Luso-Descendentes – por Joaquim Palminha Silva

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Desde o berço histórico que temos vindo a alimentar um enorme complexo de inferioridade face à Península Ibérica. Com os séculos, conseguimos compreender que o nome de Espanha (conversão mais ou menos forçada de Catalunha, Galiza, País Basco, etc.) não era representativo de toda Península Ibérica. Todavia, continuamos a carregar “às costas” com um enorme complexo de inferioridade. Ainda hoje custa a compreender porque não somos capazes de nos encaixar, azulejo de suave azul, dentro do colorido painel.

A verdade é que fugimos para o mar! O mar nunca foi para nós a “vocação” que, apregoada há séculos, se diz ser nossa natural. O mar foi um pretexto para camuflar uma fuga! – Isto é, entramos pelo mar dentro, obrigatoriamente, ao fugir de casa!

Nesta ordem de ideias, a nossa secular existência histórica é a interminável narrativa de uma fuga colectiva, motivada pelo receio do apertão geográfico em que nascemos. Daqui resulta que se já fomos um povo, com as qualidades que, dizem, lhe são inerentes, poucas vezes o fomos dentro das fronteiras de Portugal. Foi quase sempre lá fora que de mãos dadas com o destino, a quem gostamos de chamar fado, escrevemos as páginas mais universais da nossa História e da nossa língua.

Diga-se o que se disser, o facto é que Portugal nunca conseguiu encontrar lugar, por mais modesto que seja, para todos os seus filhos. Hoje como ontem. Não que sejamos muitos, mas o facto é que, por um mistério que não se consegue desvendar, sempre exorbitamos em Portugal. Aliás, quanto mais se vai acentuando a quebra demográfica, paradoxalmente, mais se faz notar o número crescente dos excluídos da sociedade territorial portuguesa, propriamente dita. Isto é, quanto menos somos mais emigramos! – O desenvolvimento deste paradoxo impressiona qualquer estrangeiro, mas a sua problemática é praticamente ignorada pelos indígenas!

De facto, não há jardins de infância para o maior número de crianças; não há habitações economicamente disponíveis para o maior número de jovens; não há trabalho para o maior número, desde as profissões mais qualificadas às tarefas mais primárias; não há camas nos hospitais para o maior número de enfermos necessitados de internamento; não há lares de “3ª idade” para o maior número de idosos. E assim de seguida…

Nascer em Portugal é ter 99% de probabilidades de que se vai assistir a um espectáculo que, se empolga pelo absurdo que promete, assusta por ter esgotado os bilhetes, apesar da lotação do teatro estar longe da plena ocupação. Assim sendo, nascer em Portugal determina, por conseguinte, a procura de uma saída de emergência… antes de começar o espectáculo!

No decurso dos séculos, dirigentes e povo contaram continuamente com a propensão de cada um em particular e de quase todos em geral para… emigrar! – E nunca ninguém ficou desiludido!

Barulhento como tendeiro de feira ou em surdina, do mais letrado ao mais tosco dos cidadãos, ninguém projecta outro sonho, fala de outra coisa senão de abandonar isto, partir daqui, fugir, emigrar de Portugal!

Não adianta a economia, a história, a sociologia, a geografia e a antropologia para compreender as circunstâncias adversas. De facto, as circunstâncias adversas não são exclusivas deste País… Embora sejam as únicas desculpas que encontramos à mão, quando nos interrogam sobre o estado a que chegamos. Com este pretexto mal alinhavado, acabamos por demonstrar que não temos nem muito brio como povo nem muito orgulho como Nação. – Sobretudo, somos uma pouca-vergonha!

Enfim, a pequena multidão que para aqui está sobrevivendo, esfarrapada, triste e complexada, circunscreve-se à saudade histórica de ter sido, jamais ao remorso do que se não vai fazendo! – Todos os que estamos para aqui, somos apenas luso-descendentes!

Desterrados de nós mesmos, conduzidos por absurdos caminhos, barafustando uns com os outros, mas todos dentro da mesma caravela a desconjuntar-se… Náufragos que procuram moldar ao seu critério as formas de aplicar a mentira e os pretextos, como se fossem uma tábua de salvação. Só por extravagância nos poderemos intitular de portugueses. Ou por saudosismo colectivo. Mesmo assim, apenas exibimos uma identidade colectiva de pergaminho, bafienta, muito mal cerzida no presente e sem inscrição alguma no futuro! – Quem sabe se não nos conhecem do caminho marítimo para a Índia! Quem sabe se não nos conhecem de alguma colecção de museu!

2 Comments

  1. Belo e oportuno retrato nos deixa aqui, amigo Palminha!O País precisa, como de pão para a boca, de espíritos inquietos, “despertos” e orgulhosamente firmes nas suas convicções…Enfim,levar-nos-ía a outras discussões mais ou menos metafisicas!…Talvez falte mesmo metafísica ao País, e menos políticos de catequese! Apetece-me ir buscar ao baú o “FMI” do José Mário Branco!…Mas cito o Paul Valéry:

    “A política foi primeiro a arte de impedir as pessoas de se intrometerem naquilo que lhes diz respeito. Em época posterior, acrescentaram-lhe a arte de forçar as pessoas a decidir sobre o que não entendem”.

    Abraço amigo

    Helder Caseiro

    P.S. Cá andamos no Alentejo profundo a tentar “reerguer” a Associação Fialho de Almeida, que possuirá indelevelmente a sua marca

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