A CAMINHO DA GRÉCIA, A CAMINHO DA LIBERTAÇÃO DA EUROPA – A LUTA CONTRA A AUSTERIDADE – 3. O MODERADO OPTIMISMO NO INÍCIO DE 2015 [1], por DOMENICO MARIO NUTI.

Falareconomia1 Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota

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A caminho da Grécia, a caminho da libertação da Europa – a luta contra a austeridade 

 O moderado optimismo no início de 2015[1]

Nota de introdução

Uma ilustração e um artigo de Domenico Mario Nuti.

1) Ilustração

austerity macht frei

Escapou ou foi depois baleada com a bazuca de Mario Draghi, sob ordem da Alemanha?

 

Júlio Marques Mota

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O moderado optimismo no início de 2015[1]

Domenico Mario Nuti
Domenico Mario Nuti

Domenico Mario Nuti, 3 de Fevereiro de 2015

 

O mês de Janeiro de 2015 deu-nos diversas  razões para termos um certo  optimismo acerca das perspectivas de retoma económica da zona euro  e da Itália.

Em primeiro lugar, o reforço da tendência que se tem manifestado  da queda do preço do petróleo.  Desde meados  de Junho de  2014 até ao fim de Janeiro de 2015 o preço do produto bruto diminuiu, de facto, de 60 por cento, reduzindo  efectivamente os custos energéticos das empresas da zona euro,  não obstante a muito inferior  desvalorização do euro em relação ao dólar (do qual falaremos mais à frente).  Estimativas quantitativas do efeito desta redução dos custos sobre a taxa de crescimento do PIB são incertas e variam em torno  de 0,5%-0.8%, mas indubitavelmente o efeito positivo existe e não é desprezível.

O segundo motivo de moderado optimismo é a decisão de BCE do 22 de Janeiro passado sobre a flexibilização  monetária (Quantitative  Easing, QE), contudo feita também  com a desaprovação do presidente do Bundesbank Jens Weidmann e de outros representantes dos  países nórdicos em minoria: €60 mil milhões  por mês durante  19 meses, desde Março de 2015 até Setembro de 2016, e se necessário mesmo para além desta data, até quando se alcançar o objectivo de uma taxa de inflação da zona  euro  “vizinha mas inferior a 2 por cento”.

Este montante inclui outras intervenções já decididas anteriormente, pelas quais realmente não se trata de 1140 mil milhões mas de  cerca de 900 mil milhões adicionais. E o efeito surpresa (importante por exemplo recente na reavaliação do  franco suíço) foi diluído não desde há  meses mas sim   talvez  desde há  anos, cheio de discussões e de controvérsias.  Contudo o montante da intervenção foi também sempre superior às expectativas, que se situavam aproximadamente em 500 mil milhões pelo que até os próprios mercados ficaram surpreendidos. A hipótese,  por parte dos Bancos Centrais Nacionais,  de terem que assumir o risco de um eventual  incumprimento  sobre os 80% dos títulos do seu próprio país adquiridos pelo  BCE é um limite importante na  União Monetária mas  é  um preço aceitável para esta massiva  intervenção.

Em terceiro lugar, a desvalorização do euro que, depois de ter atingido a cotação de $1.11, se estabilizou em $1.13 (abaixo da taxa verificada quando se criou o euro que era  de $1.17  e bem distante do máximo histórico de 1.47), por diferentes razões: a  quantitative easing, a que podemos também chamar de abrandamento monetário,  do BCE; a expectativa de um aumento da taxa de juro  por parte do FED, várias vezes anunciada  e agora deferida provavelmente para  Junho próximo; assim como a  expectativa  – com ou sem razão – de um possível agravamento da crise grega e eventual saída da Grécia (Grexit), e esta desvalorização deveria ter um impacto significativo sobre a competitividade dos países-membros e por conseguinte sobre as exportações e o desenvolvimento, melhorando a posição relativa daqueles que como a Itália viram a produtividade do trabalho estagnar ou mesmo declinar na última década.  Mesmo aqui é arriscado fazer previsões sobre o impacto quantitativo da desvalorização sobre a taxa de crescimento do PIB , mas este efeito poderia ter uma ordem de grandeza de 0,8-1%..

Em quarto lugar,  a sensacional vitória de Alexis Tsipras e do seu partido Syriza nas eleições gregas no dia 25 de Janeiro, que pôs em questão a política da austeridade adoptada pelas  instituições europeias e sob a influência  hegemónica  da Alemanha,  como  sendo a única estratégia de resposta à Grande  Recessão  de 2007, em conjunto com as chamadas “ reformas estruturais”, um eufemismo que tem como objectivo  o desmantelamento do Estado Providência, a privatização/liquidação do património público e a redução a nada do que foram  décadas de  conquistas dos trabalhadores.  Os primeiros movimentos do novo governo grego foram tranquilizantes: a Grécia não tem nenhuma  intenção de sair do euro (por outro lado, isto é igualmente  preferido por  60% da população grega), nem de continuar a  insistir sobre posteriores  cortes na dívida pública   nem de pedir outros empréstimos.  No fim de Fevereiro deveria receber uma ajuda  de €2 mil milhões da União Europeia e de  €5 mil  milhões  do Fundo Monetário, embora agora apenas peça  €1.9 mil milhões do  BCE a título de reembolso dos juros  adicionais encaixados pelo  Banco sobre títulos gregos no seu portofólio.   Como o disse muito justamente o Ministro das Finanças Yannis Varoufakis, “uma União Monetária que reage a uma grave crise financeira com a concessão de créditos essenciais aos países em défice na condição de reduzirem o seu rendimento não é sustentável”. Varoufakis propõe em contrapartida “um  menu de swaps” dos títulos gregos com novos títulos de dois tipos: uma indexação  ao crescimento económico nominal, em que o serviço da dívida deveria,  por conseguinte, ser condicionado à retoma do desenvolvimento, e o outro “uma obrigação perpetua” que iria substituir os cupões do Tesouro gregos nas mãos do Banco Central Europeu. O orçamento publico grego permaneceria na situação de excedente primário, mas apenas um pouco mais modesto 1-1,5%, ainda que seja obrigado à decisão de  perseguir a forte  evasão  fiscal, sobretudo ao nível das grandes fortunas.   Desta maneira a Grécia poderia respeitar em substância  os compromissos existentes, criando ao mesmo tempo um espaço fiscal suficiente  para financiar as medidas de reconstrução do Estado Providência, de  aumento do salário mínimo e das  pensões de reforma, bem como os benefícios  em natura ou os subsídios (por exemplo electricidade e transportes) prometidos e em parte já decididos pelo  novo governo. De outra forma, diz Varoufakis, “tornar-se-ia  numa Grécia deformada em vez de uma Grécia  reformada”.  O plano de Varoufakis foi recebido favoravelmente na  sua apresentação na City em  Londres, e fornece uma  excelente e credível base   para discussões e negociações com as instituições europeias.

Porquê o carácter apenas moderado do meu optimismo  em face destes desenvolvimentos positivos?

Primeiro, a queda do preço do petróleo é o resultado mais de uma menor procura, da decisão dos sauditas em não baixar a  produção face à menor procura  do que do significativo crescimento da produção dos Estados Unidos,  obtida dos xistos betuminosos.  Mas a redução mina a base da sua causa: não somente se parou  a  investigação sobre  fontes de energia alternativas, mas ao preço  corrente  em redor de  $50 por barril  uma grande parte da produção corrente produz-se em situação de  perda e não é sustentável.  A  30 de Janeiro foi anunciado o encerramento de cem poços de  elevado custo nos Estados Unidos, o que rapidamente fez  aumentar o preço para além de $8 num só  dia.  E se o baixo preço do petróleo for mantido isto significaria  – e já se  têm manifestado –efeitos negativos sobre a procura de importações por parte dos produtores de petróleo e por conseguinte sobre o rendimento e o emprego  dos países exportadores.

Segundo a opinião de  numerosos observadores  e operadores económicos  o quantitative easing  do BCE   é considerado  um montante “demasiado pequeno e vindo demasiado tarde” em comparação aos $4500 milhares de milhões mobilizados pelo FED  já desde 2008, e mesmo tendo em conta o maior recurso  das empresas americanas ao crédito  e à utilização de  títulos para financiaram os seus investimentos, relativamente à maior componente de reinvestimento dos  lucros por parte das empresas europeias e, sobretudo, italianas.  Ainda que não haja duvidas de que o quantitative easing  – para além do impacto já referido  sobre a desvalorização do euro – facilitará  a recapitalização dos bancos que têm um excesso de títulos de dívida pública no seu portefólio.

Terceiro, a desvalorização do euro poderia tornar-se uma parte de uma guerra entre áreas monetárias à golpes de desvalorizações competitivas, com a correspondente desestabilização dos mercados financeiros.

Por último, por parte das autoridades económicas da Europa  e da Alemanha de repente passou a ver-se a manifestação de posições  rígidas e hostis a qualquer forma  de reestruturação ou mesmo de apenas re-modulação   da dívida grega.  Matteo Renzi já foi comparado a Alexis Tsipras mas infelizmente não somos assim  afortunados, eles têm em comum  apenas o facto de serem jovens; além disso a Itália tem  €40 mil milhões de créditos sobre  a Grécia, e o  nosso excelente Pier Carlo Padoan não tem nem a imaginação nem a tenacidade de Yanis Varoufakis.  Se por acaso Alexis Tsipras tem algo mais em comum  é com o nosso neo-Presidente  Sergio Mattarella: rapidamente após a sua eleição os dois eleitos  foram cada um deles visitar um monumento às vítimas dos atrocidades nazis, o que não pode ter entusiasmado Angela Merkel.  Os franceses olham; para alargar a brecha na austeridade europeia aberta por  Syriza deveremos esperar uma paralela  vitória do partido  Podemos nas próximas  eleições espanholas.

O perigo é que o jogo da galinha (1) entre alemães e gregos conduza a um desastroso choque  frontal, talvez sob a forma “de um accidental Grexit” (a expressão é de Wolfgang Munchau): o atingir-se  uma data limite primeiro que seja alcançado  um novo acordo, a perda do acesso da Grécia não somente ao Quantitative easing  mas também à liquidez de emergência  fornecida de BCE, uma fuga de capitais e uma corrida do público à retirada do dinheiro à vista dos bancos.  A este nível  uma severa crise de liquidez  poderia impor à Grécia a emissão de uma qualquer forma de moeda nacional, talvez inicialmente na forma   de bilhetes do Tesouro emitidos em paralelo à circulação do euro dado que este se tornaria  muito escasso: daí à saída é um passo e  muito curto.  Chipre esteve mesmo à beira desta  situação.  A possibilidade que esta saída acidental possa acontecer na  Grécia não pode ser completamente excluída  e seria catastrófica para toda a zona euro, contaminando primeiro Portugal, depois os outros países do sul, compreendendo neles a Espanha e a Itália.

O  meu amigo Marcello de Cecco faz-me notar  que a saída da Grécia da zona euro  poderia passar-se no modo descrito, mas seria então o resultado de uma precisa política de não querer ajudar a Grécia, e não o resultado de uma série  de fatalidade geradas pela situação, porque as formas  encontram-se sempre se as quisermos utilizar  e se se  refizerem  os prazos,  o que quer  dizer que não se teme a saída da Grécia e esta é pois o que se quer obter.

Em todo caso a eventual saída da Grécia da zona euro  – acidental ou deliberada  que seja – não pode ser de todo excluída e seria catastrófico para toda a zona euro , contaminando primeiro Portugal, seguidamente os outros países meridionais compreendendo a  Espanha e a Itália, podendo saír o tiro pela culatra à Alemanha  e aos outros países nórdicos.  Isto é mais do que suficiente para moderar o optimismo de qualquer cidadão.

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  1. Hoje, dia 5 de Fevereiro, Domenico Mario Nuti envia-nos a seguinte nota:

A  4 de Fevereiro o BCE decidiu que a dívida pública grega não seja mais  aceite como colateral,  a partir da próxima semana. Esta decisão pode  parecer uma indevida  interferência nas negociações da Grécia com a União Europeia,  mas deve ser considerado que a decisão: 1) está sem qualquer dúvida dentro dos limites dos poderes arbitrários do Banco; 2) é provavelmente uma parte do preço pago  por  Mario Draghi pela ampla dimensão da sua  Quantitativo Easing e 3) é mesmo uma forma de aumentar  a parada que poderia, em última análise, estar a favorecer a Grécia fazendo assim  aumentar o custo eventual da sua saída da zona euro para a Alemanha e para os outros falcões.  Depois de tudo isto, Yanis Varoufakis é um grande conhecedor da Teoria dos Jogos e deve saber o que está a fazer. (Veja – Rational Conflict, Oxford, Blackwell, 1991; Varoufakis Y. e S. Hargreaves-Heap, Game Theory: A critical text. London and New York, Routledge, 2004.  Pelo menos, isto é o que podemos ainda esperar.

Para uma análise em que se expõe este terceiro ponto veja-se o excelente texto de  Coppola, What on earth is the ECB up to? e outros posts que ele próprio indica no final do seu texto.

Domenico Mario Nuti, 4 e 5 de Fevereiro de 2015

[1] Uma versão curta deste artigo é publicada hoje, sexta-feira,  em Itália conjuntamente  pela Revista  sbilanciamoci.info e  pelo Il Manifesto.

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Imagem que pessoalmente acrescentamos a esta nota de Domenico Mario Nuti  e retirada do texto de Coppola.

grécia - I

Excerto do texto de Coppola:

“O BCE está a agir  muito além do seu mandato no sentido de influenciar as negociações entre os Estados-membros da zona do euro em relação aos termos e  às condições sob as quais os Estados-Membros concedem empréstimos aos seus parceiros em dificuldade. Isso não tem nada que interferir na política orçamental: se o governo grego decide praticar excedentes orçamentais  de 1,5% em vez de 4,5%, aumentando  os  salários mínimos e criando  muitos empregos no governo, isto não é da conta  das actividades do  BCE.

As falhas da política monetária do BCE são uma  legião: devem primeiro  colocar a sua própria casa em ordem, em vez de estarem a interferir com a condução da política orçamental dos Estados-membros.  E pior,  a sua persistente interferência na política orçamental representa um  claro conflito de interesses, como o referiu o  Advogado-Geral do Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias em relação ao programa das OMT. O BCE não deve  de todo ser um membro da Troika e certamente não deve utilizar  as mudanças na política orçamental  feitas por  um governo soberano democraticamente eleito – mesmo um governo que acaba de chegar ao poder e que herdou uma economia em farrapos e  com um enorme fardo dívida – como justificação para limitar a liquidez do sistema bancário do país. ..

A política monetária nunca deve ser utilizada para fins orçamentais  ou políticos. Nunca.

Há aqui algo que não faz muito sentido…”

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(1) Nota do Tradutor. Jogo da galinha (ver Wikipédia):   Uma espécie de dilema do prisioneiro. Vale a pena ler o que é este jogo e liga-lo ao texto de Domenico Mário Nuti e à situação presente. Um bom exercício de raciocínio vindo  da teoria dos jogos é o que aqui deixo aos leitores do blog A  viagem dos Argonautas.

“O jogo da galinha é um jogo simétrico, baseado na história de dois rapazes que disputam o amor de uma garota.

O nome do jogo tem relação com o fato de que, nos Estados Unidos, as pessoas consideradas fracas ou perdedoras são chamadas de “galinha” (chicken).

Os participantes do jogo passam por uma competição. Cada um posiciona o seu automóvel, cada um em lados opostos, numa pista em linha reta com uma marcação na metade da pista. Ambos os carros se posicionam nas pontas da pista, numa mesma distância da linha de marcação, ou seja, frente a frente, e devem arrancar ao mesmo tempo. Os jogadores possuem duas opções: desistir ou não desistir. Aquele que desiste, desvia do caminho; o que não desiste, segue em frente. Caso os dois oponentes não desistam, perdem tudo, incluindo a vida. Se apenas um desiste, o que não desiste ganha [o respeito dos seus amigos], e o outro perde. E, se ambos desistem, ambos perdem o respeito dos amigos, mas ainda têm os seus carros e suas vidas.”

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