Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Syriza deve ficar à esquerda da linha – o que está em jogo é bem mais do que a própria Grécia
Bill Mitchell, Syriza must stay left of the line – more is at stake than Greece
Bilbo Economic Outlook, 24 de Março de 2015
(CONCLUSÃO)
…
Os chamados remédios estruturais pelo lado da oferta.
Continuando a persistir o desemprego em altos níveis, em breve, teremos a entrar em cena o sub-emprego.
Este é o mundo em que nós vivemos hoje.
O problema é que a concentração de meios de comunicação, os milhares de milhões dados a centros de estratégia de direita e os programas académicos bombeando figuras como as que incorporam as agências económicas multilaterais (como o FMI), Comissão Europeia; tesouros e bancos centrais, têm-se entranhado de tal forma no Groupthink e de modo tão penetrante que pouca alternativa ao debate é possível.
Eles têm sufocado o espaço político disponível aos partidos social-democratas e infiltram-se mesmo nas suas fileiras. Abundam exemplos de mudanças ideológicas dentro de movimentos sociais democráticos durante a década de 1970 e no início dos anos 80.
Na França, por exemplo, François Mitterrand – mudou de forma diametral oposta depois que ele apresentou um programa de austeridade neoliberal em 1984-84. Ele sempre rejeitou o anterior plano Barre apresentado em 1976 pelo primeiro-ministro francês Raymond Barre, sob o Presidente Valéry de Giscard d’Estaing, que foi o primeiro regime monetarista no mundo.
A mudança operada por Mitterand mostrou quanto este político tinha mudado desde os seus dias de ‘Keynesiano’ Gaulista.
O que me leva a Syriza – em termos de minha tese de que se corre o perigo deste partido danificar qualquer esperança de um regresso aos regimes sociais-democráticos e progressistas pelos próximos anos até.
Havia um artigo interessante na revista jacobina de ontem (23 de Março de 2015) – O tempo não está do nosso lado – que assenta muito nesta questão.
O artigo do académico londrino Stathis Kouvelakis dá-nos o melhor registo do que está a acontecer na Grécia e entre o novo governo grego e os seus donos europeus.
Este argumenta e considera que os políticos de Syriza estão-se a envolver-se numa campanha dos “media de massa “para proclamar uma “vitória” após as negociações de 20 de Fevereiro com o Eurogrupo.
Kouvelakis diz-nos:
Os gregos defendiam que não haveria nenhuma austeridade adicional no espaço de quatro meses de duração do acordo, o problema da liquidez que trouxe o sistema bancário para a beira do colapso seria temporariamente resolvido e o governo teria algum espaço de manobra nas suas preparações para o conjunto das novas negociações a haver em Junho sem ter que abandonar os seus objectivos estratégicos. Não constitui uma derrota, consequentemente, mas uma retirada táctica que funciona a favor do lado grego.
Kouvelakis conclui:
Mas mesmo sem entrar numa análise detalhada dos compromissos assumidos pelo governo grego, ao assinar o acordo, é claro que não demorou muito tempo antes de ter verdadeiramente rejeitado os principais pontos do argumento anterior… ficou claro que o governo estava de mãos atadas…
Como consequência, durante o primeiro mês do governo de esquerda, prevaleceu um período de inacção legislativa sem precedentes, uma reflexão vívida sobre uma “gaiola de ferro”, longamente preparada naquilo que a União Europeia (UE) tinha imposto sobre os gregos indisciplinados…
Em suma, isso significa que as medidas de redistribuição que podem proporcionar um alívio genuíno para a classe trabalhadora e para as outras camadas populares e permitir a Syriza estabilizar as suas alianças sociais, são adiadas indefinidamente.
Ele também diz que os primeiros meses de Syriza já “realçaram as contradições do programa Tessalónica com base na qual ele foi eleito e que era para ser posto em prática e sem negociação.”
Como a carta de Costello mostra claramente, a Troika não vai deixá-los fazer seja o que for de “unilateral” – ou seja, que o governo grego governe ele próprio e nos melhores interesses do seu povo e de modo consistente com o mandato para que foi eleito.
Em seguida, apresenta a sua hipótese principal:
O plano — ou melhor, a gama de estratégias — actualmente a ser analisada pelos europeus pode ser resumido da seguinte forma: ou accionar a curto prazo, o colapso do governo de Syriza, ou, e isto parece ser a opção predominante, arrastá-lo para uma nova retirada estratégica em Abril, com a qual se preparará o terreno para uma capitulação final em Junho.
Isto é consistente com a forma como se comporta o Eurogrupo, a surpreendente intervenção do Presidente do BCE “não, não, não”, as conferências de imprensa tão ao gostos de Wolfgang Schäuble, Angela Merkel e as arrogantes cartas de Costello.
SYRIZA foi apanhado numa “armadilha mortal” porque se recusou a avançar a alternativa óbvia – a saída.
Isto é parte de uma outra vertente da demissão da esquerda na Europa que nós iremos explorar no nosso livro – a obsessão das esquerdas educadas na Europa para com o conceito de “uma grande Europa” ‘ como expressão de modernidade e da sofisticação.
Estas esquerdas são incapazes de ver que a forma pela qual aderiram à criação desta ‘Europa’ é a antítese da sofisticação. Esta criação tem criado o aumento da pobreza, o desemprego em massa e gerou um reavivar dos movimentos políticos do tipo fascismo populista.
A menos que Syriza mude o diálogo interno grego para explicar às pessoas sobre a opção de saída e sobre as oportunidades daí resultantes para se recuperar a sua soberania monetária e se poder conduzir a nação a sair da armadilha de austeridade, caso contrário vai ser espremido pelo Eurogrupo até se tornar mais um veículo ‘social-democrata’ para a austeridade e para a redistribuição de rendimento , dos salários para os lucros.
Ele será, portanto, ou levado ao colapso pelas tensões internas ou tornar-se um servo dos austeritários. De qualquer forma, a sua anterior narrativa progressiva será desacreditada e a mentalidade de TINA neoliberal sairá reforçada.
Kouvelakis diz que Syriza está a travar uma “guerra” – e ele cita, aprovando, o ministro do Interior grego:
… o país está em guerra, uma guerra social e de classes contra os seus credores “e que nesta guerra “não andaremos como escuteiros alegres disposto a continuar as políticas do memorando.”
Ele exorta o Syriza a utilizar este tipo de linguagem e de se abster de utilizar “uma linguagem de optimismo superficial que cria ilusões e causa confusão que amanhã nos pode sair cara. “.
Ele considera que:
Deste ponto de vista, a proposta mais razoável é uma saída negociada do euro, que poderia ser combinada com uma desvalorização de uma grande parte da dívida e libertaria assim ambos os lados dos efeitos negativos de uma Grexit forçada e da preocupação sem fim sobre uma insustentável dívida grega.
SYRIZA precisa de abordar isto formalmente com o povo grego e acabar com as operações de relações públicas e com as contorções de retórica”.
Conclusão
A parada é muito alta. A esquerda tem um registo muito lamentável nas últimas décadas no que se refere a sua resistência à hegemonia da classe dos detentores do capital (e as suas elites financeiras) e aos políticos e aos “mandarins” que são pagos bem mais do que valem como autoridades.
Syriza é como uma linha na areia. Eu espero que eles permaneçam no lado esquerdo da linha e restaurem a esperança que os governos sociais-democratas conduziram até há 3 décadas atrás antes de terem sido capturados por uma ideologia que a estes é hostil.
Bil Mitchell, Syriza must stay left of the line – more is at stake than Greece. Texto disponível em:
http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=30500
Publicação autorizada pelo autor.
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Para ler a Parte III deste trabalho de Bill Mitchell, Syriza deve ficar à esquerda da linha – o que está em jogo é bem mais do que a própria Grécia, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:
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