ESTA COISA DAS PREFERÊNCIAS NAS LEITURAS – por João Machado

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Esta coisa das preferências nas leituras …

João Machado

É um problema mais complicado do que talvez pareça a muita gente. Sem dúvida que gostos não se discutem (vocês não digam nada a ninguém, mas eu cá não concordo nada com esta afirmação). Mas o facto é que isto das leituras pesa muito, e de que maneira.

O nosso Estrolabio anda com vontade de entrar no assunto. Temos aquela rubrica Os Dez Livros mais lidos do Século XX, a qual, se bem me lembro (nada de comparações com o Nemésio; formidável o Mau Tempo no Canal), até à data, teve escassas participações. Mas as participações que houve foram de alto gabarito. Talvez por isso alguns tenham hesitado em dar o seu contributo. No meu caso, também não contribuí até à data, por várias razões que vou tentar explicar.

Quando começo a pensar no assunto fico atrapalhado. Ocorrem-me ideias diversas. Para começar, assalta-me uma data de nomes, uns atrás dos outros, e fico na dúvida. A alguns tinha que os ler outra vez. Recordo-me de Dostoievsky, que li quase todo há quarenta e tal anos, e encho o peito, e ver se consigo ir lê-lo outra vez. Reli há uns meses parte do Crime e Castigo e fiquei novamente de boca aberta. Será que ainda estou assim jovem?

Mas li o Germinal do Zola, há mais de cinquenta anos. Lembro-me tão bem … e eu era tão novo. Deve ser um dos tais livros da minha vida. Problema: estes que acabo de referir foram todos escritos no século XIX. Portanto não contam para a nossa estrolábica rubrica. Por vezes organizo-me e ponho-me a pensar no Camus. A Peste é para a lista, sim, senhor. E porque não O Estrangeiro, ou O Exílio e o Reino? Começam novamente as dúvidas. O Saramago, pronto, só ponho O Ano da Morte de Ricardo Reis. Mas se calhar estou a ser injusto com O Evangelho segundo Jesus Cristo, não é? E O Memorial do Convento? O Sartre tem que entrar (eh pá, vocês desculpem, mas A Idade da Razão, quem não a leu faz favor de ir ler. Eu sei que o Sartre era snob (isso dizem, mas não têm razão, uns tipos que refiro mais abaixo), mas caramba, aquilo vai até ao tutano. Bom, mas já que falamos em snobismo, O Ulisses, não é? Levei quase um ano a lê-lo (em inglês, meninos, com o dicionário ao lado, que muitas vezes não me servia de nada), mas garanto-vos que gostei. Vocês não acreditam, mas eu gostei. Bolas (era outra a palavra que disse alto, mas lembrei-me da Farewell, my lovelyAugusta Clara, da Ethel, da Clara, etc. Claro que a ver se as provoco). E para continuarmos com o snobismo, o Raymond Chandler tem que entrar. Desta vez ponho só o Farewell, my Lovely, e deixo de fora The Big Sleep, The High Window e o resto. Ficam de fora também os títulos em português, porque não me lembro. É o snob. E na passada, não esqueçam o Manuel Vasquez Montalban. Galíndez, de leitura obrigatória. A Autobiografia do General Franco, Os Mares do Sul. Que inveja que eu tenho! Já agora não posso deixar de vos lembrar A Balada do Mar Salgado, do Hugh Pratt (era melhor dizer do Corto Maltese, não acham?).

É pouco patriótico deixar os portugueses de fora. Eu não concordo com o patriotismo (é só conversa, que eu sofro á brava com os desaires da inditosa pátria, no futebol e no resto), mas realmente o Manuel da Fonseca e o seu Cerro Maior têm de lá estar. Este gajo põe-me tão parvo quando o leio … E acrescentem o Branquinho da Fonseca e O Barão, tão curioso. Mas deixei-me voltar aos russos e lembrar-lhes um tipo fabuloso, o Mikhail Bulgakov. Li O Mestre e Margarida em Janeiro de 1971, estava de cama, horrivelmente doente. Uma visita do diabo a Moscovo, sim, já depois da revolução … Fartei-me de rir. Se não leram, leiam, que se divertem. E o Soljenitsyne, e Um Dia na Vida de Ivan Denisovich. O homem era reaça, ao que dizem, mas genial, sem dúvida.

Bom, acho que já aí têm dez livros escritos no século XX. Contem-nos, faz favor, um por autor, e digam-me se não falhei. Mas vou dizer-vos outra coisa que me perturba. As edições  com grandes tiragens (exceptuando, claro, o Saramago) são de tipos melhores ou piores, mas de nível geralmente para o baixo. Tenho aqui um ponto fraco: realmente não os leio. Qualquer interlocutor daqueles muito inteligentes (acham eles), com uma voz forte e um ar dominador, arruma-me logo com esse argumento na cabeça. Posso tentar responder que vejo frequentemente o José Rodrigues dos Santos, com o seu ar juvenil, na televisão, e que fico a pensar onde é que ele vai buscar o tempo para escrever, que a Margarida Rebelo Pinto deve ser uma moça vistosa, e tem uma coluna no Sol, que já tentei ler, mas obviamente, não chega. Defendo-me ainda dizendo que já li e traduzi romances cor de rosa para ganhar uns cobres, que li o Irving Wallace, que o achei menos mau, mas escrevia (não sei se ainda é vivo), que até arrancava uns argumentos interessantes, mas enchia muito papel, mas tudo isto é pouco. Só os magoei um pouco (estavam a pedi-las) quando lhes disse (quase que confessei) que li Verónica tem de morrer, do Paulo Coelho, que achei abominável, e não percebo como se consegue aguentar escritos semelhantes. Um mais vivaço ainda me tentou vir com o Joyce, mas calou-se quando lhe disse que O Retrato do Artista enquanto Jovem, reproduzia as sensações e as amarguras suportadas pelo narrador, em situações vividas, que ele nos procurava transmitir na sua escrita. Não deu para mais.

O facto é que esta questão não é nova. Saber isso, pessoalmente, ajuda-me. Para não vos maçar mais, vou transcrever-vos O Mais Belo Livro, do André Brun, que ele publicou em 1914, na sua coluna de A Capital, incluído na série Praxedes, mulher e filhos. Verão assim que há quase cem anos, já se sentia este problema. Ora leiam:

André Brun - II

O MAIS BELO LIVRO

O jornal A República abriu um inquérito entre os intelectuais no sentido de indagar qual será o mais belo livro português dos últimos trinta anos. Pela minha parte, lamento que a consulta seja feita apenas aos que fazem profissão de serem inteligentes. Desde que me constou que o inquérito estava em marcha, andava ansioso por saber qual a opinião do meu amigo Praxedes. Interessa-me bem mais do que a dos intelectuais, isto sem desprimor para nenhum, pois a todos respeito em geral e ao Sr. João Bonança em particular.

Praxedes amigo estava jungido à canga da repartição quando o fui entrevistar.

– O melhor livro dos últimos trinta anos? Oh, meu amigo!… Para mim, não há como Os Milhões da Viscondessa. Não leu? Veio em folhetins no Século. Sim senhor. Bela obra! A minha mulher gostou mais da Virgem parricida, que veio no Notícias; mas, aqui para nós, aquilo é uma estúpida que não entende nada de literatura. Tenho lido muitos folhetins. Aqui na repartição, leio quase todos, mas como aquele nenhum. Imagine você… Começa numa taberna de apaches, em Paris. Há uma rapariga que vende flores, e se apaixona por um conde, que é casado com uma filha de um duque, que, nos seus tempos de criança, teve um bastardo de um oficial, filho de um guarda-caça …

– O duque é que teve a criança?

– Não, a filha. A pequena cresce. Toca realejo e pede  esmola. Um dos apaches apaixona-se por ela. Um belo dia aparece morto o usurário …

– Qual usurário?

– O “Lagarto”.

– Qual “Lagarto”?

– É alcunha do homem.

– Ah!

– Surge um jornalista, que é polícia e tem um cão…

– Que morde no gato, que papa o rato, que rói o cebo, que unta a corda… Conheço essa história.

– Com você não se pode falar a sério. Ria-se à vontade, meu amigo; mas bem pode a Genoveva puxar para a Virgem parricida, a mim ninguém me arranca dos Milhões da Viscondessa.

– Mas, meu caro Praxedes, isso é literatura francesa de fancaria, de décima terceira classe, ad usum das porteiras da capital do mundo. Eu perguntava-lhe qual é o livro português de que você mais gosta.

– Ah! Livros portugueses… Nunca li nenhum…

***

Este texto saiu no Estrolabio, no VerbArte, em 16 de Dezembro de 2010. Como estou lesionado, repito-o hoje aqui. Não aguento bater muito à tecla, por isso paro aqui as explicações.  Vejam em:

http://estrolabio.blogs.sapo.pt/452077.html

 

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