PORTUGAL NA ENCRUZILHADA – SOBRE AS MENTIRAS QUANTO À SAÍDA DA CRISE, SOBRE OS NOVOS VICHY IMPLANTADOS POR TODA A EUROPA, TUDO SOB A “VIGILÂNCIA APERTADA” DE BRUXELAS, TUDO SOB O COMANDO DE BERLIM. – UMA CRÍTICA QUE PODERIA SER APRESENTADA AO NOSSO PRIMEIRO-MINISTRO SE VALESSE A PENA – por JÚLIO MARQUES MOTA – I

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Sobre as mentiras quanto à saída da crise, sobre os novos Vichy implantados por toda a Europa, tudo sob a “vigilância apertada” de Bruxelas, tudo sob o comando de Berlim.

Uma crítica que poderia ser apresentada ao nosso Primeiro-ministro se valesse a pena

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Por Júlio Marques Mota

 I. Introdução

Em tempos escrevemos em conjunto com colegas meus dois artigos[1] que tinham como tema de base a situação de Portugal numa encruzilhada, ou seja, por um lado tem estado esmagado pelo euro, pelas estrutura da economia real que este impunha, pela divisão internacional do trabalho que a Alemanha abrigada pelo euro estabelecia de modo a permitir-se os escandalosos excedentes da balança comercial de que tanto se fala, e, por outro lado, Portugal estava igualmente esmagado pelos países emergentes que com o apoio da Comissão Europeia estavam a minar o papel dos países ditos agora países periféricos no seu processo de integração, esvaziando-o até. Dito de uma outra forma, a crise que se atravessou tinha como base as distorções criadas na economia real, que se ampliavam depois na esfera financeira. A esfera financeira, desregulada como estavam igualmente as trocas comerciais, ampliou ainda mais estas distorções, sobretudo pela via da praça financeira de Londres, a City, e, portanto, a crise rebenta por este lado. Nesta sequência e como resposta às supostas necessidades da finança, instauraram-se as políticas de austeridade e os desequilíbrios na economia real ampliaram-se dramaticamente. Com estas políticas o desemprego aumentou e a precariedade disparou na proporção inversa em que a confiança dos agentes económicos se esfumou. E o efeito de repercussão entre as duas esferas não deixou de se repercutir e de se ampliar, colocando-se agora claramente a Democracia em perigo, até porque a classe política em toda a Europa se reptilizou na sua vassalagem à potência que se colocou no xadrez político como a grande vencedora da crise: a Alemanha. Assim, temos novos Vichy’s mas agora por quase toda a Europa, em quase todas as capitais da União Europeia, com excepção actualmente de Atenas.

Desde a publicação desse artigo, o tempo foi passando e a crise europeia passou a ser considerada uma crise da dívida pública de alguns países periféricos, os ditos PIIGS, Portugal, Itália, Irlanda, Grécia Espanha, mas nunca uma crise dos aparelhos produtivos nacionais, e como tal, o resultado também da actual estrutura da União Europeia. Numa primeira fase discutia-se até se devia haver apenas um I ou dois I e se um I apenas, questionam-se os Italianos e os Irlandeses se ele se referia a um ou ao outro pais, com os irlandeses a dizer que o I se referia à Itália e com os italianos a dizer que o I se referia à Irlanda. Os media e a nossa classe política tudo fizeram para que se mantivesse essa discussão e não a questão de fundo, o que é que estava profundamente errado em tudo isto e por detrás de tudo isto, ou seja não se discutia a estrutura da União Europeia que até intencionalmente se desprotegeu da concorrência selvagem da economia mundial globalizada. Entretanto e para cúmulo de tudo isto o homem que manipulou as contas da Grécia ou que é o responsável por tal, como director da Goldman Sachs para a Europa naquela altura, sobe a Presidente do BCE.

É hoje evidente para toda a gente que a crise apareceu como crise bancária primeiro, na Irlanda e na Islândia, com efeitos imediatos na Inglaterra e na Holanda, depois como crise da dívida publica com os resgates impostos à Grécia, à Irlanda, a Portugal, a Chipre e quanto à Espanha e à Itália as exigências foram muitas delas colocadas de forma bem mais indirecta. Naturalmente aconteceu assim pois na União Europeia a força desigual acarreta tratamento desigual. Tem sido assim. No caso presente, permitiu-se que a Espanha, por exemplo, tivesse um tratamento diferenciado no seu tratamento da banca relativamente a todos os outros resgatados. Crise da banca, crise da dívida pública, crise dos défices externos, e o caminho para a austeridade estava traçado e imposto. Entretanto o BCE através do seu braço de guerra, a Troika, tentou salvar ao máximo os bancos ingleses, franceses e sobretudo os alemães. Fazendo o quê? Transpondo créditos privados para créditos públicos, dívida privada para dívida pública e impondo as políticas de austeridade a praticamente todo o continente. Os contribuintes haverão de pagar, mas a quem emprestou o dinheiro para essa transposição, basicamente a Alemanha e, como assinala Pettis, quem irá pagar são os trabalhadores de todos os países europeus, incluindo os alemães, e a classe média dos credores e dos devedores! Quando esta última parte se realizar, o perigo de uma grave convulsão na Europa fica eminente.

Neste processo muito resumido, Frau Merkel contou com um aliado muito importante; Sarkozy. E a razão era simples, enquanto chovesse nos outros países ele, Sarkozy, estaria abrigado. Um criado portanto, a segunda economia da União Europeia, ao serviço dos desejos de Frau Merkel. Sarkozy por isso mesmo caiu devido à politica económica seguida. Com as eleições francesas um candidato se perfilou imediatamente para a vitória, minto, para substituir apenas Sarkozy, na campanha de subserviência a Frau Merkel, calçando as botas de Sarkozy. E esse candidato era François Hollande, e as botas foram ajustadas ou o pé de Hollande às botas de Sarkozy. François Hollande ganhou porque organizou uma campanha contra a alta finança e a favor do crescimento económico, a única via aliás de se sair da crise. Propunha-se forçar a União Europeia a acabar com esta política absurda de austeridade generalizada, propunha-se modificar uma das armaduras que condiciona legalmente a saída da crise, o Pacto de Estabilidade e Crescimento. Uma onda de esperança percorreu toda a Europa. Sol de pouca dura. Naturalmente assim ou não fosse ele um defensor do travão da dívida, da modificação do PEC para aferrolhar ainda mais a política orçamental com essa medida. No dia seguinte às eleições, estava a deslocar-se a Berlim, para o beija-mão a Frau Merkel. E a seguir substituiu zelosamente Sarkozy, o mesmo é dizer, tudo continuou a degradar-se tal como antes. O socialismo foi posto na gaveta, chegando-se mesmo a dizer com o seu actual primeiro-ministro que a esquerda podia morrer. E a consequência podemos vê-la num relato da revista Causeur de onde se diz:

Valls parece ter ligeiramente perdido os pedais desde este último fim-de-semana, entre uma reunião no velho Limousin vermelho de Guingouin que ameaça mudar de terreno político e o Grande encontro I-tele Europe 1 -Le Monde: “A minha angústia – posso eu falar da minha angústia, do meu medo pelo meu país? […] Não tenho medo por mim. Tenho medo, pelo meu país, tenho medo que ele se despedace votando na Frente Nacional”. (…)

Manuel Valls não é um cretino, Manuel Valls está mas é em vias de entrar em pânico, repetimo-lo. Já tinha anunciado em tempos que a esquerda podia morrer e Françoise Fressoz deu-lhe razão no Le Monde de sábado falando “de uma esquerda suicida”.

Suicida porque não faz uma política de esquerda? Nada disso! Suicida porque a esquerda se apresenta dividida nestas eleições departamentais. Apenas que, Manuel Valls compreendeu-o muito bem mas nunca o dirá, deixa de ser possível falar “da esquerda”. O que se passa, não é a divisão, é muito simplesmente que há doravante uma esquerda que não se reconhece mesmo nada no PS, que não tem mais nada de comum com este Partido. Só haverá possibilidades de bilhetes PS-PC apenas em menos de cinquenta cantões na França. Por toda a parte nos outros lugares ou quase, os socialistas deverão ter de enfrentar as candidaturas comuns Front de Gauche /EELV. Ver-se-á o que é que isto irá dar, mas isto assemelha-se diabolicamente a um esboço de Syriza. E o pânico de Manuel Valls não será tanto, como ele diz, de ver Marine Le Pen ganhar em 2017 mas sim o de ser o Papandréou do PS, em França. Por outras palavras, o seu pânico deve-se ao facto de ver o partido nascido em Epinay em 71 conhecer o destino do PASOK, e tornar-se um montinho com uma bandeirinha a assinalar que é o que resta como representação residual do que foi o social-liberalismo. Porque ao mesmo tempo, por um lento deslizar tectónico, muito menos espectacular mas talvez mais duradouro que o fogo-de-artifício FN, uma outra esquerda – de esquerda – ocupará um espaço deixado tragicamente vazio por agora.”

Repare-se, a jornalista no jornal Le Monde, supostamente de esquerda, não questiona as políticas seguidas por Valls, crítica no fundo é as esquerdas que não se aliam ao PS e que assim serão, implicitamente assim para a nossa jornalista de esquerda, estas mesmas esquerdas que serão os coveiros do PS, os responsáveis portanto dessa morte anunciada do PS! Inimaginável, a lavagem ao cérebro produzida a partir de Bruxelas e de Berlim. Os répteis dos média em acção!

E o processo foi mais ou menos semelhante em todo o lado, Espanha, Itália, Grécia, Irlanda, Bélgica, Holanda, Chipre, Malta, Portugal e assim sucessivamente. Servidores a Berlim, produzem-se e reproduzem-se como cogumelos. Os novos governos tipo o de Vichy de outrora, instalam-se agora no século XXI pelas capitais europeias. A situação é de tal modo grave que um deputado europeu, Manolis Glezos da Grécia, declarou recentemente:

Para, a moeda comum e a política económica comum foram os instrumentos que, com o apoio da NATO e dos EUA, levaram à hegemonia europeia actual.

“Isso parece diferente mas sê-lo-á na verdade? O que e a Alemanha não chegou a fazer na época pelas armas, ou seja, criar uma Europa alemã, está a fazê-lo hoje em dia com o poder económico e a ajuda dos EUA e dos outros vencedores da 2ª guerra mundial – com a exclusão dos soviéticos, naturalmente. Isto é mais que evidente. A guerra fria deu aos EUA e à sua criação, a NATO, a possibilidade de impor a sua vontade à Europa. E o fruto desta vontade, é a Alemanha actual”

Para alcançar este objectivo central, o de uma Europa alemã, todas as manipulações foram possíveis, desde os multiplicadores negativos a dizer que com a austeridade se enriquece porque a austeridade faz as economias crescer [2] aos multiplicadores muito baixos, a dizer que os ganhos são superiores às perdas com a aplicação das políticas de austeridade, desde os pedidos de desculpa do FMI por se terem enganado no cálculo dos impactos negativos da política de austeridade mas com a condição de que fique tudo na mesma, desde um Vitor Constâncio que vai à Grécia, a Atenas, criticar a estrutura da União Monetária mas reafirmando que não se deve mudar de rumo, até às miragens de que a crise já passou, tudo foi utilizado, todas as manipulações foram criadas. De tudo isto estamos já cansados de escrever.

Mas entretanto algo mudou: na Grécia o Syriza ganhou. E ondas de choque começam a propagar-se pela Europa contra a ocupação alemã. Aliás a citação sobre o que se passa em França agora mesmo já dá sinal desses mesmos ventos. Dessas mudanças já o Bundesbank, centro dc pilotagem da politica de ocupação alemã, deu conta como se ilustra com o seguinte gráfico:

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Toda a movimentação de direita ou da esquerda oficial é agora possível e deu-se a partir da contestação desencadeada pelos homens do governo grego, sobretudo a partir de 20 de Fevereiro conforme demos conta numa carta à Presidente da Assembleia. As declarações de Passos Coelho são espantosas, como por exemplo, a ideia de que Syriza representa um conto para crianças. Nada mais, e por isso pode nas reuniões internacionais, pode e deve o Syriza ser combatido. Significa isto que a nossa posição coincida com a da Alemanha? Tanto melhor, temos as mesmas ideias dos grandes e independentemente deles, uma honra para Portugal porque este vai no bom caminho, ao ir no sentido oposto ao de Syriza. A verdade oficial de que a austeridade como resposta à crise funciona, e funciona no actual quadro da crise, com todos a fazerem o mesmo, a política de austeridade, com todos a quererem obter excedentes na balança comercial, pela concorrência via preços, de uns contra os outros! A quadratura do círculo em política económica transformada em verdade ao canto da esquina. A mentira como prática política e elevada ao extremo, é o que disto se pode dizer.

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[1]Júlio Mota, Luís Lopes and Margarida Antunes, “The Portuguese economy at the cross roads of the euro and globalization”, in: Hansjörg Herr, Torsten Niechoj, Claus Thomasberger, Achim Truger e Till van Treeck (eds.), From crisis to growth? The challenge of debt and imbalances, Marburg, Metropolis Verlag, 2012, pp. 463-483, Berlim 2012. Veja-se igualmente dos mesmos autores, “As encruzilhadas da economia portuguesa: da economia global ao Memorando de Entendimento”, in: Júlio Mota, Luís Lopes, Margarida Antunes (orgs.), Perspectivas para uma outra zona euro, Coimbra, Coimbra Editora, 2014, pp. 211-250;

[2] Não esse o discurso de Passos Coelho em tempos?

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