UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (100)

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Esta é a centésima Carta do Porto.

Quer eu queira quer não, é um marco.

Quando aceitei o desafio dos meus amigos, Carlos Loures, Clara Castilho e João Machado, que em boa hora mo fizeram, comprometi-me a escrever durante um ano, uma vez por semana mas, passado esse tempo fui ficando e, com uma ou outra falha semanal, já se passaram dois e por cá vou continuando.

Tudo começou a 5 de Setembro de 2013 com a carta nº1.

De lá para cá, milhares de visitantes, centenas de comentários e muitas alegrias.

Passeei pela minha cidade, visitei monumentos, contei histórias, comentei sentimentos, fotografei recantos e paisagens lindas, e falei de locais esquecidos, a par de outros muito badalados.

Tentei mostrar-vos a minha cidade através dos meus olhos e através dos meus pensamentos. Com isso, pretendi captar a vossa atenção, e o vosso desejo de nos visitarem. Não somos melhores do que quaisquer outros, somos diferentes, bonitos e bons.

Obrigado pela paciência e pela boa-vontade que têm demonstrado para comigo, ao lerem o que vos vou mostrando e escrevendo.

Estamos, dia-a-dia a ter como retorno do que vamos mostrando (a cidade, através dos seus representantes e dos seus promotores), o reconhecimento de muitos, até, imaginem, a nível mundial.

Nunca, como hoje, a cidade do Porto foi tão falada, descrita, fotografada e premiada.

Sinto um enorme orgulho em ser Portuense, em ser Tripeiro!

 

Era uma Segunda-feira

Era Segunda-feira e resolvi sair do Porto. Não que nada se passasse na minha cidade, mas pela vontade de ir visitar gente amiga a poucos quilómetros de distância.

Era Segunda-feira e fui a Vila Real. Era Segunda-feira e, ao almoço, correu mal.

Cheguei ao cimo do Marão, região lindíssima e onde tenho algumas raízes, pouco passava do meio-dia. Resolvemos rumar ao centro da cidade de Vila Real, para almoçarmos. Fomos comer a um “restaurantezinho modesto mas bom, mesmo ali antes dos Correios”.

A indicação foi-nos dada por um polícia da cidade. Nada teria que enganar. Os homens da terra até deviam saber onde se come bem e barato, pensámos nós.

No entanto, correu mal.

A comida era fraca, tanto o Bacalhau à Gomes de Sá (com um odor um tanto ou quanto duvidoso), como o Frango Assado (mal assado e frio). O vinho, da casa, era sofrível.

Deixámos a comida a meio e descemos as escadas (sim, ficamos no primeiro andar do restaurante (uma mini salinha agradável), e dirigimo-nos para o balcão, a fim de pagar. Não nos queixámos de nada. Não havia qualquer necessidade de o fazermos.

O indivíduo que estava atrás do balcão, ia atendendo as pessoas que, chegando depois de nós, ali iam para lhe pagar. Um, dois, três, quatro…. seis… e eu perguntei, “Desculpe, sou transparente?”,  ao que o homem me respondeu, “Não sei o que quer, e estas pessoas pagam sempre o mesmo e eu já sei.”, com um tom que quase roçava o desafio. Realmente poderia ter virado costas e ido embora sem pagar, mas, “Queria pagar”, disse, “O que comeu?”, perguntou, e eu respondi. “São seis a cada um” (os que iam pagando pagavam cinco), aceitou a minha nota de vinte e, ainda com modos a roçar a indelicadeza, devolveu-me sete euros. Talvez eu tivesse percebido mal e não fossem seis, mas seis e meio…. enfim, era Segunda-feira e às segundas feiras, em Vila Real, as coisas não correm bem, só mal, e o homem deveria ter tido um fim de semana difícil, sei lá.

Fui-me embora, pensando, vou ali à Gomes tomar café. Entrei na pequenina Gomes, já que a grande estava fechada, talvez, também, por ser Segunda-feira. Tinha dois clientes  sentados e quatro no balcão junto à porta. Pedi, no balcão do fundo um café que me foi diligentemente servido. Perguntei, “Quanto é, por favor?”, resposta “A minha colega já recebe”. Cinco minutos depois, ou tal me pareceu já que a minha irritação anterior triplicava os segundos, ainda a colega não tinha recebido. E eu de pé, ao balcão, à espera. Acabei por dizer “Por favor, a sua colega não me vê?”. “Desculpe”, disse, “Eu não posso receber, só ela, se quiser pode lá ir pagar”. Não queria, mas fui, pensando, “Às Segundas, em Vila Real, tem mesmo que correr mal!”

Meneses

Eram duas da tarde e resolvi fazer então o que me levara ali. Visitar uma das aldeias que possuem das vistas de montanha mais bonitas que alguma vez vi.

Sete quilómetros para poente da cidade, fica Meneses, a aldeia que, na minha infância e adolescência era o meu local de férias, em casa da Sra. Margarida e do Sr. Aurélio. Meu, e também dos meus primos e da minha irmã.

Meneses, saudosa Meneses da minha infância e juventude, terra de lendas e encantos, e de Reis e Princesas que para lá fugiram por amor.

Vou lá espreitá-la duas vezes por ano, às vezes mais. Passo pelo cemitério, onde entro sempre e faço as minhas orações, e depois vou devagarinho, até à fonte de Coucieiro, e volto, parando aqui e ali, apreciando a vista, relembrando acontecimentos, parecendo ouvir os silêncios e os ruídos de outrora.

Fonte do Coucieiro
Fonte do Coucieiro
Ao lado da Fonte do Coucieiro
Ao lado da Fonte do Coucieiro

Desta vez, fui à procura dos amigos de quem tantas saudades tinha, e tive a felicidade de encontrar alguns e de conhecer uma nova Margarida de que só sabia da existência (uma menina linda e simpática que por certo sairá à sua tia-avó). Tive de esconder uma lágrima que teimava em aparecer e querer saltar cara abaixo. Foi um encontro bonito, uma conversa feita de recordações e um encher da alma, como há muito não sentia.

A visita à varanda da casa do saudoso Sr Manuel Inácio, trouxe-me de novo uma, se calhar a mesma, lágrima, que tive alguma dificuldade em esconder. Aquela paisagem, de tirar o fôlego, teve o condão de me transportar para há cinquenta anos, para os meus amigos já desaparecidos, para os que, ausentes nas suas vidas, ali não estavam, e para situações e conversas tidas. Fui muito feliz em todas as minhas férias ali passadas. Foram tempos bons passados com pessoas boas.

Meneses
Meneses
Meneses
Meneses

Relembrei parte da minha história, e trouxe à memória um passado que ajudou a fundar os alicerces do que eu sou e de que tanto me orgulho, e  dos que dela fizeram parte.

Que bom que foi reencontrar alguns e poder falar de todos.

Voltarei dentro de muito pouco tempo, na altura das vindimas, para poder encontrar alguns outros, e voltar a relembrar e viver, momentos de felicidade.

 

E AS NOTÍCIAS DO PORTO

 

 

11 Comments

  1. Vivas felicitações por esta 100ª Carta do Porto.
    Sempre que tenho oportunidade leio os seu escritos e aprecio a qualidade das imagens que os acompanham.
    Espero que nunca lhe falte o ânimo para nos proporcionar magníficos momentos de cultura.

    Um abraço amigo.

  2. Os meus parabéns pelo seu percurso portuense . Encantou-me ,sobretudo pelas fotos de uma cidade de que tenho uma ténue lembrança dos meus 17 anos . Agora,a viagem é outra -VILA REAL. Aqui estudei num colégio de freiras “Colégio Moderno de S.José até entrar na Fac em Coimbra . Há dois anos ,revesitei.Que desilusão !Uma cidade ,urbanisticamente desarticulada.Era me estranha.Paciência. Aguardo o seu deambular por uma cidade demasiado modernizada à la diable . Vim buscá-lo ao spam.Confesso,não entendo . Obrigada por me contemplar com espaços maravilhosos.Oxalá ,VILA REAL apareça num espaço embelezado pela sua escrita . Maria

  3. É um um prazer sentido ler as suas “Cartas do Porto “. Encantam-me assim como as suas fotos. Gostava de saber se faz encontros de leitura nalgum local. parabéns pela centésima carta e….não desista ,por favor
    Com os meus melhores cumprimentos,

    Maria Teresa

    1. Obrigado, minha cara amiga Teresa Barros Ramalho. Na verdade não faço quaisquer encontros de leitura. Nunca se proporcionou, nem mesmo os de poesia, para os quais já tive alguns convites.
      Quem sabe, um dia isso acontece.
      Quanto a desistir, dificilmente acontecerá.

      Abrç

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