ESTÁ A UNIÃO EUROPEIA JÁ À BEIRA DO DESASTRE INEVITÁVEL? por MARK COLVIN

solidariedade-com-a-grc3a9cia1 - ii

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

europe_pol_1993

Está  a União Europeia já à beira do desastre inevitável?

Mark Colvin, Is the European Union already on the brink of inevitable disaster?

ABC News, 9 de Junho de 2015

 

MARK COLVIN: Raramente se viu a União Europeia como tão  frágil.

O primeiro-ministro  da Grécia, Alexis Tsipras,  disse numa  entrevista que se a Grécia falha, será o começo do fim da zona euro.

Tsipras considera   que ‘um Grexit’, tal como está a ser   chamado, provocaria a derrapagem definitiva e total do projecto europeu .

Entretanto,  o primeiro ministro David Cameron da Grâ Bretanha ultrapassou um verdadeiro  emaranhado político,  o qual irá  fazer com que os seus ministros alinhem   ao longo da etapa que vai ser a campanha para um voto sim  no referendo sobre a permanência ou não da Grã-Bretanha na União Europeia.
Mas um novo livro sugere que aconteça o que acontecer, a  Europa está  já à beira do desastre inevitável.

É o livro de George Friedman, com o título  ‘Flashpoints’,  e este  autor  disse-me, via  Skype, lá do Texas, que a Alemanha, a central eléctrica  da economia europeia  –  é o  problema central.

GEORGE FRIEDMAN: O importante  da questão é que uma zona de comércio livre, em que o buraco negro  está  no centro, a Alemanha, bate absolutamente todos   os seus concorrentes  e a concorrência não pode proteger-se, o que é insustentável.

MARK COLVIN:  Há aqui um paradoxo, não é? Porque na verdade  a UE nasceu como uma solução para o problema de uma Alemanha  dominadora .

GEORGE FRIEDMAN: Precisamente. E realmente, isso vai voltar a colocar-nos no século  XIX, por volta de 1871. Quando a Alemanha concluiu a sua unificação, rapidamente se tornou, a seguir,   o motor económico da Europa. Mas a Alemanha também é muitíssimo  insegura.

Então ao mesmo tempo que se foi tornando mais poderosa que  a França, e igualando a Grã-Bretanha em termos da sua viabilidade económica, tornou-se também   num país com muito medo das forças à sua volta.

Isto é o que a Alemanha é hoje. De longe, a Alemanha é o país mais produtivo na Europa.

Mas o seu enorme medo  é de que a UE se vá desfazer, não por causa do Euro – que é uma questão secundária – mas porque irá perder a sua zona de comércio livre. Porque se nos podemos  proteger, os alemães não  poderão vender.

Assim,  os alemães estão muito agressivos com os gregos, por exemplo, a tentar fazer com eles  espectáculo, mas também conscientes de que se fazem demasiado espectáculo  os outros países como a Espanha ou a Itália poderão pensar em sair.

E se eles os deixam deste tipo de prisão isto pode levar outros países a pensar fazer o mesmo   e então a Alemanha fica numa  posição muito difícil.

E agora a Alemanha está a deixar no ar a ideia de que eles podem não querer forçá-los a pagar as suas dívidas até 2016, porque obviamente a Alemanha precisa de facto de  manter a zona de comércio livre. E faz bluff como pode,  está aterrada com o medo de que a UE acabe.

MARK COLVIN: Temos estado a falar  em termos de grande  poder, suponho, mais do que em termos  de falarmos ao o nível das pessoas. Mas, certamente, as pessoas  estão agora a ser tão utilizadas  quanto aos   benefícios da livre circulação e da moeda única, da liberdade das trocas comerciais e da mobilidade do trabalho  que nos permite a  UE, que irão  resistir, ou não? Irão resistir a qualquer desmantelamento da zona euro.

GEORGE FRIEDMAN:  Bem, no sul da Europa está-se em profunda  depressão, e eu digo depressão porque os números – os números do desemprego e outros igualmente  – são pura e simplesmente  catastróficos.

MARK COLVIN: E então eles precisam desesperadamente do turismo do Norte e não só ?

GEORGE FRIEDMAN: Bem, mas isso não vai resolver o problema, digo que o turismo não vai tomar a Itália de assalto e fazer  dela um país com saúde económica.  O que realmente é necessário é o que os franceses têm tornado muito claro. Eles não podem harmonizar a sua economia com a da Alemanha.

A Alemanha quer ter equilibrado os orçamentos públicos. A França deixou bem claro que não pode ter um orçamento equilibrado. A França está  mais  para não respeitar  o que é chamado um Tratado de harmonização por erosão dos défices e basicamente a dizer  ao resto da Europa, sabe, “faça o que quiser.”
A Hungria fez algo de muito interessante. Os húngaros pediram dinheiro emprestado  à volta dos  90 em hipotecas que foram denominadas em Euros, Yen, francos suíços.

Quando o Forint, a moeda húngara, caiu, ninguém poderia pagar as suas hipotecas. Basicamente o governo húngaro disse para os banqueiros, “Olhem, nós vamos pagar as nossas hipotecas em Forints, e nós vamos dar-lhe cerca de 60 cêntimos por dólar.”

Foi mais complicado do que isto, mas foi o que eles disseram. “Ou  então não vos damos nada. Vão para casa, pensem bem, e digam-nos depois o que pretendem .”

Por outras palavras, cada país está a  proteger os seus  próprios interesses, e não há nenhuma harmonia de  interesses na Europa.

A livre circulação de trabalhadores é algo que é muito assustador. Assim, por exemplo, os dinamarqueses tornaram-se muito insistentes em controlar as suas fronteiras, o que  é muito difícil de fazer.

Os britânicos também. A livre circulação do trabalho significa que os búlgaros vão para a Dinamarca à procura de empregos. Isto é algo que é utilizado  de modo a parecer  ser uma ideia maravilhosa, o que não é agora.

Assim, as grandes ideias com que a União Europeia começou mudaram muito,  como  frequentemente acontece na história, e transformaram-se em problemas.

MARK COLVIN: Então para si, como será a UE, digamos,  daqui a dez anos  ?

GEORGE FRIEDMAN: Bem, a UE será  muito parecida com o seguinte: um ninho  de países europeus arruaceiros. Se eles irão manter reuniões como disseram em Bruxelas ou não,  realmente isto  não é a questão.

Os húngaros estão a procurar satisfazer  os interesses húngaros, os gregos os interesses gregos, os alemães os interesses alemães  e assim sucessivamente.

O que é realmente importante é que o período que vai de  1992, quando foi assinado o Tratado de Maastricht, até  2008, quando começou a crise financeira, está a parecer-me uma verdadeira aberração.
MARK COLVIN: Mas falou  num  grupo de países arruaceiros  e  já fez alusão à história. Quer dizer que, desde a guerra Franco-Prussiana até 1945, a história é muito, muito desagradável mesmo.

É o corolário que a Europa eventualmente pode caminhar para a guerra?

GEORGE FRIEDMAN:  Bem, a questão é como é que realmente ela caminhou?

De 45 para 92, a Europa foi ocupada pelos soviéticos e pelos americanos. As questões fundamentais da soberania não estavam nas mãos de Londres, de Berlim ou de  Roma, estava nas mãos de Washington e Moscovo.

Em 92, a União Soviética entrou em colapso, e pela primeira vez desde a segunda guerra mundial, a Europa tornou-se verdadeiramente soberana. E durante 16 anos, teve sucesso.

Nos últimos sete anos, tem sido bastante desastroso, e a questão  é, será que pode inverter este caminho? E se eles não mudam de caminho, o que é que os  impede de voltar para o tipo de história que é normal na Europa?

E o que defendo é que, basicamente, o período de 92 a 2008 foi uma aberração interessante. Estamos agora de volta ao velho normal, e qual a extensão e profundidade do mal a que isto vai chegar  depende de muitas questões (inaudíveis).

Mas primeiro temos de realmente reconhecer que a ideia de Europa que perspectivámos com a criação da União Europeia não vai voltar a existir, [ deixa de pertencer ao futuro, morreu com este presente]. .

Mark Colvin, Is the European Union already on the brink of inevitable disaster?, texto disponível em:

http://www.abc.net.au/pm/content/2015/s4251725.htm

MARK COLVIN: George Friedman, whose book is called Flash Points: The Emerging Crisis in Europe.

Leave a Reply