KRUGMAN, CAMERON, MILIBAND, PASSOS COELHO E ANTÓNIO COSTA – ALGUMAS REFLEXÕES À VOLTA DO PROGRAMA UMA DÉCADA PARA PORTUGAL – por JÚLIO MARQUES MOTA – III

júlio marques mota

(continuação)

O texto de novo é bem claro, a responsabilidade não é do modelo, a responsabilidade não é sequer da finança, é dos trabalhadores, salários altos e direitos elevados, é dos produtores, sobretudo dos pequenos e médios, uma vez que estes não se souberam adaptar à concorrência mundial. É pois necessário continuar a pressionar os salários à baixa, é a ilação que se tira do excerto acima. Aliás contra este texto dos 4 Presidentes, escreve Bill Mitchell:

“A zona euro agora está prisioneira dentro de uma camisa de forças da austeridade económica, impulsionada por uma ideologia económica que está cega para a evidência do seu próprio fracasso.

As políticas neoliberais de desregulamentação e a demonização da utilização dos défices orçamentais discricionários (a despesa pública maior que as receitas governamentais) foram elas que, em primeiro lugar, criaram a crise, e agora são as mesmas políticas que a estão a prolongar.

A abordagem política actual tem institucionalizada a estagnação económica, a contenção generalizada e a degradação das condições de trabalho e das pensões de reforma. Milhões de trabalhadores europeus estão agora desempregados, a desigualdade e as taxas de pobreza estão a subir e os seus cidadãos estão a sofrer de cada vez maiores perdas de rendimento nacional.

A juventude tem  taxas de desemprego dramaticamente altas e o seu nível elevadíssimo mostra que estas irão garantir que os danos se irão prolongar bem para além de um futuro imediato e irão abranger várias as gerações e minar a prosperidade futura com uma coorte de jovens desempregados a chegarem à idade adulta sem nenhuma experiência de trabalho e com um sentimento crescente de marginação face às normas e práticas sociais tradicionais.

Ainda agora o Conselho Europeu continua a subscrever documentos em que se encara o problema como sendo de eficiência microeconómica (impedimentos estruturais) ao invés de o analisarem a partir da uma escassez macroeconómica da despesa.

(…)

No documento repete-se este dogma.

Além disso, no documento fala-se sobre o “interesse comum” de todos os Estados-Membros, mas este é apenas expresso, em termos de aderência às regras, que são supostamente projectados para se atingir “um claro conjunto de metas – crescimento sustentável e inclusivo, estabilidade de preços, posições orçamentais correctas e altos níveis de emprego “

Devemos sublinhar que nenhum destes objectivos foram até alcançados depois de 15 anos a trabalharem nesse sentido, o que pode levar a quem não esteja prisioneiro do pensamento desse grupo que o “conjunto de regras comuns” é defeituoso.

(…)

Não há maneira alguma de podermos aqui aceitar o tipo de disparidades que se têm verificado nesta chamada “comunidade de destino” que o Conselho Europeu pretende promover.

Claro, a diferença, a diferença crucial está em que a Austrália é uma federação funcional com um governo federal coerente, que alinha a função da sua política orçamental com a função da sua política monetária. Também actua no sentido de garantir que nenhum Estado é, na verdade, deixado para trás.

A chamada “comunidade de destino” não tem uma tal capacidade, e de tal modo é assim que todas as transferências são registadas em termos de contribuintes alemães para os gregos preguiçosos, que não pagam impostos ‘ ou alguma outra idiotice semelhante.

Não há nenhuma “comunidade de destino” no quadro desta narrativa. Trata-se de uma narrativa assente, sobretudo, num acordo fracturado e antagónico entre nações, e isto sob diversos pontos de vista – cultural, linguístico, estrutura económica.

Faltam-lhe os ingredientes essenciais para que possa funcionar bem e para cobrir esta mesma ausência são criadas regras que asseguram que não irá funcionar.

Esta é pois a zona euro em 2015.

(…)

Os dados mostram que, depois de entrada em vigor do euro, a competitividade internacional para todas as nações mostrou-se em declínio excepto nos casos de França, da Finlândia e da Alemanha.

Logo a seguir à crise, a tendência geral tem sido a das taxas de câmbio efectivas reais estarem a declinar. No entanto, apesar do programa de enormíssima austeridade que a Grécia sofreu, a diminuição da sua taxa de câmbio efectiva real foi menor quando confrontado com o declínio na Alemanha (10,8 por cento contra 11,9 por cento).

Das nações da zona do euro, só a Irlanda melhorou a sua posição em relação à Alemanha (19,8 por cento) desde o início da crise.

zona euro - IV

(…)

Os dados sugerem-nos que a desvalorização interna não fornece nenhuma base sólida para o crescimento. Em primeiro lugar, é uma estratégia de ‘correr globalmente para o fundo ‘ que tenta reduzir os custos unitários do trabalho através de cortes nos salários, que comprometem a despesa interna.

Mas se o moral da força de trabalho também cai devido aos cortes de salários, é provável que a sabotagem industrial e o absentismo aumentarão, prejudicando a produtividade do trabalho.

Mais ainda, o investimento empresarial total é susceptível de diminuir em resposta à descida na despesa, o que também corrói o crescimento da produtividade futura. Não existe, portanto, nenhuma garantia de que haverá uma diminuição significativa dos custos laborais unitários.

(continua)

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Para ler a Parte II destas reflexões de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

KRUGMAN, CAMERON, MILIBAND, PASSOS COELHO E ANTÓNIO COSTA – ALGUMAS REFLEXÕES À VOLTA DO PROGRAMA UMA DÉCADA PARA PORTUGAL – por JÚLIO MARQUES MOTA – II

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