ATÉ AMANHÃ, CAMARADA ANTÓNIO JOSÉ SEGURO – por JÚLIO MARQUES MOTA

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O PS virou uma página, uma página que foi delineada pelo camarada António José Seguro e, depois, escrita por todos nós. Boa ou má, a história o dirá, mas parece uma página escrita ao sabor da corrente mas de uma corrente que caminha no mesmo sentido do que actualmente a História está a percorrer, isto é, ao contrário do sentido do progresso, da cidadania, do respeito por quem trabalha, do respeito pela soberania dos pequenos países, pelo seu próprio devir. No caso agora em presença, o candidato de um partido, de uma forma geral pode ser escolhido não pelos militantes do seu partido mas por aqueles que ao largo e em dado momento dele se dizem simpatizantes. Escolhida a página, assim. Escolhida a letra, escolhido o texto por todos nós escrito, aqui temos a leitura, em virtude da qual o secretário-geral desse mesmo partido se demite face ao que se verificou nas urnas estar escrito nessa página e pela esmagadora maioria de todos aqueles que nela a escreveram com o seu voto. Fui votar, votei Seguro e para meu espanto me interroguei por muita gente que me seria inadmissível estarem ali a votar. Por quem estavam a votar, não sei. Sinceramente tanto podia ser por um ou por outro, porque no plano político, no plano das coisas a fazer, ambos poderiam fazer o mesmo ou seja, praticamente NADA, a não ser alisar a agressividade das políticas impostas pela potência dominante, em última instância a Alemanha e praticadas pelo actual executivo. Mas era relevante estarem ali, na rua, por uma outra razão que não especificamente o seu voto: estavam ali porque esperam alguma coisa do partido oposto aquele em que sempre estiveram de alma e coração : uma mudança.

Até amanhã, camarada António José Seguro. Deixe passar o tempo, deixe que este filtre as verdades que não se sabem, que nunca foram ditas ou se o foram, foram-no de forma ligeira e poderá depois reaparecer, animando uma esquerda que o “regime” de Sócrates foi destruindo e a precariedade exponencial que se lhe seguiu potenciou e que pelos vistos com um novo discurso, mais moderno, mais fluido, mais adequado às novas formas de convencimento, poderá ser mantida. Veja-se o exemplo de Renzi, veja-se aí a “cedência de Frau Merkel, relembre-se um ou outro agradecimento de António Costa na noite da sua esmagadora maioria.

Mas os resultados obtidos nestas primárias mostram a necessidade de mudança, de uma mudança que não consigo vislumbrar como é que poderá ser desencadeada e alcançada no quadro do sistema actual e das forças que o movimentam e do sentimento de medo da maioria daqueles que votam. E com isso a Troika e os seus acólitos sabe jogar muito bem.

Imagem5Do meu ponto de vista, de simples cidadão que já tem mais idade para olhar para as coisas do que capacidade para as ajudar a mudar, penso ter sido o secretário-geral que mais sujeito a pressões terá havido em toda a história do PS, nestes últimos 30 anos. Não as conhecemos, mas sabemos as que houve sobre a Grécia, sobre a Irlanda, sabemos as que houve sobre a Itália, adivinhamos as pressões feitas sobre a França, de que a nossa série Sobre os leopardos que querem bem servir Bruxelas – da França, falemos então da política de HOLLANDE tenta levantar um véu. Calculamos as pressões que Bruxelas terá feito no Verão de 2013, através de um ignorante economista a ocupar o mais alto cargo da Nação, fantasma que com a sua ignorância em Economia ocupa Belém, quando impôs negociações para uma larga maioria no poder. Que satisfação seria para a Troika, conseguir de mão beijada, o que a lição da Grécia lhe ensinou. Colocar os partidos, CDS, PSD e PS sob a mesma bandeira, sob o mesmo programa, o seu, o dela Troika, a cumprir um programa estabelecido antes e independentemente de quaisquer eleições! Acabava-se aí a democracia, como se acabou temporariamente em Itália, como se preparam talvez os franceses para o fazer e com o argumento de salvar a França, de Marine LePen! Não se trata então de mudar a política, de mudar o sistema, não, trata-se de salvar o modelo que até aqui tem sido seguido, custe o que custar: os fins justificam os meios mesmo que os meios levem á destruição da Democracia. Esta é a política de Bruxelas imposta aos Estados-membro em dificuldade, correspondendo ao diktat alemão, bem expresso pelo ministro das Finanças. Soube-se que o camarada António José Seguro resistiu a esta enorme pressão. E com que dignidade. Saúdo-o agora por isso, quando sobre isso mesmo o silêncio dos outros foi quase total. Dir-me-ão que estou a forçar a realidade, mas não. Se dúvidas há relembremos as posições do ministro das Finanças da Alemanha: “quanto à questão do que é que provocou a actual situação há uma simples resposta: os excessivos défices em muitos dos países europeus. O endividamento e os défices públicos são demasiado altos porque os seus respectivos sectores públicos gastam demasiado, têm fracas receitas, e as suas economias sofrem de uma falta de competitividade. É por tudo isto que a consolidação orçamental (redução dos défices) e as reformas estruturais nos países altamente endividados são a solução”. E numa outra ocasião o mesmo ministro afirmou” : sim, temos que evitar largos desequilíbrios entre os estados membros. Mas não, isto não pode assumir a forma de os países com sucesso voluntariamente a sua competitividade. A única via operacional para estes países da zona euro que são um pouco mais fracos é tornarem-se eles mesmos mais fortes. Nós podemos ajudá-los, mas não podemos fazer o que a eles lhes cabe fazer. Não se pode resolver os seus próprios problemas de competitividade pedindo aos outros que se tornem menos competitivos”. A quadratura do círculo europeia, portanto, é o que o ministro das Finanças impõe à Europa. Eis pois a proposta impossível de realizar e que tem determinado as políticas europeias, e é impossível porque é impossível que entre todos os países entre si tenham as suas balanças correntes excedentárias! Se uns têm excedentes, outros terão de ter défices e do mesmo montante. A matemática é assim, não se compadece com relações de poder entre os mais fortes e os mais fracos, como aquelas que acabamos de descrever. Mas o discurso de  Frau Merkel, a patroa da Europa, vai no mesmo sentido que as declarações do seu ministro das Finanças quando afirma: “o que nós fizemos, os outros poderão fazê-lo”. Pois bem, foi esta quadratura do círculo, diferente daquela em que participava António Costa na SIC que determinou as políticas de austeridade, políticas estas assentes num erro monumental: no quadro europeu é impossível todos os países serem excedentários como a Alemanha é e quer continuar a ser. Pensemos bem: o grosso do comércio externo de cada país é com os restantes países membros. Ora globalmente a soma das contas externas, por definição têm que dar soma nula. Se uns países são excedentários, outros são necessariamente deficitários e de valor absoluto exactamente igual. A conclusão é imediata, os excedentes alemães são os défices dos restantes países e para que os restantes países tenha excedentes seria necessário que a Alemanha tivesse défices, interno e externo, o que esta, pela política de austeridade seguida, desde os anos das leis Hartz recusa ter. Uma política mercantilista, a China da Europa, é o que a Alemanha sistematicamente pretende ser, mesmo que para isso descaracterize os países à sua volta, desertificando-os relativamente do ponto de vista populacional e financeiro. É o que tem feito, desde o viver com taxas de juro negativas, à custa de se considerar porto de abrigo das fortunas europeias que se refugiam na Alemanha em euros mas protegidos pelo sistema financeiro alemão, é o que tem feito capturando os jovens mais capazes de toda esta nossa Europa repovoando-se assim sem nenhuma política de Estado violenta como os russos praticaram nos países ao lado, na época de Estaline. Sonho alemão cumprido, pesadelo europeu sofrido, eis pois a política da potência dominante na Europa. E assim a Alemanha pode continuar a ter os seus excedentes comerciais, a reserva financeira para as reformas de um povo envelhecido, enquanto em simultâneo garante a modificação da sua estrutura populacional, rejuvenescendo-a de forma altamente selectiva e a muito baixo custo. Os Estados-membro fora da zona central são pois a porta ou a via pela qual a Alemanha tem os seus excedentes. Impor que os outros países sejam como a Alemanha, a regra que tem ditado as políticas de austeridade, é pois uma impossibilidade, a quadratura do círculo na Europa, a menos que os restantes Estados-membro exportem para Lua e se criem assim excedentes pagos numa moeda lunar![1]

 É sob o reino desta quadratura e das políticas que dela imergem que o camarada António José Seguro foi secretário-geral e, convenhamos, é extraordinariamente difícil ser seja o que for perante uma impossibilidade de ser alguma coisa para além de se poder ter um efeito politicamente nulo. O modelo europeu não deixa nenhuma outra hipótese, nenhum espaço de manobra e se assim não é, dêem-me exemplos do que estou errado.

O camarada António José Seguro defendeu neste contexto a imagem de um partido. Defesa de efeitos quase que nulos como se viu com o país completamente destruído pela Troika, através dos seus criados no poder, na Assembleia, no Governo, em Belém. Defendeu o que achou possível e isto reduziu-se a pouco mais que zero. Tentou manter a chama socialista, à espera de melhor ocasião. Foi o que terá feito o camarada António José Seguro, é o que irá, no melhor dos cenários, fazer qualquer outro que o venha agora substituir, se as coisas externamente não mudarem, chame-se ele António Costa ou qualquer outro. E se assim é, é absurdo pensar que as coisas podem mudar se a situação externamente não mudar. O medo que terá tolhido António José Seguro, o de lançar o país numa via sem saída é, no fundo, o medo que assusta os comentadores mais importantes que se debruçaram até agora sobre a questão, mas em termos de futuro já próximo, em termos da capacidade de António Costa. Não podemos esquecer a tragédia europeia, quando a Europa é governada por um bando de monetaristas e protestantes fanáticos ou então de gente eventualmente sem escrúpulos. E aí Pacheco Pereira poderia ser mais claro. Lembremo-nos de Chipre, que de um dia para o outro ficou sem circuitos de capital, ficou literalmente sem dinheiro. Todos os acessos ao dinheiro foram cortados. Ficaram abertas apenas duas portas de saída: uma para a bolsa de Londres claro está, outra para os capitais das máfias russas, uma porta aberta em Moscovo. Não o esqueçamos, é assim que a Troika funciona e isto porque os bancos cipriotas. alinharam na redução da divida grega! Lembremo-nos da Grécia com gente a morrer por não ter tratamento hospitalar, lembremo-nos da ameaça de os hospitais ficarem sem meios financeiros, lembremo-nos da Grécia com o partido nazi, Aurora Dourada, a ditar as suas leis, a sua ordem, com o silêncio de Bruxelas e de Berlim, lembremo-nos ainda do referendo na Grécia sobre as políticas de austeridade impostas e do que se sucedeu: o primeiro-ministro caiu e assumiu as rédeas do poder um homem do BCE. Pois claro. A democracia de Bruxelas é isso mesmo, é a porta aberta para a ditadura.

De homem medroso, é o camarada António José Seguro agora acusado. Mas quem é que neste contexto e até este momento não teria medo de lançar o país numa aventura com possibilidades de não ter retrocesso? Aceito a crítica feita quanto à existência de medo, generalizada a muitíssima gente, e escrevi-o, e escrevi-lhe em Fevereiro, onde dizia:

“A questão é tanto mais importante quanto é preciso explicar às pessoas o que é esta crise afinal, que vias de saída se podem encontrar e claramente nunca as poderemos descortinar se não soubermos as profundas razões da crise, com toda a gente a querer atirar-nos poeira para os olhos, a afirmar que esta é apenas financeira. Mesmo que o seja, o que não é verdade, era então necessário saber o que é que a permitiu. Mas sabendo o que é que permitiu a crise, seria necessário saber se esta crise, no quadro em que foi permitida não era, sim ou não, uma necessidade endógena do próprio sistema. Pessoalmente defendo que sim. Se assim é, é então com o sistema como um todo que temos de nos preocupar e mais isso do que propriamente de Passos Coelho, que não passa de pura emanação do disfuncionamento brutal do sistema. Daí a brutalidade da sua governação. Por outro lado, se não há endogeneidade na crise, qualquer candidato a Primeiro-Ministro pouco mais pode fazer que não seja a passar a ser igual ao seu antecessor e cumprir a linha das opções, que também a ele lhe foram impostas, quanto a objectivos. A Democracia não se compadece com uma folha de cálculo Excel ou outra, nem nunca, por definição, as suas práticas podem ser o resultado dos cálculos daquela e previamente estabelecidos. Veja-se a Itália com Monti, com Letta e agora com Matteo Renzi, para ficarmos por aqui como exemplo.”

Ora nada disto se discutiu nos debates. Todos o sabíamos: os debates pouco mais dariam que críticas pessoais, algumas de mau gosto até. Discutir sobre o que acima se fala na citação seria discutir o modelo europeu, o que é proibido. Há uma linha vermelha inultrapassável, sublinhou Frau Merkel a Matteo Renzi. E este respeitou-a. Todos o sabem. E até François Hollande, o Presidente que parece atacado por uma doença subida, a subserviência total aos alemães, terá respondido a Renzi, segundo rezam as crónicas:

“Em Paris encontrou-se com o Presidente francês, Hollande, que tinha sido eleito para desempenhar o seu papel como baluarte contra as políticas de austeridade e para proporcionar um ponto de viragem para o crescimento e o emprego. Pena que entretanto se tenha convertido à tese de que “a oferta cria a sua própria procura” e prossegue agora, reduzindo a carga fiscal em nome e a favor das empresas francesas como a única maneira de aumentar a sua competitividade, enviando Keynes às urtigas, como também nós o tínhamos expurgado da Constituição italiana em 2012. Os franceses ter-lhe-ão dito que o relacionamento com os amigos alemães continuaria a ser a prioridade deles, embora se congratulassem com os esforços feitos pela Itália para sair do pântano.” O sublinhado é nosso.

A propósito da Itália vale a pena referir aqui a análise critica a um texto que foi publicado sob a égide do FMI:

“O Fundo Monetário reconhece não só que a capacidade competitiva pode estar baseada em algo que seja diferente não só nos custos do trabalho mas também que vários sectores industriais se distinguem entre si pelas profundas diferenças em termos de tecnologias, de ordem material e de ordem imaterial, do tipo de mercado em que se situam e da intensidade da concorrência que neles existe. No que se refere à situação italiana, é reconhecida pela instituição presidida por Christine Lagarde, que o famigerado atraso italiano é menos grave do que tem sido afirmado e isto graças à nossa fundamental capacidade de incorporar nos nossos produtos um alto grau de tecnologia, para além de uma alta qualidade dos produtos em si-mesma. Tudo isso faz com que o relatório editado por Triffin seja de uma leitura interessante e, mesmo se não sempre, dissonante quando se compara o texto com a maioria das publicações editadas pela mesma instituição ao longo dos últimos vinte ou trinta anos.

Junto à página das conclusões, todos nós ficamos prontos para ler as recomendações de políticas económicas decorrentes desta nova e inesperada mudança de rumo intelectual feita pelo FMI. Apesar das expectativas serem particularmente elevadas a decepção é, de toda a maneira, muito forte. Com a segurança habitual o autor afirma na página final do relatório: “…a futura competitividade da Itália não poderá passar senão através da implementação total de uma agenda completa de reformas estruturais.” (Tiffin, 2014, p. 9). Considerando que, sempre que na Itália se recorreu ao termo “reformas estruturais” para justificar uma política em que o seu resultado foi um enfraquecimento dos mecanismos de protecção para os trabalhadores, ou uma redução dos direitos adquiridos não parece haver grande espaço para nos mantermos serenos. Além disso, é porém curioso ver como ao longo de vinte páginas são apresentados argumentos (e estatísticas) completamente desfavoráveis a uma conclusão que vai no sentido liberal já tão estafado como o sabemos bem. A conclusão é imediata: a abordagem das principais Instituições Internacionais está sempre à priori decidida e independentemente da sua conexão (ou falta dela) com os dados e os factos da realidade” ( O sublinhado é nosso).

Ou seja temos uma plêiade de gente a produzir um discurso neoliberal, com conclusões pré-determinadas e independente dos resultados que a realidade nos mostra, como se exemplifica aqui ou de forma ainda mais evidente com o famoso engano dos multiplicadores orçamentais mas para ficar tudo na mesma, como o afirmou Olivier Blanchard quando pede desculpa pelo engano mas ao mesmo tempo que se recusou a tirar disso as devidas consequências. Estas iriam contra Bruxelas, contra Berlim, contra Frankfurt, portanto era melhor silenciar a questão e passar ao lado, mantendo-se então o mesmo discurso. Daí um quadro ideológico que se manteve intocável e com que os media nos matraquearam até à exaustão e exige-se agora que o camarada António José Seguro os afrontasse como um todo quando todos os restantes estavam calados. Que grande coragem, a dos seus críticos de agora.

Uma analogia entre a Europa e o Titanic o mesmo é dizer, igualmente, entre o afundar de Portugal e o grande paquete que se afundou na sua primeira viagem.

Sobre o afundamento do Titanic hoje dizem-nos :

“ At 11:40 pm on 14 April 1912 the RMS Titanic was approaching a crisis, steaming at almost full speed through an ice field under a dark sky (no moon, no Venus), no wind (no waves breaking on the ice). Warnings of ice have been received and ignored. The lookouts sound three bells — for object dead ahead. Was disaster inevitable at this point, or could the officers have save most of the passengers and crew?

(a) What could First Officer William Murdoch have done?

He ordered the rudder “hard astarboard” and the engines “full astern”, intending to steer around the iceberg. The Titanic almost made it; under the water it’s hull gently brushed against the ice. Water entered through long lines where plates buckled and seams opened.

The Titanic probably could have survived if at that second Murdoch decided not to turn the ship, instead direct hitting the iceberg. Only the first few compartments would have flooded. The roughly 56 firemen birthed in the forward block of F Deck would have died, along with scores of 3rd class passengers. But this was not a “by the book” response, and only a bold (genius, or reckless) officer would have done it.

However, neither did Murdoch give the “by the book” orders. He turned with “full engines astern”, instead of turning with full speed on the engines. The rudder’s turning power comes from the rate of water flowing over it. The book answer risked damage to the stern and the screws (banging into the ice), but might (possibly) have given Titanic the few extra inches it needed to survive — or at least float until help arrived.”

Por outras palavras exigiam-se decisões que não vinham nos manuais de marinheiro de capitães de barcos de grande calado. Aqui, em Portugal exigiam-se decisões que não vem em nenhum manual de economia política, decisões estas de alguma ruptura só possíveis se apoiadas numa verdadeira base popular, criada por um longo debate nacional. O manifesto dos 74, de que sou um dos signatários, poderia ter sido um ponto de partida, mas também nada mais que isso. Esse foi o debate que faltou ao PS, ao País, aos dois candidatos a primeiro-ministro das primárias agora havidas. Se este debate se tem dado, as eleições talvez viessem a ser uma outra coisa e os debates assim como os resultados das eleições poderiam seguramente ser outros. Mas marinheiros de comportamento diametralmente oposto aos dos Murdoch de que nos fala a História e dos seus equivalentes que a Troika tem colocado no poder ou apoia para que a este consigam chegar, é o que nós precisamos e isso poderia ter sido a sua verdadeira missão histórica. Não nos andariam agora os seus críticos a dizer que até da sua sombra tinha receio, os mesmos críticos que não dão sinal nenhum de disponibilidade para assumir os tais riscos que o camarada António José Seguro não terá, por medo, assumido. Este é, pois, o verdadeiro erro que lhe acuso: o de não ter impulsionado a criação de uma escola de “marinheiros” nas antípodas do Murdoch do Titanic e de tantos outros que por outras águas navegam e em que afundam países inteiros, marinheiros esses que com uma boa aprendizagem haveriam de levar este barco, Portugal, a bom porto, em vez de o vermos a afundar lentamente como está agora a acontecer..

Não foi a contestação séria e em grande escala ao modelo europeu que foi feita enquanto secretário-geral. E Portugal, na verdade, como todos os outros Estados-membro, todos eles, países grandes e pequenos, se vergaram ao peso alemão que conquista a Europa não pela força das armas, o que tentou Hitler, mas pela fraqueza da dívida, dos défices públicos que dos privados é melhor não falar, redesenhando agora a Europa a seu bel-prazer. E eis que agora o acusam, a si, camarada António José Seguro, de ser um medroso face à tragédia que se abateu sobre a maioria dos Estados-membro da Europa, sem que os seus críticos tenham mostrado até agora um qualquer acto de coragem política que vá no sentido contrário. Vejamos então alguns dos mais relevantes críticos no panorama nacional no dia a seguir às primárias, onde se evidenciam as dúvidas de amanhã que são as angústia de ontem, afinal. E nestes críticos, destaco São José Almeida, José Vitor Malheiros, Francisco Louçã, Pacheco Pereira. Vejamos alguns excertos dos seus textos:

  1. Jornalista São José Almeida

Se quer ser primeiro-ministro e obter uma maioria absoluta, Costa não pode surgir perante o país com um discurso vago e um ar blasé de quem se acha especialmente dotado para a política e por isso não tem de investir nem de se preparar muito. Há muito trabalho de casa que o novo líder do PS tem que fazer se quer mesmo ser primeiro-ministro.

A começar por elaborar e apresentar um programa consistente e coerente de governo, que seja bem mais que um arrazoado de palavras vagas e boas intenções e de proclamações de valores de esquerda. (sublinhado nosso)

Mas Costa tem também que unir um partido que está partido de uma forma inédita pelos níveis de violência que se viveram nesta sua disputa com António José Seguro.

( …)

E no discurso de vitória, Costa foi implacável com Seguro. Ignorou-o em absoluto, dando um mau sinal sobre o que será a pacificação interna. Resta esperar que o facto de a vitória ser tão expressiva permita que Costa arrefeça a emotividade da vitória e consiga ganhar alguma racionalidade que lhe permita assegurar que tem um partido operacional para as legislativas.

  1. Francisco Louçã:

Valeram a pena as primárias? Costa ganhou por muito, para ele valeram. O preço foi o sistema democrático ser esburacado: no PS vigorará doravante a luta de lama entre candidatos, o partido fica irrelevante e serão as oligarquias comunicacionais a propor o rei. A democracia perdeu.

O próximo governo tem a obrigação, por Tratado Orçamental, de agravar a austeridade. Não tem agenda de década, só cortes perpétuos. Não há salários ou pensões, só dívida. Por isso, o primeiro trabalho de Costa será explicar como vai pagar ou como vai cortar. O segundo trabalho é apresentar uma ideia para responder à irrelevância europeia de Portugal e, pior, ao perigo europeu. Que não seja a mão estendida, triste decadência. Ora, o arrojo é também um mundo novo cheio de riscos.

Se ficar o silêncio, nunca se resolverão tais trabalhos. A não ser tarde demais.

  1. Vitor Malheiros :

 E [quem é] Costa? Costa é em grande medida uma incógnita mas é certamente um líder mais consistente e mais seguro de si, mais culto e mais inteligente, e parece menos mesmerizado pelo neoliberalismo e menos fascinado pela elegância dos banqueiros do que muitos dos seus colegas de partido, o que significa que poderá liderar um PS mais mobilizado e empenhá-lo numa trajectória politicamente mais ambiciosa e socialmente mais justa.

Será Costa um líder de esquerda, capaz de levar a cabo uma política de real combate às desigualdades e à pobreza, aos privilégios dos poderosos, à corrupção e aos interesses ilegítimos, de defesa do Estado Social e dos serviços públicos, de defesa do emprego? Talvez. E será capaz de fazer frente aos interesses financeiros que sequestraram o Estado, de defender Portugal na União Europeia, de construir na União as alianças necessárias para inverter as políticas que nos escravizam, de pôr em causa o Tratado Orçamental, de impor aos credores uma renegociação justa da dívida, de pôr sobre a mesa condições de permanência do euro que defendam o interesse nacional? Atendendo ao seu passado e às suas escassas e prudentes declarações políticas sobre estes temas, é muito pouco provável. E o drama é que, sem tomar estas últimas posições, não será possível levar a cabo aquelas primeiras políticas. [ O sublinhado é nosso]

Costa irá tentar navegar entre duas águas, enquanto for possível, tal como navegou entre as conjecturas de alianças à esquerda ou à direita. Se for governo, irá provavelmente adoptar políticas fiscais menos penalizadoras dos trabalhadores e políticas sociais mais generosas que o actual governo PSD-CDS e isso será melhor do que o status quo actual, mas será dramaticamente insuficiente.

  1. Pacheco Pereira

Ponto 6 da sua crónica. O acompanhamento jornalístico foi como habitual muito estereotipado, e profundamente conservador, salvo raras excepções. Sem novidade, lá vieram a “campanha sem ideias”, a “campanha de insultos”, a “luta de galos”, o “vazio de soluções para Portugal”, aquilo que de há muito tempo os media dizem de qualquer campanha política sem excepção. Ao mesmo tempo não dedicam uma linha a analisar qualquer documento programático, como fizeram com os de Costa e os de Seguro, enquanto davam título de caixa alta à mais pequena divergência dos candidatos. Sendo assim, por que razão é que esta campanha tão miserável, descrita com tanto nojo e fastio pela comunicação social, mobilizou muitos milhares de portugueses? (…)

  1. Agora é que vai ser difícil para António Costa e não é um mero problema de expectativas. É um problema de realidades. O objectivo do PS está longe de ser conseguido: o PS sem maioria absoluta pouco conseguirá no contexto actual. A não ser que seja capaz, o que é muito difícil, de fazer um acordo à esquerda, que esse sim mudava. Ou, em alternativa, unir todo o “contra” como Costa disse na campanha, assumindo o programa da Aula Magna. Mas, para isso, tem que mostrar que compreende a dimensão da nossa tragédia e é capaz de lhe responder. António Costa tem que ser capaz de transportar a mobilização que conseguiu no PS para o país. Não é fácil, sem rupturas claras, que até hoje não quis fazer. ( O sublinhado é nosso). “

Lamento, tudo isto para se ter dúvidas que o novo secretário-geral venha ou possa ser estruturalmente diferente do anterior. Pelas citações até nos parece que se receia que o novo secretário-geral, por incapacidade de sair dos livros igualmente, venha a ser um verdadeiro modelo de Murdoch. Temem isso, pelo menos, e um ou outro sinal nos agradecimentos indica isso mesmo.

Deu muito pouco, e diria até é muito pouco honesta, toda esta campanha para se ter esta montanha de dúvidas como resultado, com apenas uma certeza, o país precisa de caras novas, de políticas novas, de gente empenhada em assumir riscos, mas riscos na solidariedade de um destino comum, precisa da tal escola de marinheiros. Não foi nada disto que esteve em votação. Desse ponto de vista António Costa prestou um mau serviço ao país, porque sabia que do debate que estava a impor não seria o país que estaria em debate, o país, os seus problema, o seu futuro. Mostrou-se isso mesmo, foi isso que se provou. Seguro prestou um bom serviço demitindo-se e da forma que o fez, sem que disso tenha havido um reconhecimento mínimo que seja e seja de quem for. A História faz-se com Césares, faz-se com Brutus, diversos que sejam, a História lavrará sobre a clarificação do que foi feito, porque a História não parou em Roma. E cada um de nós aprenderá. Espero que não seja tarde. E por isso lhe digo, até amanhã camarada António José Seguro. Faça sua a lição de Hegel, é preciso transformar cada derrota em vitória, aprendendo sobre as razões pelas quais perdemos. E seguir em frente, nos debates que se seguirão e estes, em princípio, serão bem mais violentos do que os que se deram até agora, tanto quanto o país parece uma manta de retalhos cozida apenas por linhas muito frágeis e talvez até apenas imaginárias. Como sublinhei num texto enviado à Assembleia da República, pegando numa ideia de Brad Delong:

“Um ano e meio atrás, aqueles que esperavam um retorno até 2017 à trajectória do PIB potencial– o que poderia ser – calcularam que a Grande Recessão terias custado a finalmente à economia do Atlântico Norte aproximadamente 80% do PIB de um ano, ou seja, 13 milhões de milhões, em produção perdida. Se uma tal retoma começasse agora – um cenário muito optimista – significaria perdas de aproximadamente US $ 20 milhões de milhões. Se, como parece mais provável, a economia se comportar durante os próximos cinco anos como se comportou nestes dois últimos, então demorará mais de cinco anos para que estas se recuperarem e um enorme valor de $ 35 milhões de milhões de riqueza seria assim perdido.

Quando é que nós admitimos que é tempo de começarmos a chamar pelo seu verdadeiro nome o que nos está a acontecer ?”

Acho que esse tempo de verdade vai começar e espero encontrá-lo sem nenhuma cicatriz emocional de tudo isto e na linha da frente a combater por ideias e por um povo, por um país, talvez então com maior capacidade de correr riscos porque foi o facto de não se assumirem colectivamente estes riscos que – por não lhe permitirem assumi-los ou por ter tido medo de os assumir, dados os exemplos da História recente e com os quais também aprendeu – levou a que Portugal se mantenha no atoleiro em que nos encontramos hoje. Os outros, esses terão também aprendido e far-lhe-ão companhia na reconstrução do nosso país, reconstrução esta que até agora não se deu nem se imagina sequer quando se irá iniciar. Por isso, até amanhã camarada António José Seguro.

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[1] Para os loucos defensores desta hipótese recomenda-se o trabalho de Paul Krugman, The Theory of Interstellar Trade – Princeton University, Paul Krugman”, disponível em

https://www.princeton.edu/~pkrugman/interstellar.pdf. Agradecemos a informação da existência deste texto ao meu antigo colega Luis Lopes.

 

1 Comment

  1. A análise do quadro em que se jogam as grandes decisões políticas do país é perfeitamente correta e subscrevo-a. Sobre a questão do porquê Seguro ou porquê Costa, a conclusão do texto é que Seguro não foi pior nem melhor do que aquilo que Costa será ou poderá ser porque nenhum pode, tendo em conta o nossa inserção no Euro e na Europa, ser coisa nenhuma. No entanto, para usar a metáfora do TITANIC, de Seguro ficou claro que não conseguiria evitar o iceberg por a manobra de sucesso não estar prevista no manuais de comando dos grandes navios. Foi essa a conclusão do povo votante nas primárias do PS. Se Costa o vai conseguir ou não é uma incógnita. Mas os eleitores das primárias, como no poker, pagaram para ver.

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