Os notáveis portugueses querem-se queirosianos, tendência João da Ega, para eles o país é a “choldra”.
“É extraordinário! Neste abençoado país todos os políticos têm «imenso talento». A oposição confessa sempre que os ministros, que ela cobre de injúrias, tem, à parte os disparates que fazem, um «talento de primeira ordem»! Por outro lado a maioria admite que a oposição, a quem ela contantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de «robustíssimos talentos»! De resto todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta portanto este facto supracómico: um país governado «com imenso talento», que é de todos na Europa, segundo o consenso unânime, o mais estùpidamente governado! Eu proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!” ― Eça de Queirós, Os Maias
Ai como eles desdenham tudo o que é de cá – sem savoir faire e know how, conspurcado por um povo atrasado e sem classe – e, ao invés confiam e amam tudo o que é de fora – moderno, cosmopolita e cheio de finesse. Não há como os iluminados Paris, Londres, Berlim, New York e, agora também, Bruxelas. Só na sua rica Europa (e, vá lá, para alguns também a América) confiam a salvação, Portugal é uma mouraria condenada. O nível civilizacional do país medem-no pelo volume das importações.
“Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssima com os direitos da alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas… Nós julgamo-nos civilizados como os negros de S. Tomé se supõem cavalheiros, se supõem mesmo brancos, por usarem com a tanga uma casaca velha do patrão… Isto é uma choldra torpe.” ― Eça de Queirós, Os Maias
Claro que eles são os únicos não tocados pela choldrice ou não fossem tão cultos e seguirem a última novidade do exterior, o que lhes permite elevarem-se acima das faltas do país e das suas gentes. Eles são a elite, mas as massas cá são tão rascas que delas não se consegue tirar nada – somos a pátria com melhores líderes e piores seguidores (é que nem seguirem como deve ser sabem).
Mas são tão altruístas e patriotas que recusam maravilhosos convites do estrangeiro, onde brilhariam como as estrelas que são e teriam o devido reconhecimento da sua cultura e valor, e resignam-se a ficar a bem da nação, ingrata, porque sem eles esta sucumbiria de vez.
Não fossem eles os patriotas (mas cosmopolitas) que são e viveriam muito melhor, mas como poderiam dizer não aos sacrifícios que a Pátria lhes pede?
MORRA A PÁTRIA, MORRA! PIM!


O imenso talento do Pacheco está fartamente distribuído em São Bento e polvilha Belém mas, em sua consequência, a População está pelas ruas da amargura. Eu não mataria a Pátria, tão-pouco aceito esconjurá-la mas teria muito gosto, isso sim, em ver liquidada a choldra que a tem governado. Quem fez um 25 de Abril tem obrigação estrita de repetir, caso contrário seremos, de facto, “uma mouraria condenada” CLV