NINGUÉM AUMENTA A DESPESA, CORTANDO-A – por BILL MITCHELL

Temaseconomia1

Selecção de Júlio Marques Mota. Tradução e revisão de Flávio Nunes e Júlio Marques Mota.

Ninguém aumenta a despesa, cortando-a

Publicado a 19 de outubro de 2011

Por Bill Mitchell

Parte III

(CONCLUSÃO)

Numa economia não se verifica um crescimento da procura agregada cortando-a

O FMI percebe-o e reconhece-o abertamente – mas, claro, as suas declarações são moderadas pela sua marca ideológica neoliberal, pura e dura. Porém, nada poderia ser mais claro que as suas indicações sobre os “riscos pertinentes”[1]:

Os riscos de recessão aumentaram e são graves. O risco global que aqui se sobrepõe é o de um “paradoxo da austeridade” a nível global, uma vez que tanto as famílias, as empresas, como os governos, na cena mundial, reduzem a procura, com muitas economias avançadas a serem incapazes de diminuir ainda mais as taxas directoras de juros. Os riscos imediatos estão focados nas principais economias desenvolvidas do G-20, principalmente na zona euro e nos Estados Unidos.

Aqui encontra-se uma mensagem tipicamente keynesiana, que se carateriza pelo ciclo vicioso que se segue, a despesa gera rendimentos, rendimentos estes que conduzem ao crescimento o que, por sua vez, leva à criação de emprego.

Assim, se toda a população tentar cortar ou, evitar gastar o suficiente, quebram-se automaticamente as ligações causais que se acabam de escrever. Portanto, a austeridade cria um efeito bola de neve deflacionária, assente em sucessivos cortes acumulados de período para período. Porém, podemos ver o enviesamento inerente na declaração do FMI que se segue – “com muitas economias avançadas incapazes de diminuir ainda mais as taxas directoras de juros”. Constata-se aqui uma referência ao enviesamento da tendência da política monetária considerada como a principal fonte de estímulo.

Uma das principais lições desta crise (entre inúmeras outras) é que, de todo, a política monetária não pode estimular significativamente a procura agregada. Veja-se como eles fazem – com os esquemas quantitative easing, etc – e, podendo nitidamente manter as taxas de juros baixas ao longo da curva de rendimento, os bancos centrais não foram capazes de fornecer o estímulo necessário à procura agregada.

Por outro lado, é claro que a política orçamental deu um impulso ao crescimento em 2009/10 – contudo, esta política foi abandonada demasiado cedo porque, segundo as ideias dos economistas do FMI, o activismo orçamental levaria a taxas de juros excessivas e à aceleração da inflação. Analogamente nada disto aconteceu (pode alguém eventualmente citar o caso do reino Unido, mas como este é um caso completamente diferente, argumento mais que sólido, este não é matéria de analise aqui).

Observem-se as medidas a serem tomadas pelo FMI relativamente à consolidação, dita “indispensável ao crescimento”:

“Os planos orçamentais de médio prazo credíveis, que iriam criar espaço para se poder apoiar à incipiente retoma e ajustamentos orçamentais bem calibrado e convenientemente rodados em termos de curto prazo podem servir de âncora para a confiança dos investidores. Contudo, precisa de ser apoiado pela rápida implementação de reformas estruturais que conduzam ao aumento da taxa de crescimento e que melhore a sustentabilidade da dívida”[2]. Saliente-se que o FMI e todos os neoliberais fazem uso da palavra “investidor”, como na citação anterior, isto é, no sentido da literatura financeira, ou seja, na lógica dos mercados de títulos. Um economista não vê uma operação de compra ou a venda de títulos como investimento ou desinvestimento, vê-a como uma tomada de posição nos mercados financeiros, nada mais.

Aos olhos de um economista, quando se fala em investimento é o mesmo que falar em aumento da infra-estrutura produtiva, isto é, fala-se em construção de equipamentos, em construção de unidades fabris, que por sua vez levam a um aumento da capacidade da economia em produzir mais bens e serviços.

No entanto, e apenas o que deve ser tomado credível, em termos de planos orçamentais de médio prazo, é a garantia de que o crescimento elimina a componente cíclica do défice. Não vi nenhuma análise coerente que nos sugira que os défices estruturais (a componente não cíclica do défice) devam ser igualmente eliminados.

Neste plano, o FMI sublinha que os encargos de dívida privada por serem tão grandes conduzem à queda do crescimento, pois as famílias e as empresas tentam reduzir as suas posições de dívida, comportamento este apelidado de desalavancagem. Há uma necessidade urgente de se salvar o setor privado em geral, de forma a que este encontre uma posição financeira que faculte uma retoma do crescimento na despesa sem que com isso crie uma dependência excessiva de crédito.

Isto, pelo prisma dos défices, requer o apoio do setor público.

Porém, muito mais é dito pelo FMI:

As economias avançadas do G-20 devem articular planos credíveis de consolidação orçamental de médio prazo, com medidas específicas, incorporadas num quadro macroeconómico realista, o que proporcionaria assim mais espaço político para apoiar no curto prazo o crescimento e o emprego, se necessário.[3] Todas as economias avançadas do G-20 (salvo as economias da zona euro) têm o espaço político económico necessário para apoiar tanto o crescimento como o emprego. Contudo, o que lhes falta é a vontade política para o fazerem, pois não há nenhuma restrição financeira sobre esses governos. Com efeito, as suas organizações políticas disfuncionais criaram uma situação onde cada um pensa por si, levando a que, igualmente, todos cortem na despesa líquida.

Mesmo se considerarmos a reação dos mercados obrigacionistas, os rendimentos são baixos e os mercados não podem obter bastante dívida pública. Já a questão da credibilidade é uma “agressão” e, reflete a ideologia, ao invés de espelhar um sentido analítico.

Porém, no quadro da UEM, a situação é diferente porque sem o apoio do BCE os Estados membros podem facilmente (e vão) entrar em situação de falência. Deste modo, sem a intervenção do BCE, os mercados de títulos estão munidos de uma enorme força para pressionar. Frise-se que noutros países desenvolvidos os mercados obrigacionistas não têm a mesma capacidade de pressão. Contudo, como se observou inicialmente, todos os bancos centrais, incluindo a UEM, podem neutralizar as intervenções dos mercados obrigacionistas privados a qualquer momento, precisamente o que o BCE está a fazer atualmente.

Conclusão

O verdadeiro problema é a escassa procura agregada, fator este que está a provocar uma estagnação do crescimento, levando analogamente tanto o nível desemprego como a pobreza a atingir dimensões recordes.

Se politicamente se quiser, na verdade, fazer alguma coisa de sério deve-se anunciar que utilizarão os bancos centrais em todo o mundo para colocar os mercados obrigacionistas fora do jogo e para financiarem directamente os estímulos orçamentais centrados na criação de emprego.

Voltar a dar de novo emprego e salário condigno aos desempregados é a maneira mais segura de conseguir recolocar a economia em fase de crescimento como outrora. Esperar que milagrosamente o setor privado aumente as suas despesas na presente conjuntura económica é no mínimo um absurdo, [é como ficar à espera de Godot]. Relembre-se que a loucura de uma economia puxada pelo crédito mal parado deixou muita dívida privada por liquidar, estando agora os rácios de poupança a regressar para níveis mais estáveis, o que significa que a posição pública, relativamente à despesa, terá que similarmente regressar para níveis aproximadamente normais. Relembre-se que a loucura de uma economia puxada pelo crédito mal parado deixou muita dívida privada por liquidar, estando agora os rácios de poupança a regressar para níveis mais estáveis, o que significa que a posição pública, relativamente à despesa, terá que similarmente regressar para níveis aproximadamente normais.

Historicamente, isso significa que os défices orçamentais terão que ser mantidos mais ou menos de forma continua durante um longo período de tempo e, talvez por um período de tempo longo e indeterminado.

Todavia, os dirigentes políticos das economias desenvolvidas parecem não terem aprendido nada com estas lições da História, dado que tomam as medidas inversas daquelas que deveriam ser tomadas pois, para além de estarem a alimentar as reacções dos mercados obrigacionistas (visíveis nas figuras I e II acima), ao admitirem que isto é uma crise da “dívida soberana”, estão também, com as suas políticas de austeridade,  a reduzir deliberadamente o crescimento económico. Desta forma e  com essa posição estão igualmente a frustrar as tentativas do sector privado em tentar consolidar as suas contas.

Se o apoio orçamental for concedido ao setor privado, este, além de se poder consolidar (reduzir a sua exposição de dívida), pode inclusive começar a aumentar o volume de despesa (assente no crescimento da massa salarial). Julgo ser a única forma de se conseguir sair desta confusão, o que no mínimo, certamente irá levar alguns anos.

Bill Mitchell: Modern Monetary Theory (…) macroeconomic reality,

You do not increase spending by cutting it,

Texto disponível em: http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=16537

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[1] Observe-se G-20: THE PATH FROM CRISIS TO RECOVERY. Outubro de 2011, mais especificamente nas pags.4-5.

[2] Ibidem, pags, 6-7.

[3] Ibidem, pag.7

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Para ler a Parte II deste trabalho de Bill Mitchell, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

NINGUÉM AUMENTA A DESPESA, CORTANDO-A – por BILL MITCHELL

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