…Quando começou a andar, ainda escutou nas suas costas estas palavras conclusivas: «Coitado: é um desgraçado sonhador!». Podia ser um título, em caixa alta, de um jornal diário, formato “tabloide”, redigido ao gosto popular, muito vulgar hoje em dia… A frase também podia ser a síntese das banalidades “filosofantes”, proferidas por qualquer corretor da Bolsa… Porém, a expressão «desgraçado sonhador», encerrava uma sólida e geral condenação!
E o homem pensou:- A vida não é ilusão nem ficção, todavia os sonhos e as ilusões fazem parte da vida.
Há que afirmar isto com recorte apropriado e moldura doirada, o homem tinha razão: – Os sonhos são a parte mais importante da vida, porque chegam a ser elementos necessários para construir a futura realidade. O sonho é a mais nobre expressão da vida, porque imagina o que pode acontecer a seguir, e trabalha nesse sentido.
O inconsciente raciocinante que chamou ao homem «desgraçado sonhador» acreditou, talvez, que a sua forma de pensar a vida, ignorando o sonho e evitando a ilusão, lhe proporciona uma visão mais realista e feliz da existência. No entanto, vivendo «um dia de cada vez», como se diz na estúpida linguagem do vulgo, essa pessoa priva-se da crença num futuro melhor e, por conseguinte, estreita os limites dos seus horizontes.
Na verdade, quando os homens sonham não são já cadáveres adiados, mas seres vivos que habitam no seio de uma ordem superior que pensa o amanhã e, na sua refutação do que é, do ordinário, afirmam-se pelo que deve ser, e não por aquilo que a corriqueira frase dos desiludidos e derrotados propaga a toda a hora: «É o que temos!». É necessário acreditar nos sonhos, pois eles são o futuro, são o que deve ser!
Quando os homens rejubilam, sofrem, lutam e morrem por aquilo a que as gordas toupeiras do positivismo chamam de ilusões (o amor ao próximo, a capacidade de perdoar, a ascese do espírito, a civilização e a cultura humanística), dão sinal de que são forças vivificantes de toda a Humanidade, porque criam a maior de todas as riquezas da Terra: – A flor mais bela, que é a realidade espiritual, que é a criação de novos mundos e sociedades melhoradas, onde o homem é irmão do homem!
Há pessoas que olham o alto e outras que apenas enxergam em baixo, mesmo frente ao seu nariz: – Há quem vibre na luz e quem vegete nas cavernas; há pessoas que têm asas no pensamento, enquanto outras apenas são portadoras de patas…
Quem vê mais longe, naturalmente sonha e cria futuro; quem vê apenas o que está frente ao seu nariz, vive esmagado pelas ninharias quotidianas e, sem um voo de asa, sucumbe a «viver um dia de cada vez», sem futuro à vista!
Eis uma história de «proveito e exemplo», a encerrar esta crónica de circunstância…
Um dia, em Paris, o poeta e escritor francês Villiers de l’Isle Adam (1838-1889), encontrou, por acaso, um antigo colega de escola que não via há muitos anos. O céu estava coberto de nuvens, e a chuva havia produzido uma grossa lama nos caminhos. O ex-colega que, entretanto, se havia tornado um membro da alta burguesia endinheirada, do cimo da sua soberba olhou com ar de compaixão o poeta com o fato no fio e físico de subalimentado, ergueu a mão em direcção ao céu e disse-lhe com ar sentencioso: «Tu, então sempre a olhar para as nuvens?». Villiers de l’Isle Adam, depois de ter olhado bem de frente o escarnecedor do céu, das nuvens, afinal de contas dos sonhos, baixou os seus olhos até ao passeio e levou o olhar para o meio do caminho lamacento, e respondeu: «E tu, meu antigo colega, sempre olhando para baixo, para a lama?».
Eis, pois, a continuada resposta de todo o «desgraçado sonhador» aos marteladores das ilusões, aos amantes do estreito realismo, aos compadecidos dos sonhadores porque, coitados, dizem, “não sabem cuidar de si mesmos”, obcecados a pensar no futuro, no nascimento de um mundo mais cristão, com suplemento de justiça económica e social. O sonho, quando é aspiração e antecipação de maior beleza e humanidade, é sempre vida! Mais: – É melhor vida!

