UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (18)

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O DIA DE REIS

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Mudou o ano. O calendário assim o diz, o aumento dos preços dos bens e dos serviços assim o dizem, os votos de felicidade para o novo ano assim o disseram, as festas e o champanhe e a alegria (quantas vezes forçada) assim o mostraram. O Natal e o seu consumismo e a sua alegria e a sua bondade e a sua compreensão e a sua concórdia, já lá vão, longe, embora o consumismo se tenha mantido até hoje, a alegria tenha desaparecido no dia 1 de Janeiro e a bondade e a compreensão e a concórdia nunca tenha existido realmente.

Agora, estamos à porta do Dia de Reis, o que para muitos diz nada ou muito pouco.

Fotog. Internet

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O dia de Reis comemora-se no dia 6 de Janeiro.

Este dia assinala a data em que os três Reis Magos (Gaspar, Belchior e Baltazar) foram visitar Maria e José e dar oferendas ao Menino Jesus. Deram-lhe ouro, incenso e mirra.

Em alguns países, especialmente nos países hispânicos, é tradição dar as prendas (de Natal) às crianças neste dia.

Em Portugal, diz a tradição, come-se bolo-rei e as crianças representam a história dos Reis Magos, e a quem sair a fava do Bolo Rei deve pagar o bolo no ano seguinte (todos os bolos-rei tinham um brinde e uma fava no seu interior, tradição já quase esquecida). Grupos de pessoas vão pelas portas das casas da terra onde vivem Cantar os Reis, que são canções tradicionais da vida de Jesus e de saudação à família e aos donos da cada uma das casas por onde param a cantar. O canto é acompanhado por instrumentos populares como o reco-reco, os ferrinhos, o bombo, o acordeão e a viola. Depois de cantarem, é costume os donos da casa convidarem os cantadores a entrar e oferecerem-lhes comida e bebida, sempre pouco da primeira e mais da segunda. O Cantar de Reis começa no dia 5 de Janeiro e vai até ao dia 20. Quinze dias a entrar e a sair das casas, a cantar e a beber com alguma abundância e a comer parcamente. Alturas havia em que já nem das letras ou mesmo das músicas os cantantes se lembravam.

Fot. Internet

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Há ainda outra tradição, esta que se cumpre antes do Dia de Reis, as Janeiras, em que se cantam canções em grupos.

Vamos cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas solteiras

Vamos cantar orvalhadas
Vamos cantar orvalhadas
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas casadas …

 

Este ano, em parceria com a Casa da Música, o NorteShopping recebe, no dia 4 de Janeiro de 2014, um concerto da Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música para celebrar a entrada no Novo Ano e a Chegada do Dia de Reis.

O Concerto de Reis terá lugar na Praça da Indústria do NorteShopping e divide-se em três momentos: o primeiro terá início às 18 horas, o segundo às 18h30m e o último às 19 horas. De acordo com a programação, a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música “brinda o Novo Ano com uma viagem que remete para o agitado e colorido porto de Portsmouth, em Inglaterra, até ao encontro com uma princesa japonesa, com paragem obrigatória nas exóticas e misteriosas localidades do Médio Oriente. Navegando pelas afamadas valsas e marchas de Johann Strauss II, nome indissociável dos concertos de Ano Novo, o programa proporciona um fim de tarde festivo com trechos favoritos desta celebração tão tradicional”. A direcção musical é da responsabilidade do Maestro Martin André.

A cidade vai ter também um Cortejo de Reis (segundo o site da Câmara, “de novo”, não tendo eu conseguido apurar quando teve lugar algum outro).

A iniciativa terá lugar no dia 8 de Janeiro, pelas 4 horas da tarde, partindo da Cordoaria, em frente à antiga Cadeia da Relação, e terminando na Avenida dos Aliados, e terá como promotores o Clube Fenianos Portuenses, a Federação das Colectividades do Distrito do Porto, a Rádio Festival, o Governo Civil e a Câmara Municipal do Porto. O cortejo deverá contar com cerca de um milhar de participantes e deverá demorar cerca de duas horas. Durante o cortejo, serão atirados brindes e guloseimas aos espectadores. Decorrerão ainda, diversas animações protagonizadas por bandas de música, grupos de Janeiras, bombeiros, clube de motards, escolas de equitação e viaturas antigas dos S.T.C.P.

Apesar de ter vivido, participado e brincado, durante muitos anos, em todas aquelas manifestações tradicionais, nos meus tempos de ganapo e mais tarde de adolescente, a noite de 5 de Janeiro era uma perfeita e completa chatice.

Meu pai, não dispensava ao jantar, o bacalhau, as batatas, as couves tronchudas e o polvo, cozidos, e o vinho tinto (que eu não podia beber devido à idade, só a água me era permitida) e o pão e os doces (que eu detestava) e mais nada! Em tudo igualzinho aos jantares do dia 24 e do dia 31 de Dezembro que se faziam lá em casa. Chamavam-lhes a consoada de Natal, de Fim de Ano e de Reis. O problema consistia em que, tal como a consoada do dia 31, não havia as prendas do Menino Jesus no sapatinho, e ao contrário desta e da do dia 24, não me lembro que, na altura, fosse feriado no dia seguinte.

Era, como disse, uma chatice (termo que na altura se não podia dizer, que era feio, usando-se ao invés a palavra aborrecimento, muito mais suave e que a meu ver não traduzia devidamente a real chatice que tudo aquilo era).

Se ainda, ao menos, fossemos Espanhóis – que eles tinham as prendas de Natal, nos Reis, e as nossas já há muito estavam estragadas ou nós cansados de brincar com elas pois que nessa época era só uma prendita para cada um – vi-me eu a dizer uma ou outra vez, sem saber, como é evidente, o que dizia, que isto na altura era complicado com a peseta a valer metade do escudo, e os maus ventos que se dizia que de lá vinham, e os maus casamentos e tudo.

Mais tarde, quando eu e os meus primos começamos a casar e nos fomos dividindo pela casa dos avós e pela casa dos pais e avós dos/as nossos/as consortes, ano sim num lado, ano não no outro, e quase nunca era possível encontrarmo-nos, e eu me cansei de toda a situação, decidi reinventar o meu dia de Reis. Assim consegui reunir nesse dia, em minha casa, toda a família de sempre e mais os que ao longo dos anos se foram juntando por via do casamento ou por nascimento. E era uma enorme e maravilhosa festa anual. No terceiro ano em que fiz a festa, decidi juntar aos familiares, alguns amigos, poucos, que no dia-a-dia se tinham mostrado mais família que alguma da minha família. E a festa aumentou. Chegamos ao lindo número de setenta e cinco pessoas presentes em minha casa. E a festa engrandeceu, e nesses dias, os arrufos, as desavenças, as chatices, e fosse o que fosse de menos bom, desapareciam. Tudo quase como antigamente nos dias de Natal em casa de meu avô paterno.

E assim foi enquanto a despesa com tal reunião se não tornou incomportável. Depois, acabou! Já lá vão uma boa quantidade de anos. Acabou o meu dia de Reis nesse formato. Foi bom enquanto durou, e a cada passo me falam alguns familiares, com saudade desses anos. Lamentavelmente, os mais novos, os que já chegaram depois do “meu” dia ter acabado, não vão poder usufruir da felicidade que era ter tanta gente amiga e bem amada, junta.

Hoje, na nossa sociedade, ninguém se importa com tais reuniões. Vive-se de uma maneira mais fria, cada um para o seu lado, em suas casas, na esperança de que ninguém os incomode, bastando-lhes o sacrifício de haver uma vez por ano essas reuniões que custam um dinheirão, e que normalmente se realizam na véspera e no dia de  Natal.

Só alguns mais velhos e saudosos vão mantendo essa maneira de viver, essas festas de família, que serviam em muito para um crescimento são, dos nossos filhos e sobrinhos.

O meu dia de Reis, era, esse sim, o meu Natal anual, a minha maneira de, de novo, ter a alegria de estar com os meus, e a minha maneira de ensinar aos mais novos o que uma família deve ser.

E se neste ano de 2014, decidíssemos reavivar e reviver todas as tradições próprias destes dias?

Nas cidades e vilas mais pequenas ainda se cumprem essas tradições. Porque não nas cidades grandes e nas nossas casas?

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A CAPELA DOS TRÊS REIS MAGOS

No antigo palacete que, até 1915, serviu como Câmara Municipal do Porto, existia uma capela privada para uso das gentes da casa mas com abertura para a rua. Esta capela foi demolida para a abertura da Avenida dos Aliados. Situava-se aproximadamente onde actualmente começa a faixa de rodagem ascendente da mesma avenida. 
As pedras desta capela foram compradas e depois de devidamente numeradas, viajaram de comboio até Cantanhede, rumando depois para a Pocariça (uma freguesia daquele concelho), onde a capela foi reedificada e actualmente pode ser admirada.

Na Pocariça, a capela é conhecida como Capela de S. Tomé. No Porto, era a capela dos Reis Magos, ou dos Três Reis Magos.

A história desta viagem do Porto para a Pocariça, está descrita no livro “A freguesia da Pocariça do Concelho de Cantanhede – Apontamentos para a sua Historia”. 1939 (réed. 1997), de Viriato de Sá Fragoso.

Feliz Dia de Reis para todos!

Fot. Internet

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About José Magalhães

Escrevo e fotografo pelo imenso prazer que daí tiro

4 comments

  1. Maria de sa

    * Dia de Reis -uma festividade que morreu -Que pena !Maria *

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  2. Albertia Eudora Silva

    Na minha família não morreu, Continuamos com a tradição que já vem sendo mantida ao longo das gerações.Como já faleceram os meus pais estou nesta noite em casa de minha irmã com a restante família.
    Não faltou o tradicional bacalhau e as rabanadas entre outras doçarias da época!
    Obrigada sobre a partilha do texto e da descrição da capela dos Reis.
    Desejo-lhe um feliz ano com muita saúde. Continue com as suas crónicas, meu amigo. São muito apreciadas!
    Beijinhos
    Albertina

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  3. Pingback: UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (18) | joanvergall

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