SOBRE OS LEOPARDOS QUE QUEREM BEM SERVIR BRUXELAS – DA ITÁLIA, FALEMOS ENTÃO DE UM BOM EXEMPLAR – 13. RENZI – O POPULISMO TECNOCRÁTICO DO GRANDE REFORMADOR – A GRANDE ROTA DA INDÚSTRIA ITALIANA – por VINCENZO COMITO

 Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

mapa itália

A grande rota da indústria italiana

 Vincenzo Comito, La grande rotta dell’industria italiana

Sbilanciamoci.info, 12 de Julho de 2014

Desde a venda do grupo Pirelli aos russos por alguns euros até à venda anunciada de Eni Saipem. Até os últimos acontecimentos relativos à Alitalia, Ilva e Indesit. O governo italiano permanece à janela enquanto a indústria italiana acaba nas mãos de grandes grupos industriais estrangeiros.

No que se refere ao controle das empresas grandes e médias/grandes no nosso país, as notícias já não são aquelas de uma lenta retirada do capital nacional, mas sim a de uma via amplamente desorganizada. No último período assistimos, entre outras coisas, à venda do grupo Pirelli aos russos por alguns euros e ao controlo de Monte dei Paschi, entre outros, por investidores sul-americanos por um punhado de dinheiro. Enquanto isso Eni anunciou a venda dessa grande empresa que é a Saipem e, claro, desde o momento em que não se encontrem investidores nacionais disponíveis, a cobiçada presa vai acabar nas mãos de gente de longe. Mesmo a anunciada e insensata privatização de Fincantieri, uma empresa que desde há já algum tempo tem estado a navegar no caminho certo e que deveria ser ajudada a expandir-se novamente-poderia trazer alguma surpresa desagradável sobre a sua aquisição ; com este governo há sempre que esperar o pior.

Mas agora, à espera de outros anúncios da mesma natureza, é sobretudo notícia o que se vai passar com Indesit, Ilva, Alitalia.

No que se refere a esta última, o epílogo da história parece estar perto, com os sindicatos a terem de enfrentar a alternativa de aceitar, dramática e rapidamente, os pesados cortes sobre os volumes de emprego ou então de verem neste momento o encerramento definitivo da empresa; não existem na verdade outras soluções, face ao interlocutor em presença, árabe, que, sabendo que do outro lado se está de mãos atadas debaixo do cutelo, avançou exigências muito pesadas, mesmo aos bancos, nomeadamente, endurecendo várias vezes as suas exigências nas suas negociações ocorridas nos últimos meses. Com uma conclusão de certa maneira positiva sobre o acontecimento é que assim se acabaria por outro lado um escândalo, que dura há já cerca de sessenta anos, com um esbanjamento de recursos públicos, de intromissão sem limites na política mais degradada que está por detrás dos acontecimentos da companhia e das graves incompetências na sua gestão.

No que se refere à Indesit, foi fechado um falso leilão entre os fabricantes americanos, alemães e chineses pela conquista da empresa. Na verdade, era conhecido desde há já algum tempo que iria vencer  o americano Whirlpool, embora, por exemplo, a oferta chinesa fosse economicamente melhor e a oferta alemã politicamente mais apropriada. Na verdade, sussurra-se que o atual CEO da empresa tem desde há tempos relações de amizade com o gerente europeu da própria Whirlpool e que os dois face ao desnorteamento e à passividade dos seus accionistas, concordaram sobre a transação desde há já muito tempo. É necessário estar pelo menos aatento agora, para que o novo proprietário vá respeitar as decisões relativamente aos recentes compromissos em termos de investimento e do emprego, mesmo que, de novo, com o atual governo não há que alimentar muita esperança nesse sentido.

Mas, sem dúvida, a partida mais importante para o país jogua-se neste momento sobre Ilva. As notícias destas últimas horas falam-nos de uma garantia do governo para com o sistema bancário, para que vá continuar pelo menos por enquanto a alimentar os cofres da empresa agora à beira da asfixia; de uma prática defenestração de Ronchi, sub-Comissário para as questões ambientais, basicamente forçado a apresentar a demissão; da rejeição e paralela recusa, pelo menos de momento, o mesmo governo utiliza os 1,8 mil milhões de euros, a seu tempo sequestrados da magistratura para o saneamento ambiental e para os novos investimentos necessários para a retoma da empresa. Enquanto isso, as negociações prosseguem, embora se diga em exclusivo com Arcelor Mittal, para uma venda da empresa.

As notícias que chegam não são pois reconfortantes. O governo, com um representante da Confindustria como Guidi na  sua equipa, tenta dar o menos incômodo possível aos capitalistas locais, tratando com luvas a mesma família Riva; entretanto, aparentemente, desinteressa-se do saneamento ambiental, enquanto em Tarento se continua a morrer e a adoecer e enquanto o recente declínio nas emissões pareça ser devido ao encerramento, mais ou menos temporário, de uma parte das instalações; por outro lado, escolheu-se para a intervenção na capital o parceiro errado, a empresa indiana do aço Arcelor Mittal que já está fortemente presente na Europa, onde já tem uma capacidade de produção em grande parte já  excedentária. Pela sua intervenção no capital de Ilva, motivada simplesmente para tentar impedir a entrada na estrutura de accionistas dos concorrentes chineses ou coreanos, significará provavelmente um corte bastante drástico na produção e, consequentemente, no emprego. A história continua a desenrolar-se, no entanto com uma possível intervenção posterior pela parte da magistratura.

Esperamos que, em defesa dos interesses dos trabalhadores e do desenvolvimento da economia nacional, para a nova estrutura dos accionistas entre em posição de destaque, alguma entidade pública, a Cassa Depositi e Prestiti ou até mesmo o Tesouro. Mas será de esperar alguma coisa neste sentido tendo em conta a orientação fanaticamente liberal do actual governo e quando se tem a sensação que aos lugares de comando estão presentes muito diletantes e especialistas em operações de fracasso.

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Ver o original em:

http://www.sbilanciamoci.info/Sezioni/italie/La-grande-rotta-dell-industria-italiana-25471

 

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