UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (24)

CARTA DO PORTO

LA PALICE, SÃO VALENTIM E O DIA DOS NAMORADOS

 

dia-de-sao-valentimNos tempos da minha juventude, o dia dos namorados era quando se quisesse, todos os dias se preciso fosse. Não era preciso dizer, fosse a quem fosse, que no dia tal do mês tal, seria de bom tom não esquecer o ser amado. Namorava-se em cada canto e esquina, nos bancos do jardim ou nos da parte de trás do carro, sempre com as vontades à flor da pele, se bem que, na maior parte das vezes, reprimidas pelas convenções da moral vigente. Isso fazia com que, entre outras coisas, a atenção aos pormenores, às datas, às subtilezas das palavras e das posturas corporais, estivesse continuamente alerta.

Local romântico para namorar. Parque da Cidade – Porto

Local romântico para namorar.
Parque da Cidade – Porto

 

Hoje, as vontades também andam à flor da pele, mas quase ninguém as reprime. Faz-se o que apetece quando apetece e seja onde for, fruto de uma banalidade crescente, e quem não estiver bem que se afaste, ou que não olhe. Tudo passou a ser corriqueiro, pelo que se torna necessário avisar as pessoas, com muita insistência, diga-se, não vão elas por acaso, mesmo assim, esquecer-se do dia em que devem dar atenção à pessoa que deveria ser a “amada”.

DSC07827 960xAmanhã, 14 de Fevereiro é o dia consagrado aos namorados. Toca a namorar!

Amanhã é sexta-feira, e não é dia 13, é dia 14.

Sexta-feira dia 14 de Fevereiro do ano de 2014.

Dia de São Valentim.

Um dia especial. Namoremos pois!

Um dia que é de sorte, e por isso não é de azar.

Dia do romance e da imaginação, que podem ou não estar em conjunto, ou não existir de todo. Mas convém dizer que se namora e se dá atenção à nossa metade.

O amor é o melhor sentimento do mundo, se soubermos ser felizes com ele.

O mais importante da vida é a intensidade com que a vivemos, e não a velocidade.

O amor é sempre doce, se não o amargarmos.

É tão bom morrer de amor, e continuar vivendo.

Parece que o amor e o enamoramento só acontecem no dia de São Valentim, já que ninguém sabe namorar nos outros dias.

Carinho com data e hora marcada, não é amor, é castigo.

O dia dos Namorados é uma das alturas mais comerciais de cada ano, juntando-se, em investimento publicitário, ao Natal, à  Passagem do Ano e ao Carnaval, para não falarmos da época das férias de Verão.

Leve a/o namorada/o a jantar, ofereça flores e chocolates, dê uns passeios de barco, vá passar o fim de semana a um local romântico, e descanse, não precisa de fazer nada, as organizações que promovem estes eventos, fazem tudo por si. Qualquer dia nem precisa ir, desde que pague.

 

Tudo verdades inquestionáveis, verdades dignas de Monsieur de La Palice. Nem sei porque me lembrei dele. Mas é tudo tão óbvio, tão estupidamente óbvio que …

 

Mas, porque se diz que estas verdades são dignas deste senhor?

Diz-se assim por causa de um engano provocado por um erro de interpretação em que a história é useira e vezeira.

la palice

Na verdade, o Marechal Jacques de Chabannes, Monsieur de La Palice (1470-1525), cavaleiro Francês, morto em combate em Pavia, em 1525, nada tem a ver com a fama que o fez ser lembrado e conhecido em todo o mundo. Fama tão negativa e secular deve-se a um erro de interpretação.

Jacques de Chabannes era o senhor do Castelo de Chabannes (Maison de …) e vivia na vila de La Palice. Na sua época, este chefe militar celebrizou-se pelas vitórias conseguidas em várias campanhas. Até que um dia, na batalha de Pavia, foi morto em pleno combate. Os soldados que ele comandava, impressionados com a sua valentia, compuseram em honra dele uma canção que rezava assim:

 

“O Senhor de La Palice

Morreu em frente a Pavia;

Momentos antes da sua morte,

Podem crer, inda vivia.”

 

Os autores dos versos quereriam dizer que Jacques de Chabannes pelejara valentemente até ao fim, dito de outra forma, que até “momentos antes da sua morte” ainda lutava.

Mas saiu-lhes um truísmo … azar! Azar, para o bom nome do Senhor do Castelo de Chabannes, claro.

Só no século XVIII se passaram a atribuir a La Palice estes versos, de que, afinal, ele não fora o autor. Assim sendo, fosse qual tivesse sido o intuito da estrofe, a Jacques de Chabannes não poderá ser assacada qualquer culpa.

Mas da fama nunca mais o seu nome se livrará.

 

Quand il ne disait rien,

il observait le silence.

 

Mas, voltando ao dia de S. Valentim e à obrigação de, pelo menos uma vez, darmos a atenção devida a quem a deveria merecer todos os dias.

Quem era o homem, patrono dos enamorados, que deu origem a esta verdadeira “operação comercial” dos dias de hoje, feita para aumentar as vendas estimulando o consumismo?

 

são valentimO São Valentim, de que muitos falam e procuram saber a origem, foi padre durante o Império Romano, na segunda metade do século III, na cidade de Terni, a 75 km de Roma. Este Valentim desafiou as ordens do Imperador Cláudius II, que estava envolvido em diversas campanhas militares consideradas demasiado sangrentas, o que levou a dificuldades na recruta de novos soldados para as legiões romanas.

Claúdio II decidiu, nessa altura, proibir todos os noivados e casamentos, quando percebeu que os rapazes jovens, com receio de abandonarem as suas namoradas, esposas e amantes, não queriam tornar-se soldados. O padre Valentim, que uns dizem ter sido Bispo, não achou graça à ideia e, à revelia das ordens do Imperador, continuou a celebrar casamentos, em segredo, até que foi descoberto e preso. Cláudio II, que gostava muito do padre, ainda tentou salvar a vida de Valentim, exigindo que ele abdicasse da sua religião, mas o padre nunca desistiu de ser cristão e foi por isso, condenado à morte por decapitação. A sentença foi cumprida num dia correspondente a 14 de Fevereiro, no ano de 270.

Alguns relatos referem que São Valentim se apaixonou, na prisão, pela filha do carcereiro, que era cega e o ia visitar com frequência, e que no dia da execução lhe deixou um bilhete dizendo: “Do teu Valentim”.

Outros relatam que São Valentim escrevia cartas a amigos e familiares enquanto esteve preso, a quem pedia que rezassem por ele, assinando “Do teu Valentim”.

Há outra tradição que diz que na idade média se considerava o dia 14 de Fevereiro como o primeiro dia em que, após o Inverno, os pássaros acasalavam, ocasião que os namorados aproveitavam para deixar mensagens de amor  na porta das suas amadas.

Em 498, o Papa Gelasius santificou-o, passando o dia da sua morte a estar oficialmente conotado com os apaixonados. As festividades em honra deste santo foram, pouco a pouco, substituindo as Lupercais, festa pagã da fertilidade celebrada em honra de Juno, deusa da mulher e do matrimônio, que se realizava em meados de Fevereiro.

Com o passar os anos, tudo se foi normalizando. Foi em meados do século XIX, na Inglaterra Vitoriana que, a hoje tradicional troca de cartões de São Valentim, começou a ser uniformizada com escritos que a todos nos são familiares,

 

Roses are red

Violets are blue

Sugar is sweet

And so are you

 

e os cartões e as cartas de São Valentim continuaram até hoje a serem enviados às pessoas amadas como forma de comemorar o Santo que lutou pelo amor e ainda pela religião Cristã.

No entanto, toda a saga do mártir é incerta. Há pelo menos três religiosos com o nome de Valentim, dois deles sepultados em Roma e um terceiro que teria sido morto em África.

A Igreja Católica, em 1969, deixou de celebrar o aniversário do santo por considerar as suas origens – e mesmo a sua existência – incertas, mas o dia de São Valentim continua, em todo o mundo, a ser celebrado. O poder económico tem muita força.

Apesar de haver dúvidas sobre a verdadeira história do mártir, a data que relembra a sua morte consolidou-se durante o período medieval.

No entanto, há partes desta história que quase ninguém conta e que são deveras curiosas. Até meados do século XIX tudo se celebrava de uma maneira muito diferente da que conhecemos hoje.

Ligadas a rituais de fertilidade e renovação da terra que remontam ao período romano, as comemorações do dia de São Valentim eram o momento em que as rígidas condutas morais impostas pela Igreja Católica eram quebradas. Nessas festividades, as mulheres casadas reconquistavam as liberdades do tempo de solteiras e ficavam livres para namoriscar com quem quisessem, podendo até, imagine-se, cometer adultério, com a tolerância dos seus maridos.

Detalhe da obra A dança da noiva ao ar livre, de Pieter Brueghel (1566). A gaita de foles, por ser considerada um instrumento de poderes eróticos, é tocada na festa. A vitalidade e a fecundidade, o desvario, a sensualidade mal reprimida, a alegria incontida e o prazer do amor desregrado são celebradas no ardor da dança.  Brueghel destaca a excitação dos homens.  Os festivais medievais como o de São Valentim eram, como este, espaços de quebra das regras morais.

Detalhe da obra A dança da noiva ao ar livre, de Pieter Brueghel (1566).
A gaita de foles, por ser considerada um instrumento de poderes eróticos, é tocada na festa. A vitalidade e a fecundidade, o desvario, a sensualidade mal reprimida, a alegria incontida e o prazer do amor desregrado são celebradas no ardor da dança.
Brueghel destaca a excitação dos homens.
Os festivais medievais como o de São Valentim eram, como este, espaços de quebra das regras morais.

 

Esse tipo de conduta, que desafiava o sagrado dever da fidelidade, foi duramente combatido pela Igreja, especialmente após o século XVII, durante a chamada Contra-Reforma. Essas tradições mantiveram-se ainda por mais algum tempo em regiões como Turim e Génova, mas a partir do século XX  já haviam desaparecido por completo.

A partir de então, a comemoração do dia de São Valentim abandonou as suas raízes libertinas e tornou-se uma ocasião para as demonstrações de afecto entre casais de todo o planeta.

 

A versão moderna do dia de São Valentim começou por ser festejada em primeiro lugar nos Estados Unidos, e só depois se estendeu aos outros países de língua Inglesa e com o correr do tempo, ao mundo inteiro.

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De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera,
Ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante,
Cujo valor se ignora, lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfange não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma para a eternidade.
Se isso é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.

William Shakespeare

.

E A CIDADE DO PORTO, ESTÁ MAIS UMA VEZ DE PARABÉNS

BEST

FOI, DE NOVO, ELEITA COMO O MELHOR DESTINO EUROPEU

Por causa do seu povo, do seu orgulho, da sua energia, do seu entusiasmo, o Porto nunca perdeu a sua identidade. Por isso ganhou mais uma vez.

Top 10 – European Best Destinations 2014
1 – Porto, Portugal (14,8%)
2 – Zagrebe, Croácia (10,2%)
3 – Viena, Áustria (10,1%)
4 – Nicósia, Chipre (7,3%)
5 – Budapeste, Hungria (7,1%)
6 – Madeira, Portugal (6,9%)
7 – Milão, Itália (6,6%)
8 – Madrid, Espanha (6,4%)
9 – Berlim, Alemanha (6,3%)
10- Roma, Itália (6,1%)

Foram apurados 228.688 votos.

De realçar o 6º lugar conquistado pela Madeira.

About José Magalhães

Escrevo e fotografo pelo imenso prazer que daí tiro

9 comments

  1. Albano Magalhães

    Obrigado caro José Magalhães. Verdadeira delícia este “post”

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  2. Espectacular o que acabo de ler -o que mais me fascinou ,foi o pormenor da narrativa à volta de S.Valentim e Lapalice -interessantìssimo -Quem conhecerá todo este historial? Obrigada Professor pelas recordações de tempos em que o Amor era uma realidade fascinante -Maria

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  3. Albertia Eudora Silva

    Obrigada por esta sua crónica. Gostei da primeira parte sobre o namoro nos tempos idos e em especial da sua narrativa sobre S.Valentim cujas origens e factos relacionados com o actual ” Dia dos namorados” desconhecia. Dou-lhe os parabéns pela linda fotografia do parque da cidade.Gostei muito!
    abraço,
    Eudora.

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  4. jose macedo

    Caro amigo Magalhães mais uma vez a tua narrativa foi surpreendente.
    Um abraço
    J.Macedo

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  5. Pingback: UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (24) | joanvergall

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