SYRIZA DEVE FICAR À ESQUERDA DA LINHA – O QUE ESTÁ EM JOGO É BEM MAIS DO QUE A PRÓPRIA GRÉCIA – por BILL MITCHELL – III

Falareconomia1

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

mapagrecia

Syriza deve ficar à esquerda da linha – o que está  em jogo  é bem mais do  que a própria   Grécia

Bill Mitchell, Syriza must stay left of the line – more is at stake than Greece

Bilbo Economic Outlook, 24 de Março de 2015

(CONTINUAÇÃO)

No meu livro de 2008 escrito com  Joan Muysken – O Pleno emprego foi  abandonado – abordámos o consenso do pós Segunda guerra mundial em termos do que poderíamos chamar um quadro de trabalho para o pleno-emprego. Nós justapusemo-lo com a visão neoliberal que  pode ser vista, em contra-ponto,  como um quadro de trabalho para a plena empregabilidade.

A Grande Depressão ensinou-nos que, na ausência da intervenção governamental, as economias capitalistas têm  períodos longos com tendência para  o desemprego, a experiência da segunda guerra mundial mostrou que o  pleno-emprego poderia ser mantido com uma utilização  dos défices orçamentais.

O crescimento do emprego que se seguiu à Grande Depressão era uma resposta  directa às necessidades da despesa que acompanharam o início da guerra  em vez de terem sido  os remédios neoclássicos falhados que tinham sido tentados durante os anos 30.

O problema que teve que ser enfrentado  pelos governos no fim da guerra  era o encontrar uma maneira de transpor a economia de pleno emprego em tempo de guerra com extensos mecanismos de controlo  civis e a perda de liberdade  para um  modelo  de economia de paz e inteiramente dedicado ao pleno emprego.

Esse contexto solidificou a centralidade dos Partidos Sociais Democratas.

A arquitectura  das economias pós segunda guerra mundial  no campo económico e social  estava baseada em três pilares  principais. Primeiramente,   o pilar económico  definido  por um empenho total no objectivo  no pleno emprego.

Em segundo lugar, o acordo sobre o pleno-emprego  (o primeiro pilar económico ) era suportado  pelo desenvolvimento do Estado-Providência   que definia  como sendo  obrigação do Estado o fornecimento de  segurança a todos os cidadãos. A cidadania significa  que a sociedade tem  uma responsabilidade colectiva de se assegurar e garantir portanto  que o bem estar da população  tem  uma alta prioridade.

Este pilar redistribuitivo   foi concebido  para  melhorar os resultados gerados pelos  mercados e definia muitas  das intervenções do Estado a favor da equidade . Reconhecia-se com ele  que o mercado livre era amoral e que as  intervenção sob a forma de apoios  sobre os rendimentos mais frágeis e de normas sobre os salários era uma parte necessária de uma sociedade evoluída, sofisticada.

Esse conceito substituiu a dicotomia que tinha sido construída previamente entre  os pobres merecedores e os que o não eram. O pilar redistributivo reconheceu que a economia mista  (com  um grande mercado como  componente) daria origem  a resultados pobres para alguns cidadãos, principalmente por causa  do desemprego.

Os programas de pagamentos extensivos de transferências foram projectados para fornecer o apoio de rendimento aos indivíduos e aos grupos desfavorecidos. Mas este apoio – como notámos – era considerado ser efémero dado o compromisso de se  alcançar o pleno emprego. .

Em terceiro lugar, o Pilar Colectivo  forneceu a base filosófica  para a estrutura do pleno-emprego  e foi baseada nos direitos intrínsecos de cidadania.

Os direitos da cidadania significam que os indivíduos têm  acesso a um sistema  de distribuição (através dos pagamentos de transferência) independente dos  resultados do mercado.

Além disso, um sector público profissional fornece   serviços normalizados a um nível equivalente a todos os cidadãos como um direito de cidadania.

Estes incluíram os serviços de emprego do sector público, a saúde pública e os sistemas de educação, de assistência jurídica e uma gama de outros serviços.

Mas este quadro quebrou-se, porque o sistema falhou ? Esta é a hipótese de  Notermans e, basicamente, a hipótese  que sustenta  a chamada ‘abordagem liberal’   (nas palavras de Noterman) para quem  ” os  fortes e generosos  acordos no quadro do Estado Providência, um forte movimento sindical e uma gestão política extensiva da economia minaram  as bases em que assentava a prosperidade económica”.

A resposta é que o quadro não quebrou  nem  falhou, mas simplesmente porque   este quadro foi usurpado por uma aparecimento  das ideias que tinham estado a fermentar durante  todo o período do pós Segunda Guerra Mundial.

O sector empresarial, a classe endinheirada, estavam continuamente a lutar  para deslocar o pêndulo a seu favor como no caso do pleno emprego ou dos quadros legislativos criados para  diminuir a desigualdade  dos rendimentos  e em que se deu igualmente algum poder aos trabalhadores no mercado de trabalho.

Os empregadores ressentiam-se de uma partilha do  rendimento  nacional mais justa entre trabalhadores e capital. Mas dada a experiência dos anos 30 e 40 anos, onde as sociedades lutaram contra as ditaduras, os partidos social-democratas tinham espaço para se movimentar, porque os cidadãos tinham a força que lhes garantia as idas às urnas.

O ódio dos empresários por uma maior participação sindical  e pela melhoria havida na repartição do rendimento  era assim contido   pelo  poder do voto – nós gostaríamos de  ter os  salários crescentes, melhores serviços públicos, educação de massa, hospitais públicos e a capacidade de obter um emprego sempre que desejamos trabalhar.

Os empregadores ainda, em última análise, estavam  aos comandos do governo  mas encontraram  limitadas oportunidades para serem  caprichosos  e manterem as remunerações salariais muito baixas e com  muitos locais de trabalho a funcionarem perigosamente , até porque tudo isto  estava sob a alçada do  controlo do Estado, como mediador dos conflito de classes.

Os capitalistas  financiavam centros universitários para produzir uma infinidade de material supostamente científico  com a finalidade de mostrarem  quão perigosos são os sindicatos ou ainda para mostrarem como é que os  salários a subirem  matam o  crescimento,  etc. Durante muito tempo não houve muita coisa que tenha mudado, excepto durante o período de pleno emprego,  período este em que houve  crescimento real dos salários (de acordo com produtividade)  o que tornava muito difícil apresentar  um caso em que se mostrasse que o desastre estava prestes a acontecer .

Tudo isso mudou quando os árabes retaliaram contra agressão sionista e levaram à forte e repentina subida dos preços do petróleo em 1973.

A eclosão das hostilidades no Oriente Médio em Outubro de 1973 (a guerra entre árabes e israelitas ) foi acompanhada pelo embargo do petróleo imposto pela Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP).

Alguns dias depois, em 16 de Outubro, as nações árabes aumentaram o preço do petróleo de 17 por cento e indicaram que cortariam  a produção em 25% como parte de uma alavancada retaliação contra a decisão do Presidente dos EUA para fornecer armas para Israel.

O preço do petróleo aumentou cerca  de três vezes no prazo de oito meses.

O evento político foi explorado pela crescente literatura de economistas conservadores que falava sobre os perigos do estado de bem-estar social e do pleno emprego – estes argumentavam que estas políticas resultariam na aceleração da inflação.

Os próprios modelos económicos utilizados  são espúrios (e absurdos), mas foi o surto inesperado da inflação associado com a crise do petróleo que permitiu que os governos fossem enganados assim como os seus  eleitores, levando-os a   acreditarem  que a inflação foi o resultado directo do pleno emprego e da equidade salarial.

O monetarismo (defendido por Milton Friedman e pelos seus colegas) deslocaram o  pensamento keynesiano como o paradigma dominante de política económica, e os monetaristas ocuparam o seu lugar. Como é que eles se infiltraram  no debate europeu é uma história interessante e fará parte de narrativa do nosso livro.

A crescente aceitação do monetarismo e a sua contraparte dos seus novos clássicos não foi baseada  numa rejeição empírica da ortodoxia keynesiana, mas esteve de acordo com Alan Blinder em 1988:

… em vez de um triunfo à priori  da teorização sobre o empirismo, de uma estética intelectual sobre a observação e, em certa medida, da ideologia conservadora sobre o liberalismo. Não foi, numa só expressão,  uma revolução científica à Kuhn. 

A referência a uma revolução científica kuhniana significava que não havia nenhum conhecimento superior no monetarismo que deslocasse quaisquer  posições errantes  do paradigma keynesiano.

Foi  uma espantosa apropriação do poder praticada pelos conservadores que passaram então a  enganar os cidadãos levando-os a pensar que os keynesianos estavam a fazer  “as coisas ficarem piores” (nas palavras dos Notermans).

O certo era que o problema (e continua a sê-lo)  da coincidência entre o desemprego e o aumento da inflação na década de 1970 não era um problema de excesso de procura.  O certo  é que a instabilidade de preços veio pelo  lado da oferta, tal  como os xheiks  da  OPEP fizeram subir  os preços do petróleo.

A resposta política de cortar na despesa  agregada e, portanto, provocando o aumento do desemprego foi exactamente a resposta errada. Os  monetaristas exploraram esse erro de política e afirmaram que ele demonstrava  uma falha categórica da abordagem keynesiana.

Quaisquer que fossem os remédios  keynesianos propostos  para reduzir o desemprego eram  recebidos com escárnio pela maioria  dos economistas profissionais  que tinha abraçado o monetarismo e as suas implicações  políticas. Eles pretenderam que a economia tenderia sempre a regressar a uma determinada  taxa de desemprego natural    o que nunca tinha acontecido à economia, ao longo do tempo.

Assim, o tempo e a trajectória seguida pela economia ao longo do  tempo eram irrelevantes para o equilíbrio. Apenas as mudanças microeconómicas  levariam   a taxa natural a  mudar. Nesse sentido, o debate político tornou-se cada vez mais concentrado na desregulamentação, na  privatização e nas redução  do papel do Estado-Providência  e das suas funções.

(continua)

________

Para ler a Parte II deste trabalho de Bill Mitchell, Syriza deve ficar à esquerda da linha – o que está  em jogo  é bem mais do que a própria   Grécia, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

SYRIZA DEVE FICAR À ESQUERDA DA LINHA – O QUE ESTÁ EM JOGO É BEM MAIS DO QUE A PRÓPRIA GRÉCIA – por BILL MITCHELL – II

________

Pode ler o original de Bill Mitchell em:

http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=30500

(c) Copyright 2015 William Mitchell. All Rights Reserved.

Publicação autorizada pelo autor

Leave a Reply