20. Caderno de notas de um etnólogo grego – Impasses I

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revião de Flávio Nunes

 

Caderno de notas de um etnólogo grego – Uma análise social diária da crise grega

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Terça-feira 21 Abril 2015

20. Caderno de notas de um etnólogo grego – Impasses

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A hybris governa o mundo, a hipocrisia reina, e a Troika irrita-se com os Gregos. O verão helénico, decididamente anteportas, no dizer dos rumores oficializados pela imprensa internacional, teria entrado em concorrência aberta com o advento suposto próximo da declaração de falência da Grécia, provavelmente sem abandonar a zona euro. Presente inovador e futuro retocado!

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Praia perto de Atenas, 19 Abril

Enquanto se espera, os Gregos reencontram-se, enfim, nas suas praias, os mais audazes atrevem-se mesmo em ir para a água e comenta-se assim às vezes os acontecimentos marítimos do nosso mundo tão sombrio, tal como as vagas humanas (e desumanizadas) a virem a dar à costa sobre as praias das ilhas, entre Rodes e a Sicília. Corpos e corpos sociais em rutura, meios de comunicação social sobre- pressionados e europeísmo o mais hipócrita possível sobre esta questão como sobre todas as outras. Tudo se passa então na hora do café ou do aperitivo na praia.
Porque as temperaturas verdadeiramente da estação levaram tanto tempo a chegar que um frenesi, dir-se-ia deliberadamente de pré- pompeísmo domina a maioria das pessoas, sobretudo entre o terço da população que vive muito melhor que os outros que se deslocam ainda. Os citadinos saem, os cafés estão cheios, respira-se e espera-se às vezes na alegria comedida que se dê a queda, mais provável que nunca!

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Tsípras: Parem com a chantagem. “Quotidien des Rédacteurs”, le 17 avril

Toda a gente sabe que “as Instituições” (a troika) ameaçam abertamente o governo grego, todos compreendem que a Grécia de SYRIZA/ANEL não cederia sobre toda a linha e as verdadeiras informações relativamente às negociações chegam-nos camufladas, por detrás de uma imensa barragem de fumo. Avançar-se-ia no entanto gentilmente!

Com efeito, a panspermia pluri-sequencial dos dois últimos meses terminou efetivamente por extenuar as pessoas, já cansadas e enfraquecidas depois de cinco anos de governança, assim como o país para-democratizado, porque sustido pela corda da dívida. Daí aliás, penso eu, a ausência tão evidente quanto à mobilização social e da sociedade em geral contra a influência da dívida e contra o memorando, e também esta popularidade largamente mantida de que beneficia e continua a beneficiar o governo Tsipriota. Um caso de estudo para os nossos historiadores do dia seguinte.

 

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Turistas, Cap Sunion, Abril 2015

 

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Temple de Poséidon, Cap Sounion, avril 2015

Como tem sido frequente na história, preparar-nos-íamos para mergulhar no inédito, uma vez mais. No que tenha a ver com os argumentos apresentados como técnicos ou económicos, tudo foi já dito, repetido, analisado, até mesmo recomposto na cabeça e no bolso dos humildes. Sente-se então bem próximo o fim das análises e ao mesmo tempo, o início da cirurgia. Uma outra forma de dizer, os Gregos, que estes apreciem ou não, sentem (a última) sentença ou então a libertação, sinal dos tempos, em que o tempo se torna mais político que nunca.
Porque os problemas económicos são na realidade políticas disfarçadas em avaliações contabilísticas e mais ou menos arranjadas. Daí o impasse, em primeiro lugar um slogan que descobri há já alguns dias escrito numa parede do Pireu, mas também, elementos de análise muito relevantes, propostos por Jacques Sapir sobre o seu blog.
“O governo grego construiu a sua estratégia sobre o facto que o Eurogrupo teria bem mais a perder que a Grécia numa crise. No caso de incumprimento grego, os governos da zona Euro deveriam explicar às suas populações que é necessário recapitalizar urgentemente o BCE e cobrir as perdas do MEE e FEEF . Além disso, um incumprimento grego provocaria a activação dos CDS (crédit-default swaps) que foram emitidos. Por último, psicologicamente, esta crise significaria para todos os observadores que o Euro não é irreversível mas também que os países “do núcleo” da zona euro não estão prontos para assumir as consequências do funcionamento da zona euro. Seria necessário apenas algumas semanas para que a crise se reflita nos países periféricos (Espanha, Portugal, Irlanda e Itália). De país a país, conduzir-se-ia à implosão da zona euro. É por isso que o governo grego não se quer render. Acrescentemos, e todos compreendem, que se ele cede perde então imediatamente toda a sua credibilidade e a sua legitimidade, e que SYRIZA, um partido que passou em cerca de anos de 4% à 36% das sondagens, ficaria pois condenado a desaparecer”.

 

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Encerramentos de unidades fabris. Pireu, Abril 2015

 

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Turistas. Cabo Sounion, Abril de 2015

“Mas, onde o governo grego erra, é que ele pensa que as decisões a nível do Eurogrupo serão tomadas com base em interesses económicos. Com efeito, os governos dos países da zona Euro investiram imensamente na dimensão política”.
“Porque, no caso de compromisso, validando a estratégia de Tsípras e de SYRIZA, é toda a política de austeridade que voaria em estilhaços (com um incentivo muito forte ao Podemos em Espanha e ao Sinn Fein na Irlanda), não somente para grande incómodo da Alemanha (e dos seus aliados) mas também dos homens políticos que, nos outros países, construíram a sua carreira sobre este projeto (como François Hollande)”

“É por isso que um compromisso é realmente uma ilusão. Não há alternativa ao Eurogrupo que não seja esmagar ou morrer. Não há alternativa para o governo grego que não seja a da ir à confrontação ou alternativamente morrer.”

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Monumento dedicado à memória dos italianos mortos em Ática em 1944. Ática, Abril de 2015

(continua)

Reproduzido do sítio greek crisis

Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é : http://www.greekcrisis.fr/

 

 

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