FRANÇOIS HOLLANDE, O NECESSÁRIO PIRÓMANO, por YANN

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

François Hollande, le nécessaire pyromane.

http://lebondosage.over-blog.fr/article-fran-ois-hollande-le-necessaire-pyromane-122544673.html

François Hollande

PARTE II
(conclusão)

Romper com o espírito neoliberal

Porque a nossa sociedade é culturalmente neoliberal. Do pequeno proprietário local que vocifera sobre os funcionários preguiçosos, aos inúteis que vivem das rendas que no entanto maldizem estes amaldiçoados pobres e os seus “privilégios”. Este pequenos burgueses que sem parar escondem os seus próprios interesses por detrás de uma acumulação de decências verbais. E que como todos os cosmopolitas procuram ser generosos para com o que está longe para não o serem  face aos que lhes estão próximos. Estes pequenos consumidores egocêntricos que medem apenas o seu sofrimento ao trabalho decorrem directamente da sua maneira de consumir. Estes políticos delirantes que repetem desde há 40 anos as políticas económicas que não funcionam e nunca funcionarão, fazendo ares de lutar contra um desemprego que beneficia efectivamente a sua própria classe social. Todas as pessoas que fazem hoje a França estão submetidas ao mesmo mal, o de um pensamento falso que estipula que a acção colectiva não existe e que só o interesse individual deve ser tomado em consideração. Trata-se de dois séculos de propaganda liberal, hoje neoliberal, de que é necessário desembaraçar o povo francês. É a ideia de que se possa pensar cada coisa independentemente sem estar a ver que realmente as coisas interagem as umas com as outras. Que o destino do trabalhador colocado  no desemprego pelo egoísmo dos que vivem no sector terciário acabará por voltar-se contra os seus beneficiários a curto prazo. Numa palavra, é necessário reaprender a viver um destino comum. Compreender que o interesse geral não é uma vista do espírito, mas uma realidade tangível. Que um povo o tenha durante muito tempo ignorado através de raciocínios do tipo robinsonadas, não pode  senão enfraquece-lo,  como é o caso da França, hoje.

 A Alemanha é o único país a ser capaz de fazer explodir o euro

 pirómano - I

O milagre do desemprego americano é uma truncagem estatística

Mas deixemos de ser ambíguos. A situação actual nada evoluiu. A economia europeia está sempre na tormenta e o equilíbrio precário que se estabelece na aparência nos meios de comunicação social esconde bem mal a acumulação de desequilíbrio na zona euro. Da mesma maneira os pobres dos EUA têm efectivamente dificuldade em esconder a triste realidade macroeconómica que é a deles. As políticas de relançamento da economia não funcionam. E as injecções monetárias do FED transformam-se em inflação dos mercados financeiros sem impacto para a economia real. Se há contudo uma ruptura esta aparece nas estatísticas límpidas de John Williams. O desvio entre a taxa de desemprego real e a oficial nos EUA não cessa de se degradar. A zona Atlântica tenta ainda fazer acreditar que tem ainda um qualquer dinamismo enquanto que no entanto o que ela faz é alargar o espectro da miséria do desemprego e da precariedade. O gigante alemão que acumula os excedentes acumula igualmente o sub-investimento crónico. Poder-se-ia aqui perguntar porque é que o excedente aumenta enquanto que o investimento nacional cai. É em grande parte ligada à organização económica alemã que faz dos países do Leste uma extensão ao seu próprio comércio externo. O excedente alemão é sobretudo o excedente da Polónia, da República Checa e do resto da Europa central. Produz-se na Europa do Leste, monta-se na Alemanha e põe-se uma inscrição Made in Germany em cima e isto quando não é Made by Germany.

pirómano - II

O formidável dinamismo alemão

É esta realidade que explica que, apesar de um excedente comercial enorme, o crescimento alemão é com efeito bastante medíocre. Certamente menos mau do que o crescimento dos países que ela asfixia com o euro, mas crescimento fraco, quer se queira quer não. As elites alemãs, mesmo assim, têm algumas qualidades para nós, são arrogantes, sofrivelmente racistas ainda que este racismo se encontre agasalhado sob toneladas de hipocrisia, e sobretudo acreditam ainda na Alemanha. E o facto é que a Alemanha se pensa como nação acima das outras. Ela não pode imaginar a sua situação menos dramática, ou seja mais devido a um azar que a uma outra coisa. A degradação económica rápida no último país latino solvente, a saber a França deveria por conseguinte fazer reavivar bastante rapidamente as veleidades de independência da grande Alemanha produzindo uma degradação económica pela baixa das exportações.

É aqui que reside a nossa única esperança na explosão a curto prazo da zona euro. Uma explosão que se ela não é a solução absoluta para os nossos problemas poderia pelo menos representar um início de tomada de consciência do malogro da mundialização neoliberal de que a UE foi apenas uma das suas múltiplas facetas.

Não é necessário de toda a maneira pensar que a explosão possa ser produzida voluntariamente pelos nossos políticos liberais. Não há nada a esperar da UMP ou do PS, a não ser mais uma corrida a um maior aviltamento político. Estes dirigentes não acreditam nem na existência da França, nem mesmo na existência de um qualquer interesse geral. Mas não se trata de modo algum de traição como já o pude ler algures, eles são simplesmente totalmente neoliberais. Para eles a sociedade não existe, os países não existem, as fronteiras não existem, não há por conseguinte nada a salvar, a não ser a sua própria pele. Vista curta e ausência de pensamento colectivo são as únicas explicações racionais para a estupidez crassa dos líderes franceses e do bombeiro pirómano que nos serve de presidente. Não há nada a esperar deles a não ser uma acumulação de erros que acabará por ser fatal.

François Hollande, le nécessaire pyromane. Texto disponível no site : http://lebondosage.over-blog.fr/ , cujo endereço é:

http://lebondosage.over-blog.fr/article-fran-ois-hollande-le-necessaire-pyromane-122544673.html

PS. Às pessoas em geral, e em particular às que estão interessadas em perceber a crise, sobretudo os economistas não  neoliberais,  eis pois um site que francamente vos aconselho.

Júlio Marques Mota

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Para ler a Parte I de François Hollande, o necessário pirómano, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

FRANÇOIS HOLLANDE, O NECESSÁRIO PIRÓMANO, por YANN

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