BRASILEIROS, ABAIXO O CAMPEONATO DO MUNDO DA FIFA, de JÉRÔME LATTA

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Commons Wikipedia
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Brasileiros, abaixo o Campeonato do Mundo da FIFA

Jérôme Latta, Le Monde, 11 de Junho de 2014

Brésiliens, renversez la Coupe du monde

 

Suscitando algum escândalo, o presidente da UEFA Michel Platini, candidato à presidência da FIFA tinha pois, há  cerca de algumas semanas, apelado aos Brasileiros para se “ acalmarem” e “esperarem  um mês” antes de reivindicarem, reinterpretando  à sua maneira a noção de trégua olímpica. A irritação do líder traía certamente tanto a sua inconcebível desenvoltura  como  o temor dos seus  pares de ver o seu “acontecimento”  estragado . No entanto, que temem eles? A probabilidade de uma situação tão  insurreccional  que comprometeria o desenrolar do torneio permanece até agora improvável: se têm medo  é evidentemente por eles mesmos.

 Fifa, go home

A FIFA numa situação insustentável

Nos dias que precedem um campeonato do mundo é habitual interrogarmo-nos  sobre as forças em presença, sobre os potenciais vencedores, sobre os jogadores que o torneio poderá vir a glorificar. Desta vez a incerteza incide  também sobre o comportamento do acontecimento ele próprio, sobre o que se vai passar  em redor dele – para lá do recinto dos estádios e das  “ fanzones”. Eis-nos pois  na  véspera do Mundial mais incerto  da história, e não por razões desportivas. Porque se a mobilização é menos massiva  que no ano passado, a efervescência social parece ter-se intensificado com a aproximação do acontecimento: manifestações, greves, ocupações, acções virais.

A hipermediatização do Mundial torna mais imprevisível a sua expressão extra-desportiva. Antes do primeiro sinal do começo, uma luz potente em todo caso terá sido lançada ao mesmo tempo sobre os protestos no país, e sobre as torpezas da sua  organização. Novas revelações  sobre a atribuição do Campeonato do Mundo para  2022, comportando pesadas presunções de corrupção, não facilitaram a vida à  FIFA. O governo do futebol nunca se encontrou neste  ponto perante um tal monte de acusações, tornando quase insuportável a sua posição (os anglófonos poderão olhar a magistral demonstração de John Oliver sobre a cadeia HBO), provocando mesmo os patrocinadores a exigir explicações.

Desta vez, por conseguinte, muitas condições parecem reunidas de modo a que seja impossível o avesso do cenário mostrado, de modo que os santuários dos estádios deixem  filtrar os clamores  do exterior, de modo a que o que se passa em segundo plano, o que está por detrás de tudo isto,  passe a ser agora o plano principal..

 A paz social a  que  preço?

Não se poderia  aconselhar muita coisa aos  Brasileiros sobretudo para se  acalmarem, e mesmo de não aproveitarem a excepcional visibilidade mundial que lhes oferece o campeonato do mundo. Não há estritamente nenhuma razão para que uma competição de futebol passe à frente sobre todas  as urgências sociais e políticas de um país, por maioria de razão se a sua organização puser em relevo injustificáveis prioridades dos poderes públicos, a permanência da corrupção, a indecência das despesas consentidas ou a voracidade da FIFA.

Não devem ceder àqueles que lhes fazem uma chantagem sobre a sua  imagem: a imagem só poderá ser  prejudicada depois da deles.  Apostemos  que eles serão muitos mais numerosos a votar a sua admiração por um povo que não vai sucumbir tão facilmente aos interesses da FIFA de  Sepp Blatter, dos seus patrocinadores e dos seus organismos de difusão, à  vontade daqueles que querem vê-los conformes aos clichês da festa, do samba… e do futebol. Este seria então um preço bem vil  para uma paz social tão fictícia.

Que os brasileiros se mobilizem se eles estiverem a sentir   que isso é justo, que eles se aproveitam da relação de forças  se estiver  a seu favor, que  eles se lembrem de sua democracia corintiana do seu compatriota Sócrates. A sua  luta será tanto menos vã quanto eles não têm nada a perder, em contraste com os organizadores. O Brasil pode ganhar o Campeonato do Mundo mesmo  se a sua equipe nacional não  o ganhar.

OUTRO CAMPEONATO  DO MUNDO, RAPIDAMENTE

Que o façam  por si mesmos, primeiramente. Também o farão para nós, por todos nós: nós, por exemplo, os europeus que capitulamos face ao dogma  da austeridade, da predação das riquezas e dos interesses dos lobis financeiros, nós que nos abandonamos ao  fatalismo ou ao cinismo ao mesmo tempo que à  impotência política. Que eles sobretudo não se abstenham. .

Que eles o façam,  de um  ponto de vista mais egoísta,  para que nós, amantes do futebol, que  nos deveríamos  interrogar que fatalidade  nos obriga a submetermo-nos  a um campeonato do mundo  que se tornou num enorme circo, impondo a exclusividade dos seus patrocinadores no espaço público e em que necessitam de  uma implantação da polícia e do exército como se trate de um pais em guerra.  Para nós que  toleráramos que a FIFA obrigue a construir desmedidas infra-estruturas financiadas pelos  recursos públicos para, logo a seguir,  vir a  capturar a maior parte dos lucros, vendendo o “seu” show a canais de televisão a pagar e que nós  mesmos devemos pagar  para ter acesso ao espectáculo, que atribua  a competição em  circunstâncias duvidosas para os satisfazer seus próprios interesses, se governa com a transparência de uma máfia, nós toleramos tudo isto.

Não se deve subestimar o poder estimulante e do  futebol nem  a eficiência do discurso culpabilizante, mas – repetindo o que temos dito  – estas semanas de incerteza têm alguma emoção: se isso não é,  necessariamente, por ver o Brasil liderar uma espécie de revolução política, pelo menos que seja,    mais modestamente, para colocar em evidência a absurda deriva do Campeonato do Mundo da  FIFA.

 

Jérôme Latta, Brésiliens, renversez la Coupe du monde, Le Monde

http://latta.blog.lemonde.fr/2014/06/11/bresiliens-renversez-la-coupe-du-monde/

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