Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Baixar os salários = A marcha atrás do FMI
Dario Guarascio, Abbassare i salari? La retromarcia dell’Fmi
Sbilanciamoci.info, 12 de Julho de 2014
Não menos importante, mesmo o FMI acaba de reconhecer que a capacidade competitiva pode ser baseada em algo que não sejam apenas os custos laborais. Um recente relatório do FMI sobre a produtividade em Itália, fala-nos disso.
Às vezes acontece que os acontecimentos ou as situações excepcionais podem agitar profundas convicções e aparentemente indiscutíveis. Este é o caso com um recente relatório do FMI sobre a produtividade em Itália – A. Tiffin 2014. European Productivity, Innovation and Competitiveness: The Case of Italy IMF WP # 14/79 – onde se tenta desmontar o puzzle italiano chamado “puzzle da produtividade”. Trata-se de uma contradição flagrante entre um dos principais “emblemas” (mantra) do mainstream que têm guiado as acções do FMI nos últimos anos, a imprescindível necessidade de reduzir ou moderar os salários para garantir a competitividade internacional de um país e o melhor desempenho da economia italiana, que, face a um custo de trabalho superior à média da UE, conseguiu manter quotas substanciais no mercado de exportação internacional.
O quebra-cabeça fica ainda mais intrincado para uma instituição de estreita observância neoliberal, como é o FMI, quando é apontado que a economia italiana, além de suportar a queda da produtividade e o crescimento do custo de mão de obra, parece ter-se situado muito bem na comparação internacional, num momento em que outros países passaram a aplicar as reformas que têm sido tão elogiadas e consideradas como indispensáveis para aumentar a própria produtividade .
Para encontrar uma explicação válida para esta alegada contradição do FMI os investigadores têm explorado os territórios que até ao momento lhes eram completamente desconhecidos. A análise foi realizada através de indicadores de competitividade capazes de reflectirem a enorme fragmentação da produção mundial de hoje, a chamada “cadeia de valor global”. Esta é a constatação do facto de que nos bens finais, que se encontram diariamente nos mercados mundiais, os vários componentes (e, portanto, diferentes fontes de custo) podem ser vendidas a partir de muitos países diferentes. Para esta razão, uma análise comparativa da competitividade dos países baseada exclusivamente sobre a dinâmica dos custos do trabalho internos parece pelo menos parcialmente não ser suficientemente satisfatória.
Mas ainda mais surpreendente é o facto de que o relatório do FMI nos dá conta das análises que datam do final dos anos 90 e que já expunham com clareza o papel da tecnologia e das diferentes características das mesmas na determinação da capacidade competitiva das empresas. Pianta (2001) e Bogliacino & Pianta (2010), em seguida, recuperam o conhecido conceito de Schumpeter (J. Schumpeter 1942) de inovação de produto e de processos (o primeiro tipo de inovação refere-se à introdução de novos produtos e está intimamente ligado às atividades de investigação e desenvolvimento, e o segundo refere-se à adopção de processos e equipamentos capazes de reduzir os custos do trabalho), identificando duas distintas estratégias de competitividade via custos: concorrência via preços e concorrência via inovação tecnológica. O Fundo Monetário reconhece não só que a capacidade competitiva pode estar baseada em algo que seja diferente não só nos custos do trabalho mas também que vários sectores industriais se distinguem entre si pelas profundas diferenças em termos de tecnologias, de ordem material e de ordem imaterial, do tipo de mercado em que se situam e da intensidade da concorrência que neles existe. No que se refere à situação italiana, é reconhecida pela instituição presidida por Christine Lagarde, que o famigerado atraso italiano é menos grave do que tem sido afirmado e isto graças à nossa fundamental capacidade de incorporar nos nossos produtos um alto grau de tecnologia, para além de uma alta qualidade dos produtos em si-mesma. Tudo isso faz com que o relatório editado por Triffin seja de uma leitura interessante e, mesmo se não sempre, dissonante quando se compara o texto com a maioria das publicações editadas pela mesma instituição ao longo dos últimos vinte ou trinta anos.
Junto à página das conclusões, todos nós ficamos prontos para ler as recomendações de políticas económicas decorrentes desta nova e inesperada mudança de rumo intelectual feita pelo FMI. Apesar das expectativas serem particularmente elevadas a decepção é, de toda a maneira, muito forte . Com a segurança habitual o autor afirma na página final do relatório: “…a futura competitividade da Itália não poderá passar senão através da implementação total de uma agenda completa de reformas estruturais .” (Tiffin, 2014, p. 9). Considerando que, sempre que na Itália se recorreu ao termo “reformas estruturais” para justificar uma política o seu resultado foi um enfraquecimento dos mecanismos de protecção para os trabalhadores, ou uma redução dos direitos adquiridos não parece haver grande espaço para nos mantermos serenos. Além disso, é porém curioso ver como ao longo de vinte páginas são apresentados argumentos (e estatísticas) completamente desfavoráveis a uma conclusão que vai no sentido liberal já tão estafado como o sabemos bem. A conclusão é imediata: a abordagem das principais Instituições Internacionais está sempre à priori decidida e independentemente da sua conexão (ou falta dela) com os dados e os factos da realidade.
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Ver o original em:
http://www.sbilanciamoci.info./Sezioni/globi/Abbassare-i-salari-La-retromarcia-dell-Fmi-25470
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