Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Brasileiros, abaixo o Campeonato do Mundo da FIFA
Jérôme Latta, Le Monde, 11 de Junho de 2014
Brésiliens, renversez la Coupe du monde
Suscitando algum escândalo, o presidente da UEFA Michel Platini, candidato à presidência da FIFA tinha pois, há cerca de algumas semanas, apelado aos Brasileiros para se “ acalmarem” e “esperarem um mês” antes de reivindicarem, reinterpretando à sua maneira a noção de trégua olímpica. A irritação do líder traía certamente tanto a sua inconcebível desenvoltura como o temor dos seus pares de ver o seu “acontecimento” estragado . No entanto, que temem eles? A probabilidade de uma situação tão insurreccional que comprometeria o desenrolar do torneio permanece até agora improvável: se têm medo é evidentemente por eles mesmos.
A FIFA numa situação insustentável
Nos dias que precedem um campeonato do mundo é habitual interrogarmo-nos sobre as forças em presença, sobre os potenciais vencedores, sobre os jogadores que o torneio poderá vir a glorificar. Desta vez a incerteza incide também sobre o comportamento do acontecimento ele próprio, sobre o que se vai passar em redor dele – para lá do recinto dos estádios e das “ fanzones”. Eis-nos pois na véspera do Mundial mais incerto da história, e não por razões desportivas. Porque se a mobilização é menos massiva que no ano passado, a efervescência social parece ter-se intensificado com a aproximação do acontecimento: manifestações, greves, ocupações, acções virais.
A hipermediatização do Mundial torna mais imprevisível a sua expressão extra-desportiva. Antes do primeiro sinal do começo, uma luz potente em todo caso terá sido lançada ao mesmo tempo sobre os protestos no país, e sobre as torpezas da sua organização. Novas revelações sobre a atribuição do Campeonato do Mundo para 2022, comportando pesadas presunções de corrupção, não facilitaram a vida à FIFA. O governo do futebol nunca se encontrou neste ponto perante um tal monte de acusações, tornando quase insuportável a sua posição (os anglófonos poderão olhar a magistral demonstração de John Oliver sobre a cadeia HBO), provocando mesmo os patrocinadores a exigir explicações.
Desta vez, por conseguinte, muitas condições parecem reunidas de modo a que seja impossível o avesso do cenário mostrado, de modo que os santuários dos estádios deixem filtrar os clamores do exterior, de modo a que o que se passa em segundo plano, o que está por detrás de tudo isto, passe a ser agora o plano principal..
A paz social a que preço?
Não se poderia aconselhar muita coisa aos Brasileiros sobretudo para se acalmarem, e mesmo de não aproveitarem a excepcional visibilidade mundial que lhes oferece o campeonato do mundo. Não há estritamente nenhuma razão para que uma competição de futebol passe à frente sobre todas as urgências sociais e políticas de um país, por maioria de razão se a sua organização puser em relevo injustificáveis prioridades dos poderes públicos, a permanência da corrupção, a indecência das despesas consentidas ou a voracidade da FIFA.
Não devem ceder àqueles que lhes fazem uma chantagem sobre a sua imagem: a imagem só poderá ser prejudicada depois da deles. Apostemos que eles serão muitos mais numerosos a votar a sua admiração por um povo que não vai sucumbir tão facilmente aos interesses da FIFA de Sepp Blatter, dos seus patrocinadores e dos seus organismos de difusão, à vontade daqueles que querem vê-los conformes aos clichês da festa, do samba… e do futebol. Este seria então um preço bem vil para uma paz social tão fictícia.
Que os brasileiros se mobilizem se eles estiverem a sentir que isso é justo, que eles se aproveitam da relação de forças se estiver a seu favor, que eles se lembrem de sua democracia corintiana do seu compatriota Sócrates. A sua luta será tanto menos vã quanto eles não têm nada a perder, em contraste com os organizadores. O Brasil pode ganhar o Campeonato do Mundo mesmo se a sua equipe nacional não o ganhar.
OUTRO CAMPEONATO DO MUNDO, RAPIDAMENTE
Que o façam por si mesmos, primeiramente. Também o farão para nós, por todos nós: nós, por exemplo, os europeus que capitulamos face ao dogma da austeridade, da predação das riquezas e dos interesses dos lobis financeiros, nós que nos abandonamos ao fatalismo ou ao cinismo ao mesmo tempo que à impotência política. Que eles sobretudo não se abstenham. .
Que eles o façam, de um ponto de vista mais egoísta, para que nós, amantes do futebol, que nos deveríamos interrogar que fatalidade nos obriga a submetermo-nos a um campeonato do mundo que se tornou num enorme circo, impondo a exclusividade dos seus patrocinadores no espaço público e em que necessitam de uma implantação da polícia e do exército como se trate de um pais em guerra. Para nós que toleráramos que a FIFA obrigue a construir desmedidas infra-estruturas financiadas pelos recursos públicos para, logo a seguir, vir a capturar a maior parte dos lucros, vendendo o “seu” show a canais de televisão a pagar e que nós mesmos devemos pagar para ter acesso ao espectáculo, que atribua a competição em circunstâncias duvidosas para os satisfazer seus próprios interesses, se governa com a transparência de uma máfia, nós toleramos tudo isto.
Não se deve subestimar o poder estimulante e do futebol nem a eficiência do discurso culpabilizante, mas – repetindo o que temos dito – estas semanas de incerteza têm alguma emoção: se isso não é, necessariamente, por ver o Brasil liderar uma espécie de revolução política, pelo menos que seja, mais modestamente, para colocar em evidência a absurda deriva do Campeonato do Mundo da FIFA.


