.

Era o dia do seu aniversário e tinha decidido dar-se uma prenda. Tinha ido almoçar fora. Escolhera um café-restaurante, baratito, mas que tinha fama de servir bem. Chegara cedo, pouco depois do meio-dia, ainda não estava lá ninguém para almoçar. Escolheu uma mesa junto à janela, num dos cantos do restaurante. Dali poderia ver tudo. A rua e as pessoas que chegassem.

Maria Luísa sentia-se calma e satisfeita. Há mais de, nem ela sabia quanto tempo, que não lhe serviam de comer. Fora ela, sempre, toda a vida, quem servira os outros. Excepto quando o pai, que Deus tem, a levara ao café do senhor Joaquim para almoçar, no dia em que ela saíra de casa para ir viver com o João, apesar de ele não trabalhar e as contas terem de ser pagas só por ela. Mas nem se queria lembrar desse tempo. Já passara há muito. Hoje era uma mulher diferente, e o João há muito que se fora.

Ilha típica do Porto - Fotog Internet

Ilha típica do Porto – Fotog Internet

Luísa tinha nascido numa ilha, das muitas ilhas camarárias que existiam no Porto. Hoje dizem que já só há uma, pertença da Câmara, mas particulares, ainda há muitas, demais. Os pais, que sempre trabalharam muito, ele, que tinha sido jardineiro, serviu de guia, e ela, que fora costureira, trabalhara a dias. Já ambos tinham partido desta vida.

Luísa era a filha mais velha de quatro que eles tiveram, e a única rapariga.

Vidas tristes e difíceis, as deles. Uma vida de trabalho mal remunerado. Mas eram águas passadas, já quase não se lembrava disso. E então hoje, nem queria pensar em coisas tristes. Afinal fazia quarenta anos. Era uma data importante!

Mas é impossível fugir dos pensamentos quando as lembranças nos batem à porta.

Ali estava ela, sozinha, com o olhar perdido e com as imagens de uma vida a teimarem em não ir embora.

A ilha onde nascera e onde vivera até muito depois dos vinte anos ficava ali perto, no Monte Aventino, mesmo ao lado do parque de S. Roque. Já não existia. Agora era um prédio de apartamentos. Mas ela tivera sorte, a Câmara construíra uns prédios ali mais abaixo, nem a duzentos metros de distância, e realojara muita gente, vindos de muitas outras ilhas. Ela e os pais e na altura também os irmãos, mudaram-se para lá. Para um quinto andar. Que maravilha! Que vistas lindas sobre o parque,  a cidade, o rio, e a outra margem. Não se cansava de ir até à janela da sala e perder os olhos naquela lindeza. E tinham casa de banho e cozinha, e água quente, e tudo! Coisas que na casa antiga não tinham. A casa não era muito pequena, mas eles eram muitos e viviam encavalitados uns nos outros. Mas não fazia mal! O João, que era o desejado pai dos seus futuros filhos, também queria ter ido para lá, mas não cabia. Ficara em casa dos pais dele. Dois anos mais tarde, João arranjou um apartamento em Ermesinde e Luísa foi para lá com ele. E daí  uma vida ainda mais difícil, sem amigos, sem filhos, sem a vista linda que já tivera, numa rua feia e escura, mas com  o João sempre presente e sempre sem trabalho. Até que não aguentou mais o facto de ele não se emendar, e deixou-o, regressando a casa da mãe, já depois da morte do pai.

-Já lá vão dois anos!

Calou-se, reparando que tinha falado alto, olhando para todos os lados. Ninguém reparara, e o coração que começara a bater forte, acalmou.

Já tinha comido a refeição toda. Pediu um café e a conta, pagou e saiu.

Vagueou pelas ruas em direção a casa e ao passar pelo portão da quinta da Lameira, hoje conhecida como parque de São Roque, entrou. Já há muito tempo que ali não ia. Quando era pequenina ia para lá brincar. O pai levava-a. Teria ela talvez dez ou doze anos e o parque era ainda recente, como parque público. Entravam sempre por aquele portão, do lado do Monte Aventino. Ficava mesmo ali  à beira de casa. Muito gostava ela de correr por aquelas avenidas cheias de árvores, olhar o lago e ver os patos, descer até ao jardim da casa senhorial, e brincar na gruta e tudo o mais. Mais tarde, já mulher, e enquanto vivia em Ermesinde, também ia até lá com o pai, aos Domingos em que nem ela nem ele trabalhavam. e ouvia-o dissertar sobre o parque, como se ela fosse uma turista. Olhou para o parque, e ficou triste com o que estava a ver. Parecia triste, abandonado, como se tivesse vida própria e sentimentos, e estivesse a sofrer.

Lembrou-se do pai e de como ele lhe tinha contado a história do parque.

Parque-de-São-Roque-960xEm 1979, poucos anos antes de ela lá ter ido pela primeira vez, a CMPorto comprara a quinta à família Cálem. A abertura deste jardim ao público fez-se em 20 de Julho desse ano. Os jardins ostentam, ainda, elementos muito em voga no princípio e meados do século passado tais como frutas, minarete, sebes, repuxos, fogaréus, etc.

Algumas fontes e esculturas foram na altura colocadas pela Câmara Municipal do Porto, no jardim do parque, e foi ainda reconstruída uma capela até então existente no Largo Actor Dias, assim como o labirinto de Buxo,  onde ela adorava esconder-se, e o pai, colocado num plano superior, se mostrava aflito e a fingia perdida.

O arranjo do parque é em patamares (era assim que o pai dizia, com a sabedoria de muitos anos de trabalho como jardineiro e guia turístico), com um ambiente característico dum jardim romântico, com recantos, um chafariz em ferro forjado, um lago, zonas mais sombrias, um miradouro circular, um lago em gruta. Também tem pequenas construções graníticas, que nos tempos muito antigos foram casas de trabalho. Na zona superior tem uma mata de eucaliptos frondosa e fresca e largas avenidas. Das árvores que se podem encontrar no parque, destacam-se para além dos eucaliptos, os loureiros, os alfenheiros e os sobreiros, os carvalhos, as acácias, os bordos e as japoneiras. A grande predominância de árvores de folha perene e de camélias torna este espaço muito atraente em qualquer estação do ano. A meio do parque e numa clareira, um miradouro permite uma excelente vista sobre o Freixo e o rio Douro (as lágrimas assomaram os seus olhos, grandes e castanhos, já que lhe parecia ouvir a voz do pai).

Os seus patamares vão desde a Travessa das Antas, onde também tem uma entrada, até á Rua de São Roque da Lameira, local onde fica a antiga casa amarela, datada de 1792.

Nesta casa apalaçada, que o pai de Luísa não se cansava de admirar, funcionou em tempos o Gabinete de Planeamento Urbanístico da Câmara Municipal do Porto. No seu interior dizem que ainda se pode observar algum do espólio original. Destacam-se os tectos ricamente decorados, as portas, o espelho da entrada, etc. Merecem realce, também, alguns frisos de azulejaria e a cantaria no rebordo das telhas.

A casa encontra-se extremamente degradada e num triste estado de abandono, o que em nada abona em favor dos serviços da CMPorto e do, até há muito pouco tempo, seu responsável máximo.

Foi um dos mais belos jardins do Porto. Quatro hectares murados, resguardados, ajardinados. Um local verdadeiramente aprazível e de eleição!

Luísa ainda se lembra bem do parque infantil, hoje desmantelado, da cafetaria onde tomava uma vez ou outra um copo de leite, do circuito de manutenção onde o pai gostava de correr, e da Feira de Artes. Hoje já nada há, estando tudo quase ao abandono, com a excepção de uns quantos jardineiros que por lá andam a limpar as folhas caídas.

São-Roque---vista-do-parque-960xEsta zona Oriental da cidade, há muito votada ao desleixo, e que também compreende a Praça da Corujeira, local aprazível e no mais completo abandono, onde os serviços camarários nem se dignam sequer limpar as folhas secas deste outono, merece um tratamento melhor por parte deste novo executivo. O novo Presidente da Câmara prometeu olhar com olhos diferentes para Campanhã. Esperemos para ver. A Maria Luísa e todas as outras Marias, e Luísas, e Rosas e Marianas etc., e os habitantes da cidade, em geral, agradecem.

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E POR CÁ

Apresentação do livro de fotografia “Via Somnium” na Casa da Música

VIA SOMNIUM

Urban Market na Praça das Cardosas

PRAÇA DAS CARDOSAS, À NOITE,  NO NATAL

PRAÇA DAS CARDOSAS, À NOITE, NO NATAL

DSC04677-960x DSC04681-960xA NÃO PERDER MAIS ESTA SESSÃO DO URBAN MARKET NOS DIAS 14 e 15 de DEZEMBRO

urban

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About José Magalhães

Escrevo e fotografo pelo imenso prazer que daí tiro

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