A CRISE NA ESPANHA JÁ PERTENCE À HISTÓRIA? por Edward Hugh – IV

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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A crise na Espanha já pertence à história?

Edward HughIs The Crisis Now History In Spain?

A Fistful of Euros – European Opinion, 14 de Abril de 2015 

(CONTINUAÇÃO, de sábado, 16 de Maio)

Agora sobre a parte meio vazia da garrafa

+Como é que há uma “boa” deflação para a Espanha

Na minha opinião a deflação é um dos graves problemas que potencialmente obscurecem as perspectivas económicas na Espanha, como eu explico no texto “boa” deflação para a Espanha. Uma vez que aí apresentei os meus argumentos de forma detalhada, não me vou aqui repetir.

Aqui, apenas devo sublinhar que o argumento de que a Espanha está simplesmente a sofrer o impacto de um choque de preço do petróleo negativo não se sustenta, desde que, como sugere o gráfico abaixo, se excluirmos a energia e os impactos tributários, a Espanha tem andado em claro “namoro” com a deflação desde o início de 2012.

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Também é evidente que não há nenhum efeito de adiamento de compras a curto prazo e, na verdade, podemos ver confirmar em todos os países que com a queda de preços as pessoas compram mais. Isto é em grande parte assim porque não esperam a deflação e simplesmente aproveitam o que elas vêem como ofertas “temporárias” dos vendedores os descontos para se comprar. Como a situação de inflação muito baixa ou mesmo negativa e se esta se prolonga por muito tempo, o risco então é o de que as pessoas fiquem a esperar descontos constantes e renovados, forçando os preços ainda mais à descida, numa espécie de expectativas auto-realizadoras. Este é o efeito de adiamento da despesa para mais tarde, efeito que se reforça ao longo do tempo.

É também este o caso, agora que os preços caíram, mas os salários e pensões não foram reduzidas proporcionalmente. Se e quando isso começar a acontecer, então o impacto na confiança do consumidor pode ser o oposto do que nós estamos a ver agora.

Em geral, se os rendimentos não estão a cair, o problema do crescimento do fardo da dívida não é operativo, desde que não mude a relação entre a dívida e o rendimento, é somente quando os rendimentos caem e durante longos períodos de tempo, que esse impacto começa a fazer sentir a sua presença.

Há uma retoma do mercado imobiliário?

A habitação em Espanha oferece-nos um exemplo claro de qualquer coisa cujo preço caiu consideravelmente, à volta de 40% desde o pico de 2007, e cujo preço continua a cair (na casa dos 3% a 5% por ano).

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Ainda estamos longe de ter sido esta queda de preços a ter estimulado a procura, estamos a assistir ao efeito oposto: a procura entrou em colapso e não está a recuperar significativamente (ver o meu texto de Abril de 2014, “Firmly Anchored Expectations, No Postponement of Purchases?”). O número de casas novas, compradas em Dezembro foi de pouco mais de 7.000. Isso foi o mais baixo nível mensal em mais de uma década.

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Na verdade, está a aumentar o número de casas vendidas em segunda mão, mas nem o total combinado está longe de se mostrar em evidente subida..

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Talvez a coisa mais preocupante sobre o facto de que a compra das casas de segunda-mão está a melhorar enquanto a venda de casas novas não o está, é aquela parte da explicação para o facto de que as propriedades se passam a considerar como usadas dois anos depois de concluídas (assim, as casas de segunda-mão são de facto novas), mas isto torna a situação relativamente às casas novas profundamente preocupante, uma vez que há quase 1 milhão de unidades habitacionais por vender e ainda classificadas como “novas” que significa que estas têm – em geral – sido construídos nos últimos dois anos. De acordo com a associação dos construtores civis CEPCO o número de novas unidades habitacionais que não tinham sido vendidas e que permanecem devolutas eram no final de 2014, 439.617 casas.

Obviamente que o mercado do imobiliário se estabiliza mas não é a mesma coisa que estar a retomar uma verdadeira trajectória de crescimento, especialmente quando nos referimos à evolução dos preços das casas. Há duas razões para pensar que a recuperação será muito fraca. A primeira delas é o hábito generalizado entre os jovens em arrendar casa em vez de comprar. Mas a segunda razão é ainda mais importante: a população da Espanha, especialmente na faixa etária dos 25 aos 40 está a baixar e cada geração é menor agora do que a anterior.

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De uma retoma conduzida pelas exportações a uma retoma conduzida pelas importações?

As exportações passaram por um “ponto fraco” em meados de 2014, mas recuperaram no final do ano. Com os preços dos bens exportáveis deflacionados as mercadorias exportadas cresceram 4,7% ao longo do ano até Dezembro em comparação com o mesmo período do ano anterior. A deflação em Espanha ( os preços dos bens exportados desceram em termos anuais 1,1% no mesmo período) e o enfraquecimento do Euro obviamente têm ajudado. O turismo também tem estado bem e os rendimentos gerados por este sector cresceram cerca de 3,4% ao ano e até Janeiro (quando comparado com os últimos 12 meses).

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No entanto, deixou de ser verdade falar em retoma em Espanha a ser impulsionada pelas exportações, uma vez que o crescimento no consumo doméstico tem levado a um aumento das importações; a consequência é a de que a balança comercial se enfraqueceu, significando agora que quando se relaciona o saldo da balança comercial com o PIB esta relação vem agora negativa (veja-se abaixo). Esta questão vai voltar a preocupar-nos, uma vez que com a população a diminuir, o governo ao reduzir o défice orçamental e o sector privado não aumentando a sua vontade pelo crédito, a procura interna não pode continuar a conduzir a economia indefinidamente.

edwardhugh - XXV (continua)

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Para ler a Parte III deste trabalho de Edward Hugh, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

A CRISE NA ESPANHA JÁ PERTENCE À HISTÓRIA? por Edward Hugh – III

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Edward Hugh, Is The Crisis Now History In Spain? Texto publicado em A Fistful Of Euros-European Opinion, disponível em:

http://fistfulofeuros.net/afoe/is-the-crisis-now-history-in-spain/

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