25. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia, 10 Julho – O absurdo

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão Flávio Nunes

 

Caderno de notas de um etnólogo na Grécia, 10 Julho – Uma análise social diária da crise grega

Uma série de Panagiotis Grigoriou

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Sexta-feira 10 Julho 2015

25. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia, 10 Julho – O absurdo

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Gesticulações indigestas. Somente o vento rigorosamente egeu baixou um pouco de intensidade. Verão, sempre e largamente grego. O povo em contrapartida, não deixa de estar encolerizado. Sentimento largamente partilhado face ao acordo que se perfila, o memorando… “do NÃO” estaria em gestação entre os nossos Tsipriotas e os Troïkanos. “Tudo isto então para nada ? ”, grita um velho num café. A tendência esquerda de SYRIZA assume as suas distâncias. Caos e expectativas.

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Desde o porto. Méthana, 9 de Julho

Só o vento da meteorologia caiu incontestavelmente. Na península de Méthana, os donos dum restaurante denunciam a diminuição drástica das viagens executadas pelos ferrys a partir do Pireu. As viagens efectuadas na semana foram praticamente todas suprimidas, somente foram mantidas as que se fazem entre Sexta-feira e Domingo. “Falta de combustível”, avançam então os armadores salvo que ninguém acredita nisso . Os rumores correm, “Hellenic Seaways teria vendido os seus barcos numa operação surpresa”, ouve-se dizer no café do pequeno porto. Rumores, caos e espectativas.

Sexta-feira de manhã (10 de Julho), acredita-se saber mais do novo plano proposto pelo governo grego. “Um programa sério e credível”. É nestes termos que o presidente da República François Hollande qualificou sexta-feira 10 de Julho o novo plano de reformas proposto na quinta-feira 9 de Julho pela Grécia aos seus credores. “Mostram uma determinação em quererem permanecer na zona euro, as discussões devem retomar com uma vontade de concluir”, acrescentou ”, de acordo com a reportagem da imprensa europeista (Le Monde de 10 de Julho).
Panagiótis Lafazánis (ministro da Reestruturação da produção, do Ambiente e da Energia) do movimento Ala Esquerda de SYRIZA, não se associou ao texto adoptado ontem (quinta-feira) no Conselho de Ministros. Assim como Panos Kamménos (partido soberanista ANEL e ministro da Defesa). “Qualquer tentativa de anulação da vontade popular de querer inverter a austeridade e o memorando, traduz a Hibris, no sentido do antigo grego desta palavra ”, pode-se ler num texto de Státhis Kouvelákis, publicado sobre o sítio Internet do movimento da Ala Esquerda de SYRIZA.

 

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O « Não » pela Democracia e pela dignidade . Cartaz SYRIZA da semana passada. Porto de Méthana

 

O texto da Hibris e deste novo memorando III, o qual deveria durar três anos, será discutido em urgência no Parlamento, antes deste Domingo. A lógica cronométrica d25. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia, 10 Julho – O absurdoesta decisão resulta sobretudo do ultimato renovado dos Troïkanos (e elites da Alemanha), e não do povo grego (e de numerosos outros povos na Europa é necessário sublinhá-lo).

Costas Arvanítis, ao micro da rádio 105,5 (SYRIZA), precisa à sua maneira certas posições: “Não sou um partidário do regresso à dracma. Nunca fui favorável de resto às moedas nacionais” (sexta-feira de manhã 10 de Julho). Para os meus amigos do movimento Ala Esquerda de SYRIZA (Lafazánis) a situação é explosiva. “Certos ministros talvez demitir-se-ão ”, dizem-me. O sistema conspira em pleno regime para anular o espírito e a carta do referendo grego e também, para expulsar do governo, Lafazánis e Kamménos, para os substituir pelos seus peões. Como por acaso, Stávros Theodorakis, chefe do partido colaboracionista (do Rio), iniciado por Bruxelas e por Berlim, está outra vez em Bruxelas (10 de Julho), onde se reúne com Jean-Claude Juncke

Vejamos o significado do termo Hibris. Curta explicação: “O hibris é uma noção grega que se pode traduzir por “desmesura”. É um sentimento violento inspirado pelas paixões, e mais particularmente pelo orgulho. Os Gregos opunham-lhe a moderação, a calma. Na Grécia antiga, o termo hibris era considerado como um crime.”

 

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Local SYRIZA, ilha de Egeu , Julho de 2015

 

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Preparação e obras. Égine, Julho de 2015

“Os homens políticos do PASOK e da Nova democracia, este verdadeiro submundo que tem governado a Grécia desde o fim da ditadura dos Coronéis, são mais ridículos que nunca. Antes do referendo, urravam alto e forte , que uma vitória “de NÃO” é sinónimo de GREXIT, ou mesmo, da saída da Grécia da UE, hoje, Meimarakis – líder interino da Nova Democracia após a demissão de Samaras – declara que “o NÃO” grego é o primeiro procedente da vontade grega em querer permanecer no Euro. É a insultarem, estas pessoas tomam-nos então por parvos, deveriam ser julgados nas praças públicas, já basta. Dissemos “NÃO” até ao fim e contra o euro. A sua Europa pode então perecer!” Palavras de uma mulher proferidas num café em Méthana (9 de julho).

Yannis Miliós, economista (demissionário do Comité de política económico SYRIZA) e eurodeputado a substituir Manólis Glézos (depois da sua recente demissão do seu mandato) no Parlamento europeu, quase não diz outra coisa no seu artigo “Plebeus contra Patricios ”:
“O referendo de 2015 era este primeiro esforço para seguir em frente, devido ao impasse da gestão do governo, e particularmente, da estratégia de negociação no âmbito do neoliberalismo. Tendo em conta contudo a existência silenciosa de um contrato social com os plebeus, o referendo revela assim toda esta contradição, nomeadamente, o cisma nas sociedades modernas e também a recusa da gestão governamental. É assim que esta massa popular em ebulição pôde ser gerada na praça da Constituição.”

 

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Figuras do Teatro de sombras e títulos da Bolsa, mas de outrora. Bazar de Aténas, 2015

Este grito das massas, esta afirmação então imediata da sua resposta, ou dito de outra maneira, todo o seu desespero expresso face a um “ Memorando de esquerda” que percebem como que a significar a pedra tumular das suas reivindicações sociais e a sua esperança de ter uma vida aceitável, tudo isso, liberta a parte “não ainda amadurecida” das reivindicações sociais, porção societária então claramente excluída das negociações entre a Grécia e a Troika”.
“O referendo, e também o movimento da multidão, demonstraram que face ao governo, a desintegração da sua “ unidade nacional” se acelera e a formada pelo SYRIZA “amadurece”. As questões e os temores sobre o 6 de Julho, o dia em que este texto é escrito, mas também as das próximas semanas ficam e ficarão numerosas. Há aqui primeiramente o medo sentido pelas massas quanto às ameaças de desmoronamento, na frente da asfixia económica do país e, finalmente, na frente da probabilidade de se vir a impor cenários de tipo Papadémos recauchutado (Primeiro ministro-banqueiro, imposto por Angela Merkel em 2011). Mas há igualmente o pânico tão visível da burguesia e dos gestores políticos face ao que se passa na “rua”, numa perspectiva de uma reacção popular prolongada na Grécia, seguidamente, da propagação do movimento a Espanha e a outros lugares.

“Na realidade, a dinâmica “de NÃO” é doravante autónoma dos planos e dos cenários dos governos. É uma fenda que pode provocar efeitos subversivos, apesar do trabalho político que consiste em minimizar as divisões sociais, isto, desde a convocação do Conselho dos chefes políticos. Que nos importa, sustenta o despertar político e a mobilização popular, porque os interesses repelidos e frustrados das massas ditas subalternas, se voltam a cristalizar através de uma estratégia de ruptura frontal e eficaz, contra os interesses da oligarquia do país.”

 

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Títulos da bolsa de outrora. Bazar de Atenas , 2015

 

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Nada de vento. Dia 9 de Julho

 

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Barco de pesca. Méthana, no dia 9 de Julho

Esta sexta-feira à noite (10 de Julho), o colectivo do “ NÃO” apela a que as pessoas se manifestem de novo na praça da Constituição. “ Eles fingem não ter entendido o nosso ‘NÃO’ de domingo passado. Nós exigimos o respeito pela decisão do povo grego. Exigimos o respeito da democracia e do direito. Têm poucos tempo à sua frente para anularem o seu último ultimato. E se estas pessoas não compreenderam no domingo passado, não nos renderemos em face de nenhuma chantagem nem de ameaça, e não estamos a fingir”.

A grande história, forçosamente do futuro, reterá que Alexis Tsípras pela primeira vez teve êxito em retomar o sentido da política nesta UE, clube sanduíche do totalitarismo financeirista crescente e de um continente totalmente gripado. Quanto ao resto, é talvez menos flagrante.

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Tucídides, ‘História’. Texto original e tradução em grego moderno. 2015

É certamente também o momento de rever ligeiramente o nosso … Tucídides. Primeiro há o que se que poderia chamar o realismo político de Tucídides, as questões do direito e da força, magnificamente analisadas na obra de Castoriádis e de Luciano Canfora, então leituras da relação entre a justiça e o juro no Diálogo Meliano, de Plateias , e sobretudo no diálogo dos Melianos e os Atenienses.
História antiga e historicidade de sempre. Verão largamente grego. Somente o vento rigorosamente egeu caiu certamente. Confusões, lutas e expectativas. Para alguns apenas, trata-se de se porem à sombra e sentir as correntes atmosféricas.

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Apenas alguns se podem pôr à sombra. Méthana, 10 de Julho.

 

Tradução Júlio Marques Mota
Revisão Flávio Nunes
Texto original publicado pelo sítio greek crisis
Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é: http://www.greekcrisis.fr/

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